Política

Regionalidade eleitoral

DANIEL LIMA - 03/10/2004

O Grande ABC que vai às urnas hoje como terceiro maior pólo democrático do País, com 1,7 milhão de eleitores, pode fazer a diferença entre o passado descuidado, o presente reticente e o futuro necessariamente reformista. Se é fato que a institucionalidade regional saiu da pasmaceira quando, no começo da década passada, o Consórcio de Prefeitos foi criado e seguiu aos tropeços, também é verdade que ainda estamos longe do necessário. Os ranços municipalistas sobrevivem entre outras razões porque a estrutura do Consórcio é um convite ao personalismo do presidente de plantão e à dispersão dos demais, colocados em segundo plano.


 


Não faltam representantes do Consórcio de Prefeitos que desfilam supostas conquistas para atribuir-se individualmente, e mesmo ao conjunto de agentes, efeitos miraculosos. São excessos de campanha eleitoral subscritos em jornais ou verbalizados em triunfalísticos comícios. A velocidade de ações do Consórcio está muito aquém do turbilhão macroeconômico que atingiu em cheio a região nos anos 1990 e ainda se faz presente.


 


Até o aumento da capacidade de produção do Pólo Petroquímico de Capuava um ou outro membro do Consórcio chama para si e para a entidade, quando, de fato, foram os próprios executivos da Petroquímica União que se mobilizaram exaustivamente para sensibilizar o governo federal. Não fosse o presidente Lula da Silva ter origem regional e contar também com a interlocução do sindicalista Luiz Marinho, principalmente, a timidez do Consórcio de Prefeitos jamais chegaria sequer aos bastidores do Palácio do Planalto.


 


Doente da cabeça


 


Quem duvida é mal informado ou doente da cabeça, porque basta recorrer aos oito anos do extravagante governo Fernando Henrique Cardoso. O tucano, como se sabe, carrega o ônus de ter gerenciado a maior catástrofe socioeconômica que atingiu o Grande ABC na história, quando perdemos 33% do PIB industrial, como pode ser resumida a produção de riqueza da indústria de transformação.


 


Pior que a debacle econômica com agravamento das sequelas sociais foi a constatação de que FHC jamais esteve no Grande ABC no período, exceto na inauguração de uma linha de produção de veículos em São Bernardo. E o Grande ABC, por meio do Consórcio ou de qualquer outra instituição, jamais botou os pés numa Brasília que nos pisoteou o tempo todo.


 


Nas urnas eletrônicas do Grande ABC deste domingo teremos a velha guarda de políticos que não tiveram a percepção da importância da regionalidade que Celso Daniel acertou na mosca ao elevar à condição de prioridade nos primeiros quatro anos de sua primeira administração.


 


Teremos também concorrentes que estão no poder Executivo e cujos objetivos regionais nem sempre se tornaram visíveis entre outros motivos porque o Consórcio é uma casa estruturalmente desarrumada. E teremos novos pretendentes, sobre os quais só eventuais vitórias e mobilizações extra-municipais definirão a herança de responsabilidade regional que repassariam aos sucessores.


 


Compromisso coletivo


 


De qualquer forma, sejam os políticos já bastante amadurecidos pelo tempo, sejam os atuais concorrentes à reeleição, sejam os eventuais novos administradores, o compromisso além do provincianismo municipal precisa ser consolidado de forma permanente pelo conjunto de formadores de opinião e tomadores de decisões.


 


O Grande ABC não admite mais que o Consórcio de Prefeitos seja uma casa de portas cerradas a uma comunidade excluída da recomposição econômica e de reparação social. É preciso socializar os debates, retirando-os da órbita exclusivamente governamental. A comunidade mais participativa precisa ser convocada a compartilhar medidas.


 


Tampouco não se pode admitir que a Câmara Regional presidida formalmente pelo governador do Estado seja vista como algo real, porque seu desempenho é inequivocamente abstrato. E muito menos que se joguem luzes de fertilidade na Agência de Desenvolvimento Econômico, cujas ramificações de propostas e programas esbarram na escassez de recursos, como primo pobre da institucionalidade regional.


 


O Grande ABC que vai emergir das urnas hoje nos sete municípios não é certamente o acachapante espetáculo de autarquismo e isolamento municipalista que antecedeu a chegada de Celso Daniel ao poder em 1989. Mas também precisa de um salto de clarividência institucional que parece também ter desaparecido desde que Celso Daniel se foi.


 


Que o Grande ABC vote no Grande ABC neste domingo, porque é assim que os investidores, as autoridades públicas estaduais e federais e o mundo nos enxergam.


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