Administração Pública

Operação Porto Seguro coloca
Gestão Marinho na defensiva

DANIEL LIMA - 17/01/2013

Tratados com cuidados extremos, os rescaldos regionais da Operação Porto Seguro, envolvendo a retaguarda da Presidência da República em São Paulo e desbaratada pela Polícia Federal, tiram o sono, a tranquilidade e a privacidade de assessores da cúpula oficial e oficiosa da Administração Luiz Marinho, em São Bernardo. O assunto é soprado ao pé de ouvido. Há até quem prefira cantinhos discretíssimos. Telefones celulares foram banidos de muitas reuniões e gabinetes. O uso de e-mails e outras ferramentas tecnológicas que deixam rastros é escasso. Chegou-se a um nível de paranoia que não encontra limites. Expande-se também a outros territórios regionais petistas.


 


Sabe-se que a atuação da pivô do escândalo, Rosemary Noronha, muito próxima do ex-presidente Lula da Silva, esparramava-se por gente consideradíssima em São Bernardo. Gente da hierarquia oficial e da hierarquia paralela. Para quem não entende o que isso significa, o desvendar é fácil: a Administração Luiz Marinho, como a maioria das administrações municipais, divide-se entre um grupo hierárquico oficial, que consta dos respectivos organogramas corporativos, e um grupo paralelo, geralmente fora da estrutura física dos respectivos Paços e que conta com gente que não costuma dar entrevista como executivo público, mas que manda pra dedéu. Muitas vezes até mais que o próprio prefeito. O escândalo do Semasa dá bem a ideia do que se passa na extensão de mando de Paços Municipais. Se é que me entendem.


 


Dá-se como certa a versão que coloca a reforma administrativa da Prefeitura de São Bernardo, finalmente anunciada nesta semana, como um dos desdobramentos da Operação Porto Seguro. Teria havido a substituição de mais peças do que as inicialmente previstas para minimizar eventuais contratempos. Um secretário que mandava muito porque tem o respaldo sindical e é cotado inclusive para concorrer à sucessão de Luiz Marinho ganhou um novo endereço, fora do Paço. Diz-se que é uma maneira de evitar que contamine os gabinetes. Diz-se também que, como ele estaria comprometidíssimo nas investigações policiais, a melhor saída teria sido retirá-lo de cena. Se é que a simples transferência de endereço funcional resolveria o problema.


 


Ambientes nervosos


 


Um mais que atrapalhado advogado sempre conectado ao prefeito Luiz Marinho, tido e havido como um agente de suma importância no intercâmbio de assuntos supostamente nada republicanos, passou a cultivar horror a telefones celulares. E-mails e redes sociais, nem pensar. Uma secretária sempre bem orientada tanto impede quanto facilita reuniões, desde que orientada previamente pelo chefe. Um gabinete secreto de algum grupo mafioso talvez fosse uma comparação dura demais. O ambiente que se respira naquele quartel general a alguns quilômetros do Paço Municipal está longe de também ser chamado de empresarial. Exceto se a empresa estivesse em processo de faxina geral para fugir de algum arrastão policial, tributário ou algo semelhante.


 


Até que ponto a Operação Porto Seguro vai manchar a reputação de petistas e aliados na Província do Grande ABC é uma pergunta pertinente, mas qualquer diagnóstico apressado poderá estar impregnado de imprecisões movidas por partidarismos exacerbados, dado o caráter sigiloso da investida policial.


 


É claro que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, ou seja, que o fato de não existirem informações oficiais não impede especulações sobre o andar da carruagem.


 


São os próprios supostos protagonistas locais que alimentam a fornalha de idiossincrasias. Agora eles se movimentam na ponta dos pés da cautela de interlocuções. Antes da ação revelada pela Polícia Federal trafegavam em estilo mais apropriado ao glamour de ambientes sofisticados ou de passarelas de moda. Deixavam-se tomar pelo exibicionismo. Sabe-se que a multiplicação de versões sobre a origem e o conteúdo dos problemas ante tamanha radicalidade comportamental é proporcional às demandas judiciais que adviriam de supostas inquirições policiais e ministeriais.


 


Poderia ser pior


 


Imaginar que o prefeito Luiz Marinho e seu entorno legal venham a se pronunciar é perder tempo e também sugerir que se arme um ringue literal de golpes físicos. Seria algo como tratar de corda em casa de enforcado. O chefe do Executivo de São Bernardo está abalado com o espalhamento do lamaçal flagrado pela Polícia Federal no escritório da Presidência da República em São Paulo. Mas mesmo assim teria agradecido aos céus pelo Complexo de Gata Borralheira da Província do Grande ABC. Não fosse essa anomalia antropológica, um haraquiri político estúpido estaria configurado com a escolha da sede daquele escritório em São Bernardo. Quem sabe nas proximidades do apartamento do ex-presidente Lula da Silva.


 


Sabe-se também que bastaram os vazamentos oficiosos ou oficiais da Operação Porto Seguro cujos enredos envolveram a Província do Grande ABC, para uma onda de pressões e contrapressões instalar-se em gabinetes diversos, não só políticos e administrativos. Há um jogo de interesses robustos a permear supostas negociações paralelas e à distância da seriedade e da autonomia da Policia Federal.


 


Há premissas de tiros pontuais e também de duração prolongada. Há mísseis que seriam acionados apenas durante as próximas campanhas eleitorais. Não faltam também supostas trocas de chumbo em off, ou seja, nos bastidores, entre grupos políticos antagônicos igualmente enrascados com estripulias administrativas.


 


Balanço petista


 


Traduzindo tudo isso em linguagem simples e direta aos leitores que encontram alguma dificuldade em decifrar este texto, o que quero dizer com tudo isso baseado em fontes de informações mais que sustentáveis é que balança para valer o barco da governabilidade petista na Província do Grande ABC. Nada que dê a garantia de que a embarcação vai naufragar. 


 


Talvez a melhor maneira de, a partir de agora, rastrear o que se passa na prática é acompanhar as declarações de gente supostamente envolvida no escândalo na região. O assunto é observado sob denso silêncio pela mídia regional entre outras razões porque a maioria desconhece os meandros investigativos. Quanto mais determinados agentes públicos enfeitarem o pavão de administrações municipais, mais estarão inquietos com o que andou fazendo no escritório presidencial de São Paulo aquela secretária especialmente bem localizada nas atividades do ex-presidente da República.


 


Certamente não era esse o conceito de governo paralelo que o PT dos tempos de oposição encardida pretendia disseminar pelo País. Ou seria?


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