Administração Pública

Fundação do ABC: ombudsman
não autorizado entra em campo

DANIEL LIMA - 10/05/2021

O ombudsman não autorizado (mas autorizado em duas temporadas) que mora em mim em se tratando de avaliar matérias do Diário do Grande ABC (ou de qualquer outro jornal) não resiste à manchete de página de hoje, destacada na primeira página com o que chamaria de “manchetinha” da “manchetíssima”.  

Manchetíssima é o título principal, e “manchetinha” é, na hierarquia de edição, o que vem imediatamente em segundo plano.  

Pois o Diário do Grande ABC frustrou minha expectativa ao abrir a página interna com o seguinte título: “Fuabc admite privilégios no caso fura-fila da vacina. Não há nada que dê sustentação à afirmativa do jornal na matéria do próprio jornal. Uma pena. Estou frustrado como assinante e como jornalista.  

Acho tão natural quanto legítimo, para não dizer obrigação junto aos leitores, que todo veículo de comunicação persiga a verdade dos fatos, que seja perdigueiro mesmo. 

Caminhos complexos  

São inúmeros os exemplos que reforçam esse conceito. Os 30 anos de LivreMercado/CapitalSocial também mostram isso. O que não é natural é o desleixo em torno da relevância de fatos ou mesmo a distorção dos fatos. 

Desleixo pode ser também negligência ou baixa percepção. Distorção dos fatos já é uma categoria diferente. Torna-se crime contra os leitores quando é deliberada. Atenua-se o deslize quando a trilha é de ordem interpretativa. Todos estamos sujeitos a isso.  

Como podem notar os leitores (e isso é apenas um resumo do resumo do resumo de avaliações próprias de ombudsman autorizado ou não) há infinidade de vetores a determinar o que se convencionou chamar de fake news, cujo monopólio atribuído às redes sociais é um exemplo redundante de fake news.  

Não existe virgem no jornalismo e muito menos entre aqueles que sem adestramento, povoam o mundo digital destilando a torto e a direito opiniões muitas vezes cabeludas. Quando não, são praticantes do jogo sórdido da militância remunerada por terceiros para atuarem como mercenários.  

Todo mundo tem direito a opinião, mas é preciso distinguir opinião de argumentação. Opinião é uma estrada vicinal repleta de buracos e poças d’água. Argumentação é uma autoestrada tipicamente europeia, de piso intocavelmente perfeito.

Entre opinião e argumentação há sombras de dúvidas somente distinguível a quem conta com conhecimento sobre a questão posta à discussão e que disponha de arcabouço de convencimento. E mesmo assim corre o risco de desclassificação ante a horda de bandidos digitais.  

Sedimentado o terreno da argumentação com conhecimento de causa, chego aonde queria, ou seja, na matéria do Diário do Grande ABC sobre a Fundação do ABC.  

Todos sabem que o jornal avança celeremente em direção àquela entidade no combate justo a privilégios na proteção contra o Coronavírus. Visto de perto e analisado com todo o cuidado, não há até agora nenhuma segurança de que a direção da Fundação do ABC escorregou no corporativismo e tampouco que o Diário do Grande ABC apresentou provas contundentes em contrário. 

Enunciado frustrado  

A cartada de hoje do jornal se insere num compartimento de forçada de barra que induz os leitores (sou assinante do jornal, antes de ser jornalista) a acreditarem que a presidente da Fundação do ABC, Adriana Berringer, capitulou. Não é bem assim. Ou não é nada disso. Não existe um parágrafo sequer na reportagem do Diário do Grande ABC de hoje que caminhe na direção de um confessionário público daquela dirigente.  

Para distinguir o que seria opinião quando na verdade é argumentação, vou reproduzir o texto do Diário do Grande ABC com a contraposição crítica que a função de ombudsman não autorizado reserva.  

Exumando a reportagem 

Logo abaixo do título (“FUABC admite privilégios no caso do fura-fila da vacina”), lê-se a linha fina de complementariedade do enunciado em letras garrafais: “Entidade cita necessidade de imunizar advogados, mas deixou de fora uma dezena de profissionais do mesmo setor”. Vamos à matéria: 

Diário do Grande ABC -- A FUABC (Fundação do ABC) admitiu ao Diário ter privilegiado advogados quando encaminhou profissionais para vacinação contra a Covid-19 sem figurarem na lista de prioridades. A entidade sustenta a necessidade de imunizar trabalhadores de setores burocráticos, mas deixou de fora mais de uma dezena deles. A prática enfraquece o discurso de que a organização não promoveu fura-filas em benefício de aliados da presidente, Adriana Berringer Stephan. 

CapitalSocial – O enunciado é forte, induz mesmo à convicção de que a Fundação do ABC cometeu delito no mínimo ético.  

Diário do Grande ABC -- No mês passado, o Diário revelou em primeira mão que oito funcionários de setores administrativos da FUABC, entre eles advogados que atuam na diretoria executiva jurídica, foram encaminhados para vacinação em lista que incluía profissionais da saúde que atuam em ambulatórios gerenciados pela instituição. Na ocasião, a entidade negou que tenha viabilizado fura-fila da vacina e sustentou que os apadrinhados foram imunizados por frequentarem ambientes contaminados, como hospitais de campanha. Ocorre que, mesmo integrando o mesmo setor, pelo menos 11 profissionais da diretoria executiva jurídica da FUABC não foram incluídos na lista de vacinados enviada à FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), responsável pela organização da vacinação dos profissionais ligados à FUABC. 

CapitalSocial – Esse novo trecho da matéria do Diário do Grande ABC carrega distinção seletiva na decisão da direção da Fundação do ABC. Nem todos os colaboradores do setor jurídico constaram da lista encaminhada à Faculdade de Medicina do ABC, centralizadora da operação burocrática. A medida pode ser interpretada de forma diametralmente diferente a que foi exposta, porque teria havido critério de prioridades num departamento de suporte às atividades da instituição. A discricionaridade eletiva à imunização seria, antes de pecadora, prova de responsabilidade no uso de vacinas.  

Diário do Grande ABC -- Dos 17 funcionários da diretoria, apenas seis foram vacinados, segundo a própria FUABC. Entre eles está o advogado Sandro Tavares, 44 anos, que tomou duas doses da Coronavac mesmo sem atuar na linha de frente do combate à pandemia nem integrar nenhum dos atuais grupos prioritários que estão sendo imunizados contra a Covid no Estado. Como já mostrou o Diário, Tavares já é pivô de investigação no Ministério Público por suposta prática de nepotismo, já que vários parentes do advogado também atuam direta ou indiretamente na FUABC – duas delas, inclusive, trabalham no mesmo setor. 

CapitalSocial – O trecho da reportagem do Diário do Grande ABC confirma o que existiria de cuidados com o processo de vacinação de colaboradores da Fundação do ABC, levando-se em conta, como argumenta a presidente, as especificidades de atuação individual. A nominação de Sandro Tavares, supostamente sem nenhum vínculo com atividades de campo de vacinação, precisaria ser esclarecida pela direção da Fundação do ABC. Inclusive quanto à origem funcional do colaborador. A quem estaria ligado Sandro Tavares no quebra-cabeças de nomeações funcionais daquela instituição? Teria Sandro Tavares, como se comenta, relações próximas com o Paço de Santo André? Fora instruído a participar do grupo de imunização e, dessa forma, atuar como falso aliado da direção da entidade? A Fundação do ABC deve essa resposta. Quanto às denúncias de prática de nepotismo de Sandro Tavares, faltou ao Diário informar que se trata de coisa antiga e, portanto, fora da gestão executiva atual. A abordagem pretende descuidadamente ou não vincular uma coisa à outra, ou seja, suposto protecionismo vacinal e supostos privilégios na contratação de profissionais da Fundação do ABC.  

Diário do Grande ABC -- O escândalo tem sido apurado por sindicâncias por parte das Prefeituras de Santo André e São Caetano, duas das mantenedoras da FUABC. Ao Diário, a FUABC voltou a negar a prática de fura-fila de vacinas e explicou que a imunização dos advogados respeita critérios do Ministério da Saúde, que recomenda textualmente a aplicação das doses em profissionais que fazem parte do universo classificado como “trabalhadores da gestão”. “A FUABC reitera a total lisura da campanha de vacinação realizada no complexo de saúde do campus universitário e ratifica que seus profissionais integram o grupo de trabalhadores da saúde, tendo direito à vacinação prioritária”. 

CapitalSocial – Bingo? Observaram os leitores que o enunciado da manchete não se sustentou ao longo do texto publicado pelo Diário do Grande ABC? Em nenhum trecho da reportagem se confirma a penitência da direção da Fundação do ABC. Muito distante disso, como está impresso nos parágrafos finais, de pouco destaque, de defesa intransigente de lisura no processo de escolha de profissionais imunizados. Conclusão: anunciou-se que naquela bananeira havia cachos de bananas podres, admitidas pelo dono do pomar, e o que temos até agora é uma bananeira na qual o dono do pomar diz que só tem bananas saudáveis.  

Forças de pressão  

No caminho que opõe estrada vicinal e autoestrada no mundo da informação, opinião de um lado, argumentação de ouro, a função de um ombudsman não autorizado é essa mesma que os leitores captaram: os buracos informativos precisam ser preenchidos de forma a que uma notícia tenha a robustez da fidelidade expressa num título, numa legenda, num intertítulo, mesmo numa vírgula.  

Até prova em contrário, o Diário do Grande ABC lançou mão hoje de uma incorreção editorial que exige novas incursões.  

Que tal, a bem da verdade, ouvir a Promotoria de Justiça de Fundações de Santo André, a quem a presidente da Fundação do ABC, Adriana Berringer, remeteu imediatamente após a divulgação da suposta irregularidade uma carga de explicações e supostas provas de que tudo não passa de especulação. 

Adriana Berringer só não disse porque não é o âmbito adequado: no fundo, no fundo, o que pretendem para valer as forças políticas de pressão na Prefeitura de Santo André é apeá-la do cargo depois de, entre outros pontos, contratar uma auditoria independente que revelou as falcatruas na Central de Convênios.



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