Política

Não deixe de votar no Grande ABC,
eis uma ideia às próximas eleições

DANIEL LIMA - 11/02/2010

A fuga das galinhas de votos nos candidatos do Grande ABC nas eleições proporcionais para deputado estadual e deputado federal preocupa muito mais os concorrentes bem informados do que a evasão de votos em direção a adversários sem intimidade local e regional, os chamados forasteiros tão duramente criticados por aparecerem como meteoros por aqui em períodos eleitorais.


O candidatíssimo a deputado estadual Raimundo Salles, do alto de mais de 70 mil votos e alguns milímetros aquém de Aidan Ravin no primeiro turno das eleições em Santo André, fala com a certeza de quem vai às estatísticas para modular a carga estratégica da campanha que informalmente já está nas ruas. E o que ele fala tem contornos que ultrapassam a simples menção de números.


Raimundo Salles, político vocacionado a viver intensamente a disputa de cada voto, não se conforma com o fato de que perto da metade do eleitorado do Grande ABC se abstém de depositar votos em qualquer concorrente à Assembléia Legislativa e à Câmara Federal. Repetimos: de cada 10 votos disponíveis, quase metade vai para o ralo, sem destinatário algum.


É de fato um desperdício e tanto. Entre outros elementos explicativos o quadro encontra campo fértil na profundeza de complicações sociológicas que dita a baixa regionalidade dos sete municípios locais. Sei lá se seria diferente caso o Grande ABC fosse de fato um único Município, como nos primórdios do século passado. Talvez a situação não fosse radicalmente outra, porque a sociologia de fato pesa muito mais do que a geografia no mercado eleitoral. Vivemos também na penumbra de campanhas eleitorais nas emissoras de rádio e televisão. Somos eleitores de segunda categoria quando se trata de conhecer mais e melhor os candidatos que nos representam nas disputas.


Não é novidade para quem vive de votos que a votação em candidatos do Grande ABC pelo eleitorado do Grande ABC está historicamente muito abaixo do esperado.


Entretanto, jamais em toda a história recente se ressaltou essa face de desprestígio, desconhecimento, descaso ou seja lá o que for. Tanto é verdade que confesso que, ao ouvir de Raimundo Salles, em rápido diálogo, alguns dados sobre o grau de apatia ao voto para deputado estadual e deputado federal, minha ficha demorou um certo tempo para cair. Nada mais surpreendente, porque fui condicionado o tempo todo a raciocinar de forma amenizadora ou estudadamente menos impactante.


A fuga das galinhas dos votos nos candidatos do Grande ABC sempre passou pela minha cabeça como um fato consumado porque havia a concorrência dos chamados forasteiros. Nunca me dei conta ou parei para refletir sobre a fuga das galinhas dos votos nos candidatos do Grande ABC pela larga autopista da não-votação em qualquer concorrente, de qualquer localidade.


Resumo da ópera: historicamente nos damos mal por duas vertentes, a primeira dos candidatos forasteiros e a segunda dos votos omissos.


Nem mesmo o Fórum da Cidadania nos melhores tempos, tempos de mobilização da classe média do Grande ABC, nem mesmo o Fórum da Cidadania conseguiu transmitir essa mensagem de fuga das galinhas de votos pelo buraco da prioridade que se dá à escolha do governador e do presidente da República. Daí, inclusive, a explicação à minha interpretação manquitola. Ou seja: “Vote no Grande ABC” e “Vote com Qualidade no Grande ABC”, motes instrumentalizados para seduzir o eleitorado, não se referiam especificamente ao desperdício de votos negados, mas à efetivação do voto em candidatos alienígenas.


Por isso mesmo sugiro que nas eleições deste ano os candidatos a deputado se unam e joguem limpo, claro, direto e reto com os eleitores. “Não deixe de votar nos candidatos do Grande ABC” é muito mais abrangente e instigante que “Vote no Grande ABC” ou “Vote com Qualidade no Grande ABC”, mensagens de um passado não tão recente mas de aprendizado importante.


Diria mais: uma campanha institucional que quantifique o número de votos negados a cada uma das últimas eleições a deputado estadual e a deputado federal da região provocaria certo estresse positivo no eleitorado. Afinal, como obter maior representatividade naquelas duas instâncias legislativas se o eleitor não alarga a viabilidade aos pleiteantes locais?


Acredito que a mídia de maneira geral poderia engrossar as fileiras dessa campanha ou de algo semelhante para massificar no eleitorado do Grande ABC a importância de reduzir o grau de ociosidade da votação nos candidatos locais. Ociosidade sim, porque, como uma fábrica com capacidade para produzir 100 parafusos por hora mas que não passa da metade, o eleitorado do Grande ABC produz pouco mais de 50 votos. Precisamos, portanto, de produtividade maior.


Confesso que não disponho de dados estatísticos que, introduzidos neste texto, dariam a dimensão exata do quanto somos mais perdulários em relação a outras localidades.


Uma comparação não só com a Capital do Estado mas com outros municípios e regiões seria esclarecedora. Com esses dados teríamos mais argumentos e quem sabe até poderíamos provocar impacto que atingiria em cheio o âmago da autoestima regional.


Sim, porque ninguém tira de minha cabeça que a conclusão de que o Grande ABC joga na lata do lixo da omissão algo como 30% a mais de votos nos candidatos locais em relação à média do Estado, ajudaria a sensibilizar o eleitorado a fortalecer nossos grupos de representantes naquelas duas casas de leis. Com a vantagem de que, com maior participação do eleitorado, as possibilidades de acompanhamento da trajetória de cada eleito e eventualmente de verdadeiras bancadas da região seriam potencialmente maiores.


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