Política

Aidan Ravin e PT ensaiam apagão
ético na disputa do segundo turno

DANIEL LIMA - 11/10/2012

Quem caiu na besteira de acreditar que alguém atiraria a primeira pedra de discurso em defesa da ética e da moralidade à frente da Prefeitura de Santo André pode tirar o cavalinho da ingenuidade da chuva de pragmatismo. Exceto uma reviravolta pouco provável, os finalistas do segundo turno, prefeito Aidan Ravin e o petista Carlos Grana, não têm interesse em hostilizar-se com pendengas domésticas.


 


Quem vai perder com isso serão os eleitores e os contribuintes de maneira geral, mas a explicação é simples: protagonizar ataques seria algo como entregar a própria alma, porque tanto petebistas quanto petistas têm traseiros sujos e enlameados em Santo André.


 


Somente em última instância, em desespero, o confronto poderá ganhar manchetes que fujam da bitola de supostos programas de governo e invadir a seara da delinquência administrativa. E mesmo assim é pouco provável. Vários financiadores legais e clandestinos dos dois concorrentes estão, em larga escala, envolvidos nas denúncias de irregularidades no Semasa, a autarquia de água e esgoto, mais de esgoto do que de água, e empreendimentos imobiliários suspeitíssimos.


 


Os 34% dos eleitores de Santo André que desperdiçaram votos no primeiro turno, entre votos nulos, votos em branco e não comparecimento às urnas, não são uma obra estatística apenas. O índice está acima dos municípios da região mais acentuadamente abandonados pelos eleitores e seis pontos percentuais acima dos eleitores da Capital.


 


Cidade apodrecida


 


Santo André é uma cidade apodrecida em termos de institucionalidades. Sobram poucas entidades públicas, privadas e sociais que se preocupam para valer com o rumo dos acontecimentos. O silêncio acovardado ou entreguista impera. O escândalo do Semasa é o equivalente da Administração Aidan Ravin ao mensalão do PT, julgado pelo Supremo Tribunal Federal. A diferença é que o caso Semasa anda esquecido, quando não desprezado por autoridades que se lançaram a desvendá-lo.


 


A mídia, de maneira geral, torce desesperadamente para que não seja obrigada a meter-se no tiroteio que atingiria petistas e petebistas. Há condicionantes que precisam ser considerados. As forças de pressão para minimizar o escândalo do Semasa são sensibilizadoras. O passado do Semasa não é flor que se cheire. Tanto quanto o presente recente. Uma guerra se instalaria no front eleitoral se uma das agremiações entender que é preciso deslocar a disputa para o terreno de denúncias.


 


O instinto de sobrevivência deverá prevalecer entre petebistas e petistas. Até porque algumas cargas de apoio explícito ou dissimulado a um ou outro concorrente ao Paço Municipal de agentes de informação passam pela disposição de não avançarem demais o sinal em direção a temáticas consideradas paralelas à disputa propriamente dita. Há um acordo evidentemente que não assinado de tornar o assunto Semasa peça do obituário noticioso e crítico ou, ante a impossibilidade de sufocá-lo, reduzir as informações a vetores secundários.


 


Mercado de fortunas


 


Sabe-se que a contraofensiva do prefeito Aidan Ravin ao ressuscitamento do caso Semasa tem dupla direção: o próprio Semasa durante a gestão do PT, e a Cidade Pirelli, desenhada e aprovada durante a gestão Celso Daniel e, nos desdobramentos no governo João Avamileno, metida em lambanças petistas. Tudo já amplamente informado aos leitores desta revista digital. PT e PTB coincidem na incapacidade de cuidar da ocupação do solo de Santo André com responsabilidade social e sustentabilidade ambiental. O mercado imobiliário é uma farra ao produzir fortunas, principalmente em períodos de incentivo a novos empreendimentos fartamente financiados pelo governo federal ávido por alavancar o PIB (Produto Interno Bruto) na base do consumo.


 


Foi durante a Administração João Avamileno, especialmente após a retirada da equipe de secretários herdada de Celso Daniel, que o Semasa virou casa da sogra. A Administração Aidan Ravin só aperfeiçoou o condenável. A construção do Residencial Ventura, empreendimento liderado pelo empresário Sérgio De Nadai e pela Cyrela, uma das maiores incorporadoras do País, é um escárnio.


 


A Administração João Avamileno permitiu os desvios que a Administração Aidan Ravin ratificou. Sérgio De Nadai foi condenado recentemente por integrar a Máfia da Merenda, mas segue no Conselho Superior da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), presidida por Evenson Dotto, diretor do Diário do Grande ABC cotado para ocupar uma das secretarias da possível Administração Carlos Grana. Oswana Fameli, vice-presidente da Acisa, é companheira de chapa de Carlos Grana.


 


Convite ao passado


 


O emaranhado de irregularidades envolvendo direta e indiretamente as duas candidaturas finalistas em Santo André é um convite à procrastinação, quando não ao desprezo, a qualquer iniciativa regeneradora do tecido institucional de um Município que vem acumulando sensíveis perdas econômicas ao longo de quatro décadas. Santo André é o endereço municipal que apresentou o menor crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do G-20, o grupo dos 20 maiores municípios do Estado de São Paulo, exceto a Capital, nos últimos 30 anos. Por essas e outras razões Santo André transforma-se cada vez mais em cidade dormitório. Basta observar o fluxo de veículos que deixam a cidade no começo do dia e retornam no final da tarde. São cérebros itinerantes que, por conta de ocupações profissionais, distanciam-se do dia a dia municipal e de qualquer concretude de robustez cidadã.


 


A proposta de não hostilidades encontrou ressonância nos dois núcleos decisórios dos finalistas eleitorais porque reduzirá a carga de estresse das campanhas que já estão nas ruas. Como o PT explicaria o caso da Cidade Pirelli, especialmente a construção de um viaduto, o Cassaquera, com dinheiro público, quando a obrigação era da multinacional Pirelli e das empresas com as quais negociou terrenos daquele empreendimento fracassado? Como o PTB sairia do encalacramento em que se meteu após a denúncia do advogado Calixto Antônio Júnior, instalado no Semasa para proteger os interesses financeiros do prefeito Aidan Ravin e secretários?


 


É claro que há escândalos menos conhecidos a saltar dos túmulos em que foram metidos. Há um entranhadíssimo jogo de interesses de fornecedores de serviços públicos que, se denunciado, poderia comprometer toda a engrenagem de financiamento das campanhas e de enriquecimentos paralelos.


 


Pacto da autopreservação


 


Por isso, na verdade, o apagão ético que as campanhas de Aidan Ravin e Carlos Grana promoveriam na reta final em Santo André é muito mais que um acordo circunstancial, de interesse mútuo. No fundo, é um pacto que fecharia, agora, totalmente as portas a incômodos, mas que tem temporalidade mais extensa, tanto quanto ao passado quanto ao futuro.


 


O escândalo do mensalão teria sido decifrado de forma friamente racional pelas agremiações partidárias, porque é o mais reluzente colar de traquinagens em meio a outras joias de abusos que ganharam diferentes identificações, como o caso Cachoeira e mesmo os mensalões do PSDB de Minas Gerais e do DEM do Distrito Federal.


 


Denúncias de hoje gerariam denúncias amanhã de novos escândalos de novos passados, a comprometer toda a classe política num momento muito especial em que se projeta o endurecimento decisório do Judiciário, pautado pela rigidez do STF no caso mensalão, amplamente difundido em transmissões ao vivo que deverão entrar para a história da democracia nacional.


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