Até porque faltam estudos específicos e confiáveis, não tenho a menor segurança em afirmar que as eleições municipais na Província do Grande ABC são impermeáveis aos efeitos de contaminações externas; ou seja, que o ambiente eleitoral estadual e federal não se expanda por aqui. Na verdade, tenho séria desconfiança de que somos muito mais suscetíveis à interferência de fatores extra-regionais do que outras localidades.
Traduzindo: o que ocorre na política estadual e na política federal, principalmente quando da reta de chegada das disputas eleitorais municipais, seria proporcionalmente entronizado com repercussão superior na Província do que na maioria dos demais territórios nacionais.
O que vou escrever em seguida, para tentar sustentar essa impressão, é resultado de um mergulho em conhecimentos empíricos, de experiência vivida, de observações. Escrevo porque pintou uma vontade de escrever sobre o que considero um engano dos cientistas políticos que padronizam conceitos e os colocam no mesmo saco sem fundo de generalizações territoriais. Da mesma forma, aliás, que o fazem os economistas quando tratam de desindustrialização, por exemplo.
Eles, os economistas, e também os consultores, pegam o País como objeto de análise para esparramar sabedoria teórica. Esquecem as especificidades dos municípios e das regiões. Daí as distorções e os vazios que os oportunistas de sempre pegam como prova de que estavam corretos ao propagarem que não sofremos esvaziamento econômico. Mesmo que as estatísticas cansem de provar. Mesmo que o cotidiano a nos esfregar todas as sequelas sociais nos coloque de sobressalto.
Alvorecer diferente
O que quero dizer com isso é o seguinte: com as nuances que caracterizam culturalmente a Província do Grande ABC, é muito pouco provável que as regras de conhecimento que valem para tantas áreas geográficas aqui floresçam com o mesmo vigor. Vejam alguns pontos que nos diferenciam de outros municípios e regiões brasileiras e que, portanto, precisam ser instalados num determinado compartimento de avaliação, separadamente do senso comum que valeria como média para o território nacional. Há pelo menos quatro vetores que devem ser cuidadosamente observados, sob risco de analistas nacionais darem com os burros nágua e observadores locais serem induzidos a erros de interpretação:
a) Ausência de TV aberta.
b) Divisionismo territorial.
c) Pulverização econômica.
d) Clivagem ideológica.
2. O divisionismo territorial da Província do Grande ABC atinge de tal forma os municípios que sempre existirá um contingente de eleitores que desconhecerão os candidatos aos quais poderiam destinar votos. Diferentemente, portanto, de outras áreas eminentemente municipalistas, ou seja, sem os tentáculos de conurbação, de mistura de divisas, como aqui. O noticiário sobre os concorrentes municipais da região parece tão confuso aos menos preparados às diferenças municipais e regionais que não são poucos os exemplos de eleitores em dúvida sobre em quem votar, entre outros motivos porque não sabem quem são os candidatos abrangidos pelo título eleitoral.
3. Há um universo cada vez maior de eleitores da região que passam quase todo o tempo útil, de trabalho, em Município no qual não está vinculado em termos de residência. Os números de Santo André provavelmente serão recordistas. Basta ver os principais corredores viários no começo da manhã e no final da tarde. Há congestionamentos que denotam o esvaziamento econômico do Município. Mais que qualquer outro. Essa gente simplesmente está perdendo o contato com a cidadania municipal. Desconhece a mecânica da vida associada, da vida comunitária, porque passa todo o tempo fora de seu território. Nos demais municípios da região essa constatação é semelhante. A diferença é que Santo André, principalmente Santo André, passou por esse processo de esvaziamento comunitário na medida em que se desindustrializou barbaramente, sob os olhos de supostas lideranças de diversas instituições que deveriam reagir e não o fizeram. Uma região que sofre tamanha debacle econômica paga um preço muito alto à manutenção de uma institucionalidade corajosa, critica, vocacionada a cobranças. A Província do Grande ABC não está morta como sociedade por obra do improviso. A explicação está na economia. Aliás, tudo geralmente se explica pelas ramificações sociais da Economia.
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20/05/2026 TERÇO INDEPENDENTE É UMA GRANDE LOROTA