Administração Pública

UMA OBVIEDADE MAIS
QUE EXTRAVAGANTE

DANIEL LIMA - 05/12/2025

É tão extravagantemente óbvia a resposta ao desafio, entre aspas, que propus neste espaço na edição de ontem que somente algum leitor que flerte entre a estupidez e o fanatismo seria capaz de contestar. E não pensem os leitores em geral que falte esse tipo de energúmeno na praça. Conheço um e outro que ultrapassam todos os limites de idiotia. Faz parte do ofício tê-los no cotidiano profissional quando se abrem portas e janelas à participação pública.  

Felizmente a maioria do leitorado é expressiva e desafiadora à produção de jornalismo com valor agregado. É o que sempre procuramos fazer, para desconforto dos manipuladores.

O que propus ontem todo o mundo sabe: quem foi o melhor prefeito entre os três prefeitos de dois mandatos seguidos no Grande ABC,  entre janeiro de 2017 e 2024? Quem foi? Os números escancaram resultados que os hierarquizam, mas o conceito de “melhor” precisa ser relativizado. O “melhor” entre os três não significa que tenha sido de fato e para valer o “melhor” para as respectivas cidades nos dois indicadores postos: Carga Tributária no formato de Receita Total e PIB Tradicional. Tudo sob a ótica per capita, ou seja, quando se dividem os valores aferidos pelo total da população. 

VARREDURA COMPLETA

No ano passado fizemos uma varredura na Administração de Paulinho Serra, Orlando Morando e José Auricchio levando-se em conta um feixe de temas. Restringimos a análise aos três então prefeitos porque não se pode construir diagnóstico e avaliação estrutural mais complexa e resolutiva em termos de qualificação sem ao menos oito anos de aferição. Foi o que fizemos e que determinou, portanto, a exclusão dos demais prefeitos de primeiro mandato.

Naquela oportunidade, Orlando Morando ficou à frente dos demais, mas a média geral não chegou perto do que teria registrado a segunda e a terceira gestão (incompleta) de Celso Daniel, disparadamente maior prefeito regional da história moderna do Grande ABC. Historia moderna é algo como o pós-Plano Real, ou mesmo um pouco antes, quando o Grande ABC perdeu privilégios competitivos em Desenvolvimento Econômico.

Voltemos ao presente. No caso, à definição mais que obvia do resultado envolvendo os três prefeitos. Vejam a combinação que levou Orlando Morando a se destacar entre os três, e, em seguida, algumas considerações breves sobre o ambiente regional no período em que o trio comandou os respectivos paços municipais.

Orlando Morando foi o único prefeito entre os três concorrentes que amealhou saldo positivo do PIB per capita à frente da Prefeitura. Isso o distingue obrigatoriamente dos demais. O PIB, mesmo com baixa influência do Estado Municipal, é peça rigorosamente valiosa ao Desenvolvimento Econômico. Pois São Bernardo cresceu em cinco anos já apurados (faltam 2022, 2023 e 2024) 2,69%, o que significou média anual de 0,54%. Uma ninharia, é verdade, mas é positiva. A Doença Holandesa Automotiva de São Bernardo é cíclica em positividades e negatividades. No caso dos cinco anos do PIB per capita, foi favorável.

Paulinho Serra e José Auricchio não conseguiram sequer zerar o jogo do PIB per capita no período já apurado. Santo André caiu 6,57%, com média negativa anual de 1,40%. São Caetano de José Auricchio sofreu queda de 6,96%.

Antes de revisitar o comportamento dos três municípios no outro indicador dessa avaliação, no caso Receita Total, também conhecida como Carga Tributária, convém lembrar que os três prefeitos pegaram o rabo de foguete imediatamente pós-desastre de Dilma Rousseff à frente do Estado Federal. Dilma Rousseff foi a maior catástrofe econômica do Grande ABC ao longo da história, como cansamos de analisar com dados inéditos.

Então, a base de comparação dos resultados do PIB per capita é tanto favorável quanto desfavorável aos três prefeitos. Favorável porque tiveram a oportunidade de sair de patamar comprometidíssimo, mas já em recuperação, o que proporcionou a eles a oportunidade de resultados melhores. Desfavorável porque sempre ficam os rescaldos de uma temporada devastadora do passado recente como empecilhos à recuperação posterior. 

CARGA TRIBUTÁRIA

Agora vamos ao indicador de Carga Tributária, que, diferentemente do PIB, conta com influência mais efetiva do Estado Municipal. Afinal, há série de impostos, taxas e tantas outras parafernálias fiscais que possibilita gestão mais incisivamente arrecadadora.

No caso da Carga Tributária, Santo André de oito anos de Paulinho Serra e São Bernardo de oito anos de Orlando Morando praticamente empataram, com crescimento per capita real respectivamente de 16,41% e 16,93% no período, com média anual per capita de 2,05% no caso de  Santo André e de 2,11% no caso de São Bernardo.

Já a situação de São Caetano de José Auricchio na Carga Tributária de oito anos, tivemos uma avalanche arrecadatória, com o registro do índice de 31,21%, com média anual de 3,90%.

Como o resultado dessa disputa foi programado para ser muito mais que o simplismo matemático de indicadores separados entre si, porque Economia são vasos comunicantes, chega-se facilmente à conclusão favorável a Orlando Morando porque, embora em empate numérico com Paulinho Serra no critério de Carga Tributária, foi muito mais efetivo no indicador de PIB per capita.

No caso de São Caetano, que registra negatividades escandalosas nos dois indicadores, só restaria mesmo o terceiro lugar que também é o último lugar. 

PASSADO CONDENA

O que não pode passar batido de forma alguma – e isso não se restringe ao período de oito anos dos três prefeitos – é que o Grande ABC vem se deteriorando dramaticamente como ambiente econômico e social. Aliás, e mais uma vez, sou obrigado a completar com a seguinte frase: “como estamos cansados de afirmar com base em dados sólidos e observações completamente distintas de qualquer torcida organizada burra que temos aos montões na região”.

Como disse ontem na primeira etapa dessa disputa que vejo mais que dados estatísticos quando escrevo sobre o Grande ABC, porque somos quase três milhões de habitantes, não custa lembrar o comportamento de Santo André, São Bernardo e São Caetano nos mesmos dois indicadores esmiuçados nessas duas edições tendo como ponto de partida o ano de 2004,  onde encontrei dados consolidados.

Primeiro, no PIB per capita: nos últimos 17 anos já conferidos, Santo André, graças à Doença Holandesa Petroquímica, registra saldo positivo, ou seja, crescimento, de 7,07%. O que resulta em avanço médio anual medíocre de 0,336% ao ano. São Bernardo acumula perda de 7,29% com média negativa anual de 0,42%. E São Caetano – atenção para o desastre pouco comentado ou mesmo ignorado – apresenta perda de 42,38%, com média anual de 2,49%.

Agora, a Carga Tributária do período de 20 anos já apurados, entre 2004 e 2024. Santo André aumentou o peso sobre os moradores em 128,90%, o que significa aumento real do peso do Estado Municipal médio anual de 6,44%. Muito acima, portanto, do crescimento médio anual do PIB. São Bernardo teve redução da Carga Tributária per capita de 18,77% no período, com média anual de 0,94%. E São Caetano manteve a Carga Tributária praticamente igual no período, sempre considerando a inflação, com perda de apenas 0,41%, o que torna o resultado médio anual inexpressivo.

Conclusão? Santo André é o pior endereço entre os três da região quando a estrada à aferição de Carga Tributária e PIB Tradicional per capita é aberta ao escrutínio crítico.  E os três prefeitos meteram mesmo a mão nos bolsos dos contribuintes nos oito anos de gestão.



Leia mais matérias desta seção: Administração Pública

Total de 854 matérias | Página 1

26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO
08/12/2025 PREFEITO DO ANO NÃO É PREFEITO
05/12/2025 UMA OBVIEDADE MAIS QUE EXTRAVAGANTE
04/12/2025 VOCÊ DECIDE QUEM É O MELHOR EM OITO ANOS
11/11/2025 POUPATEMPO DA SAÚDE PREJUDICA QUALIDADE
28/10/2025 IPTU DE SANTO ANDRÉ É O MAIS CARO DA REGIÃO
23/10/2025 RAPA GERAL APÓS O DESASTRE DE DILMA
22/10/2025 SANTO ANDRÉ: PIB DESABA, MAS IMPOSTOS DÃO SALTO
19/09/2025 MORANDO VENCE FÁCIL PAULINHO E AURICCHIO
12/09/2025 DECADÊNCIA ECONÔMICA E DECADÊNCIA IMOBILIÁRIA
03/09/2025 PAULINHO PERDE OUTRA VEZ PARA ORLANDO E AURICHIO
29/08/2025 PAULINHO PERDE DE NOVO PARA MORANDO E AURICCHIO
28/08/2025 PAULINHO PERDE PARA MORANDO E AURICCHIO
21/08/2025 DE BRAÇOS DADOS COM SECRETÁRIOS SUSPEITOS
14/08/2025 BRASILEIRO DE QUALIDADE DE VIDA: PERDEMOS DE NOVO
29/07/2025 VEREADORES X SEGURANÇA E A DISPUTA TERRITORIAL
23/07/2025 ORLANDO MORANDO VIRA XERIFÃO METROPOLITANO
17/07/2025 GILVAN ALCKMIN ATACA COM MELHOR ESQUINA
26/06/2025 UM HOSPITAL DE INADIMPLENTES