Política

Brandão e Duílio esqueceram
de combinar com José Dilson

DANIEL LIMA - 22/06/2004

Praticamente confirmada, a candidatura do deputado estadual José Médico do Ratinho Dilson à Prefeitura de Santo André adiciona barro nas águas até então supostamente límpidas da pescaria de primeiro turno da estranha coalizão entre o triprefeito Newton Brandão e o bideputado federal Duílio Pisaneschi. José Dilson promete para esta quinta-feira, em almoço no Baby Beef, em Santo André, oficializar a decisão de competir para valer em outubro. Ele espera tornar-se o herdeiro natural dos 80 mil votos amealhados pelo alienígena Celso Russomanno nas eleições de 2000. Mais que isso: quer acrescentar pelo menos metade daquele volume para chegar ao segundo turno.


 


Exagero? Só o tempo vai responder à indagação. Mas o fato é que a composição Brandão-Duílio subestimou uma terceira via de peso eleitoral e, provavelmente, esse comportamento auto-suficiente causará embaraços à dupla imposta pelo governador do Estado porque a distância que separa José Dilson da candidatura do peessedebista é muito maior do que a que distingue de João Avamileno. Sobremodo porque José Dilson e Duílio Pisaneschi são como água e óleo.


 


A candidatura de José Dilson lembra a histórica preleção do técnico Vicente Feola, da Seleção Brasileira que disputou a Copa do Mundo de 1958 na Suécia. Nos vestiários, antes do jogo contra os russos, Feola usou o quadro negro como ferramenta de orientação tática. Estava lá o treinador já há algum tempo manipulando os botões táticos quando Mané Garrincha, o maior ponta-direita da história do futebol nacional, indagou com a inocência malandra de sempre: "O senhor já combinou tudo isso com o adversário?".


 


Pedra no caminho


 


Ao apressar o ajuntamento daquilo que pareciam trapos eleitorais de intenções isoladas de votos que não garantiriam o guarda-roupa da consagração em outubro, Brandão e Duílio Pisaneschi acreditavam que os esforços financeiros e operacionais seriam racionalizados para decidir a eleição no primeiro turno. Aí apareceu José Dilson. Aliás, antes dele, embora menos popular, o empresário Wilson Bianchi e o PMDB também entraram em cena para embaralhar o jogo.


 


Extensão nua e crua do comportamento nacional de elites das mais diferentes atividades, Santo André não seria exceção na avaliação preliminar da candidatura do popular José Dilson. Há certo grau de empáfia nos adversários políticos desse dono de hospital que tem lá seus problemas empresariais irresolvidos mas que, fato incontestável, não somou por simples acaso quase 30 mil votos em Santo André nas últimas eleições proporcionais à Assembléia Legislativa.


 


Aliás, na medida exata em que desdenham a decidida posição de concorrer em outubro, os adversários estão é mesmo procurando uma forma de minimizar preocupações. Goste-se ou não do estilo de José Dilson, não há como transformá-lo em acessório eleitoral num quadro em que não existe um bicho-papão de votos, como foi Celso Daniel.


 


Como Russomanno


 


Que eleitorado estaria praticamente entregue ao enchimento das burras da candidatura fortemente midiática de José Dilson? Possivelmente os mesmos eleitores marginalizados de cidadania que deram a Celso Russomanno os 80 mil votos de 2000 e, quem sabe, mais um tanto relativamente expressivo. Vá lá que José Dilson não tenha a juventude de Russomanno como atrativo principal e, portanto, não desperte tanto o interesse do eleitorado mais jovem.


 


Entretanto, a exposição diária que detém num canal de televisão cujo programa é comandado por um campeão de audiência popular lhe fornece o combustível de uma expectativa de retorno eleitoral que jamais poderá ser desdenhada, porque atinge principalmente as camadas etariamente mais sofridas da comunidade, embora fortemente alienadas das questões locais de cidadania e, portanto, suscetíveis à pregação centro-direitista de Brandão-Duílio.


 


A anunciada presença de Ratinho no almoço de amanhã de José Dilson consolida a transposição tácita da imagem do apresentador do SBT ao seu assíduo colaborador na área médica. Com o embalo popular de Ratinho, José Dilson ganha ritmo especialíssimo numa cidade que faz parte de uma região historicamente na penumbra da mídia de massa.


 


Como se sabe, as emissoras de TV abertas, todas sediadas na Capital tão próxima, não contemplam candidaturas locais no horário eleitoral gratuito. Quem conta com um canal frequentemente disponível como José Dilson (e como Celso Russomanno) aparece no mercado de votos de qualquer Município local com ampla possibilidade de complicar as contas das forças estabelecidas.


 


Até que ponto, também, o fantasminha pouco camarada de José Dilson sobre as forças mais conservadores de Santo André não atrapalharia os planos dos centro-esquerdistas acondicionados na candidatura do prefeito João Avamileno? As pesquisas deverão destrinchar essa questão, mas há possibilidades concretas de que os danos serão muito menores do que as rachaduras na embarcação dividida por Brandão e Duílio.


 


O manancial de votos de José Dilson estará concentrado na periferia menos politizada, exatamente onde Celso Russomanno fez a festa contra Celso Daniel, e mesmo em regiões centrais povoadas pela mesma tipologia de votos -- os excluídos sociais do topo da pirâmide econômica. Sim, porque se enganam todos aqueles que entendem que os excluídos sociais estejam apenas entre os mais pobres. Há ricos e remediados aos montes que pensam e agem similarmente aos congêneres despossuídos. 


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