Administração Pública

Falta à Administração Pública a
competitividade febril do futebol

DANIEL LIMA - 07/03/2013

A questão é simples: pegue o noticiário político e administrativo das sete prefeituras da Província do Grande ABC do começo desta temporada até aqui e compare com a atuação dos três times que nos representam nas duas principais competições estaduais do primeiro semestre. A diferença é abissal.


 


Enquanto Santo André, São Caetano e São Bernardo já trocaram de técnicos, contrataram reforços, dispensaram jogadores e fazem de tudo para se situarem longe da zona de rebaixamento e, quem sabe, conseguirem alguma coisa a mais, as administrações municipais vivem lengalenga irritante. Sabem o que isso significa? O setor público não tem compromisso com o tempo, com a qualidade, com a eficiência, com qualquer coisa que lembre efetividade e respostas aos contribuintes.


 


Querem um exemplo claro e cristalino? No final do ano passado o Clube dos Prefeitos prometeu que apresentaria um plano de mobilidade urbana que nos remeteria ao futuro, porque o presente é tétrico e o passado uma vergonha. Chegou março e o prefeito dos prefeitos do Clube dos Prefeitos, Luiz Marinho, chamou a imprensa após a reunião com os pares dessa entidade inútil e repassou uma lição mobraliana de planejamento, com um catado de eixos viários caóticos e uma chutometria monetária retirada da cartola da especulação.


 


Houvesse indicadores que retratassem o curto prazo e distinguissem o que é efetivamente ação da administração atual e o que não passa de resultados inerciais, de antecessores, muitos dos prefeitos da região estariam encalacrados. Estariam para os treinadores demitidos por Santo André, São Bernardo e São Caetano. Não resistiriam às pressões. Ficariam escandalizados com os buracos que patrocinam, porque a maioria deles só está preocupada mesmo com fazer política partidária, organizar agremiações e coligações com vistas às disputas do ano que vem para o governo do Estado e para a Presidência da República.


 


Resultados vergonhosos


 


Se tivesse com paciência e desejasse demonstrar mais uma vez que não fico apenas no blábláblá crítico como alguns idiotas acreditam porque mal sabem ler e estão com a consciência terceirizada pelos poderosos de plantão, juro que discriminaria pelo menos 10 pontos que consideraria essenciais à definição de uma grade de avaliação permanente, diria mensal, do rendimento técnico e tático dos administradores públicos locais. Como não estou com paciência prefiro ficar apenas na exposição conceitual.


 


O fato é que se a competição se restringisse a nosso próprio quintal, o nível de rendimento seria degradante. Se o campeonato fosse ampliado a outros municípios, provavelmente estaríamos em maus lençóis, embora a praxe do mercado político-administrativo seja mesmo o descaso com indicadores de qualidade gerencial.


 


Um campeonato que envolve resultados de longo prazo já é disputado nesta revista digital e certamente os leitores mais atentos sabem do que estou falando. Trata-se do ranking do G-20, o grupo dos 20 maiores municípios do Estado de São Paulo, exceto a Capital. Resolvi criar esse campeonato especial para parametrizar a atuação de nossos gestores públicos de hoje e do passado em confronto com os municípios economicamente mais competitivos do Estado.


 


Os resultados não têm sido os melhores e nem poderiam ser porque faz tempo que ingressamos no clube dos decadentes, mesmo quando não perdemos em números absolutos ou em números relativos de goleada para os adversários. Somos um clube de decadentes porque não acompanhamos, como região, a velocidade de crescimento dos demais.


 


De qualquer forma o G-20 é um conjunto de indicadores sociais, econômicos e criminais que vale a pena servir de referência para quem quer saber como estamos na competição estadual. O olhar crítico aos fracassos ou de agradecimento por eventuais bons resultados deve ser sempre relativizado. O peso dos administradores que já passaram por todos os municípios da região é muito maior que o dos atuais.


 


Ou seja, o G-20 é uma competição de longo prazo, cujos critérios de acesso e rebaixamento são demoradamente observados. O campeonato ideal para medir em que situação estamos seria algo como obter critérios de rebaixamento e de acesso imediatos. Aí a porca iria torcer o rabo, porque o ritual de baboseiras que somos obrigados a ler diariamente dos gestores públicos e parceiros de operações é de lascar.


 


Experiência vivida


 


A experiência que tenho feito com a introdução do G-20 Paulista não é a primeira de minha carreira nem será a última. Criei no começo dos anos 2000 o Instituto de Estudos Metropolitanos (IEME) que, durante muito tempo, avaliou o desempenho de quase uma centena de municípios paulistas sob critérios variados em diversos campos de atividades.


 


A metodologia aplicada, com pesos ponderados, procurou definir nexos de capacidade gerencial dos administradores públicos, mas sempre tendo em conta os resultados com base em avaliações no longo prazo.


 


Um PIB Industrial não se esvai de um ano para o outro, é um processo que também nem sempre é irreversível. Um desnível sazonal de um ano para outro não poderia, em tese, esmagar o prestígio do prefeito de plantão naquela temporada. Da mesma forma que um influxo considerável do PIB numa determinada temporada não é necessariamente sinônimo de competência do prefeito no cargo.


 


A grade de indicadores insofismáveis de curto prazo para qualificar as administrações públicas não estava contemplada pelo IEME e tampouco está pelo G-20. Mas que há fórmula para resolver a questão, não tenho dúvida. Desde que as Prefeituras sejam instadas a abrir as caixas pretas que as mantêm distantes da transparência tão badalada e pouco efetivada.


 


É claro que não tenho base sustentável para acreditar na possibilidade de um grupo representativo da sociedade dedicar-se a um projeto que vise a promover para valer um campeonato de eficiência de curto prazo dos gestores públicos, inclusive externos à Província. Se não temos gente e instituições dispostas a enfrentar a carnificina geral que acompanhamos nestes tempos, com a sem-vergonhice tomando conta a tal ponto que um delegado de Polícia aparece em jornal dizendo que alguém terá de pagar o pato do escândalo do Semasa, quando aquele banquete foi uma suruba geral e irrestrita, o que se pode fazer senão puxar os cabelos? Como não os tenho em quantidade suficiente, mordo a língua para ver se morro envenenado e me livro de vez desta Província.


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