Uma disputa subjacente de votos votados que teremos em outubro também fora do território do Grande ABC, porque o Estado de São Paulo é o limite eleitoral, envolve os ex-prefeitos Paulinho Serra (Santo André) e Orlando Morando (São Bernardo). Quem terá mais votos, afinal? Como não fico em cima do muro, a resposta direta e reta começa com o nome em vogal e o sobrenome em consoante.
Tenho dúvida se a disputa entre Orlando Morando e Paulinho Serra será mesmo subjacente. É possível que, diante do quadro que se apresenta, esse clássico político seja mesmo o prato principal entre os dois candidatos. Seria um Fla-Flu regional. Ganhar seria secundário. Ganhar, ganharão.
Ter mais votos, portanto, valeria muito mais para efeitos imediatos e de médio-prazo. De imediato porque abriria veredas a novas possibilidades. De médio-prazo porque tornaria resolvido o troféu de liderança política regional. Carregar na algibeira do legado eleitoral e de estratégias futuras a vantagem no placar desse mata-mata político regional é, portanto, o que mais querem Orlando e Paulinho, adversários aparentemente irreconciliáveis.
FALTA HOMOLOGAÇÃO
A premissa a reboque de raciocínio é mesmo a compulsoriedade de que tanto um quanto outro já têm lugar garantido na Câmara Federal. Seriam duas vagas mais que consumadas. Faltaria apenas a homologação das urnas. Com isso, tanto Paulinho Serra quanto Orlando Morando estariam mesmo de olho no volume de votos. Os demais concorrentes não teriam muita importância. O que interessaria mesmo seria a especificidade de um superar o outro.
Como disputa eleitoral lembra os chamados matamatas do futebol, não se pode confiar plenamente na lógica. Basta ver e sem paixonite esportiva o que ocorreu domingo no Beira-Rio entre Internacional e Corinthians. O time alvinegro conseguiu a proeza de perder o jogo mais ganho dos últimos tempos. Será que o são-paulino Paulinho Serra será o Internacional do palmeirense Orlando Morando em outubro próximo?
Já que o jogo jogado por apostadores de todos os tipos virou farra nacional, acho que as turmas de apoio aos dois candidatos (turmas que não se bicam e que transformaram o território regional em arena principal, numa regionalidade pragmática) poderiam promover um bolão à parte? Qual seria a previsão de sucesso de Paulinho Serra e de Orlando Morando num jogo eleitoral jogado apenas entre eles? E qual seria em volume de votos a diferença? Viram que interessante? Façam as apostas, senhores e senhoras.
COMPLEXIDADE
Não é tarefa para gente racional prognosticar tanto uma coisa quanto outra. Uma coisa, no caso, seria a vitória pura e simples de um dos dois. O palpite simples é convidativo à participação. Já quando se desdobra à diferença de votos que os envolverá, ai a situação se torna complexa.
Se estiver num dia desses fora da caixinha do equilíbrio analítico, vou arriscar o placar em números absolutos e, consequentemente, a diferença percentual. Quase que o faço agora, mas é muito cedo. Sim, é muito cedo para palpites, entre outras razões porque não há pesquisas que detectem ou simplesmente ofereçam alguma base fora da loteria da especulação. Já ouvi projeções diversas. A maioria coloca Orlando Morando como favorito.
A tática e a estratégia aplicadas por Orlando Morando e assessores mostraram-se muito mais efetivas desde que o agora emedebista deixou o Paço Municipal de São Bernardo, em dezembro de 2024. Orlando Morando saiu do que parecia ser um vácuo político, quase sem eira nem beira, direto para a secretaria de maior visibilidade da Prefeitura de São Paulo. Virou o xerifão da Segurança Pública da Região Metropolitana de São Paulo.
CINDERELISMO
A influência cultural, econômica, social e sensorial da Cinderelesca Capital se espalhou pelo território metropolitano. A Segurança Pública movida à tecnologia e reforços humano e operacional pautou os prefeitos do Grande ABC, especialmente. Tanto que São Caetano, que adotou medidas semelhantes, aperfeiçoou a qualidade de vida da população com implacável caça aos criminosos sobrerrodas – até então o ponto vulnerável em criminalidade.
Enquanto Orlando Morando fazia a mala da oportunidade e se tornou o secretário preferido do prefeito Ricardo Nunes, tanto que está cotadíssimo para a sucessão em dois anos, Paulinho Serra tropeçou nas pernas longas e no horizonte curto e turvado. Fez um cursinho muito do vagabundo (perdoem a expressão, mas essa é a verdade) de duas semanas em Havard para lustrar um currículo de completa omissão na área econômica. Os marqueteiros de Paulinho Serra, Duda Lima à frente, não têm pudores éticos.
Além disso, Paulinho Serra fantasiou-se de apresentador de programa de televisão com os melhores cases de alguns municípios paulistas (algo que produzi três décadas antes com o Prêmio Desempenho, destacando os cases governamentais dos prefeitos de então) e desfila todos os domingos, no generoso Diário do Grande ABC, uma coluna escrita por terceiros, com pregação de suposto equilíbrio político-administrativo ao esculachar a polarização política entre bolsonaristas e lulistas. Com isso, estreitou a margem de manobra do eleitorado. Um passo apressado, desconexo e autodestrutivo.
LÁBIA FURADA
Paulinho Serra caiu na lábia furada de marqueteiros que quebraram a cara ao imaginar que a polarização seria dissolvida pelos centristas mais que conhecidos da sociedade brasileira. Paulinho Serra deu um tiro nágua que está mais que escancarado em todas as pesquisas eleitorais para a presidência da República.
Qualquer idiota juramentado sabia que sabia que Terceira Via seria uma burrice. Mas há um lado contraditório bom para Paulinho Serra, até prova em contrário: inventaram uma candidatura barco furado para o governo do Estado que, no fundo, chegou esquálida ao ancoradouro que se pretendia robusto: virou cabo eleitoral de terceira divisão do governador paulista, mas ganhou visibilidade durante todo o tempo. Há largas faixas de eleitores que se deixam levar pela notoriedade e também pelo descuido de acreditar que Paulinho Serra é José Serra ou tem parentesco com José Serra.
Quase esqueço que tudo isso de Paulinho Serra teve como pano de fundo um projeto consumado que o vinculou ao escorraçado prestígio do PSDB. Paulinho Serra assumiu a presidência estadual do partido que morreu e ainda não foi enterrado.
Nada poderia ser mais patético. Os tucanos sumiram da face da terra paulista depois de, ao longo da história, terem-se metido em compadrios dissimulados com petistas em troca de poderes – ficamos com alguns Estados e vocês com o governo federal.
ALCKMIN, ALCKIMIN
O ex-governador Geraldo Alckimin, que montou um esquema casado com o Ministério Público em 2002 para deflagrar a farsa de que o assassinato de Celso Daniel foi obra de petistas, é aquela coisa horrorosa que se viu domingo na convenção petista como vice-presidente da República.
Quem me acompanha sabe que não tenho por Paulinho Serra consideração alguma no sentido político e administrativo de ser. Trata-se, comprovadamente nestas páginas, de um jovem-velho político sem lastro para influenciar qualquer iniciativa desta e das próximas gerações. Seu legado será uma coleção de mentiras e contradições. A coluna no Diário do Grande ABC que há muito deixei de ler depois de ler uma dezena e meia com os mesmos vieses de engabelação é uma coleção de ficções e desejos.
Paulinho Serra deixou a Administração de Santo André atolada de equívocos e omissões. Qualquer ranking nacional de respeito aponta tudo isso, como também cansamos de mostrar nestas páginas.
PIOR PREFEITO
Sem qualquer resquício de dúvida, diria com ênfase que Paulinho Serra é o pior prefeito de Santo André neste século, desde a morte de Celso Daniel. E explico: as maravilhas que seus marqueteiros produziram estabeleceram modus-operandi calamitoso para uma cidade e uma região que precisam debelar as chamas do empobrecimento.
A pregação sistemática de um mundo regional em êxtase destilou um ambiente de trapaças sensoriais que vão muito além do fator de governança. Os antecessores de Paulinho Serra pós-Celso Daniel foram medíocres, mas não exageraram na dose de efeitos especiais deletérios.
Quanto a Orlando Morando, é disparadamente melhor gestor que Paulinho Serra mas, como apontei em análise envolvendo tanto ele quando Paulinho Serra e José Auricchio, que cumpriram dois mandatos no mesmo período, Orlando Morando cometeu um grande pecado gerencial ao desprezar o Desenvolvimento Econômico. A Secretaria do setor só apresentou uma vantagem em relação à disputa com Paulinho Serra: não insistiu em mentiras numéricas e em fantasias operacionais.
Talvez a polarização que se estabeleça na região entre Orlando Morando e Paulinho Serra seja revestida de dois pontos contraditórios: o eleitorado regional teria despertado à importância de contar com dois representantes de peso em Brasília. Por outro lado, todavia e contudo, há indicativos de que viveremos uma disputa canibalizadora no formato de que os demais concorrentes da região, exceto à esquerda metalúrgica, seriam fragorosamente derrotados.
O principal dos concorrentes candidatíssimo a dançar o tango da desilusão é o deputado federal Alex Manente. De tanto trafegar entre o centro, a direita, a centro-esquerda e a esquerda como candidato à Prefeitura de São Bernardo, Alex Manente virou peça descartável ao correr na mesma raia de Orlando Morando e Paulinho Serra.
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29/07/2026 CLUBE DOS PREFEITOS JÁ ESTÁ EM GESTAÇÃO