Imprensa

UMA JORNADA 3 X 1 NO
JORNALISMO REGIONAL?

DANIEL LIMA - 01/07/2026

A manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) do Diário do Grande ABC de hoje me inspirou a propor jornada 3x1 no jornalismo regional (que não difere lá essas coisas do jornalismo nacional). O contexto, as circunstâncias e a história dos últimos 30 anos engatam uma quinta marcha em direção à empreitada que vou traduzir em seguida.

Afinal, o que significa jornada 3x1 no jornalismo regional? É uma fórmula defensiva perfeita ou quase perfeita de que poderemos errar menos— e também de estarmos mais despertos às evidências diárias que nos atormentam.

Além disso, demonstraria ao distinto público consumidor de informações que temos teoricamente todos os compromissos para valer com o futuro.

A manchetíssima do Diário do Grande ABC de hoje (“Emprego desaba na região, que registra pior maio em seis anos”) não passa pelo teste da jornada 3x1 que vou apresentar em seguida.  É quase uma exceção frente às circunstâncias, contexto e história regional. Isso não é crítica. É constatação. E vale para todas as demais publicações.

PACHEQUISMO IDIOTA

A doutrina do pachequismo  a qualquer custo é uma defesa contraditória, quando não autofágica, do que seria o melhor para a sociedade regional. Se pachequismo industrializado sob o controle de profissionais da edulcoração dos fatos fosse a solução dos problemas regionais, há muito viveríamos num paraíso. Aliás, jamais teríamos tido contato com o empobrecimento social e a fragilização institucional.

À frente da revista de papel LivreMercado durante duas décadas, cometi pecados que não repetiria jamais porque,  involuntariamente ou por força de paixão regional,  me deixei conduzir pelo entusiasmo de acreditar demais em protagonistas da cena regional. Os motivos poderiam ser nobres como o eram de fato, mas não se converteram em ativos jornalísticos. Exceto pelo aprendizado que muitos insistem em dissolver.

Se na área econômica cometemos pouquíssimos equívocos e nos consagramos pela clareza de enxergar o futuro que chegou em forma de presente crudelíssimo, em algumas outras abordagens confiamos demais, embora nunca tenha havido sequer um rasgo de pachequismo deliberado.

Um exemplo? A transformação dos estúdios da Vera Cruz, em São Bernardo, em novo polo de negócios e entretenimento. Quando a esperança e a confiança se desgarram do ceticismo e de uma dose preventiva de descrédito,  o jornalismo entra na zona do agrião de contragolpes letais.

SEM VIRGINDADE

Isto posto, está claro que não estou aqui para desfilar virgindade editorial por conta dos efeitos contaminadores de um ambiente muitas vezes de entusiasmo provinciano. E o Grande ABC é um gigantesco viveiro de espertezas programadas e improvisadas. Espertezas que custam caro, porque o tempo perdido não é tempo recuperável.

Por isso, insisto nos conceitos, nas circunstâncias e nos contextos que imprimem as razões de defender a jornada 3x1 no jornalismo regional.

Jornada 3x1 significa que a cada três dias do calendário gregoriano, no mínimo e generosamente, apenas um dia seria reservado a uma manchetíssima de tom crítico, mesmo alarmista, apontador das complicações regionais, como insinua a manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC.

Aliás, uma manchetíssima a ser festejada, embora não carregue cromossomos da proposta que exponho, mas está na raiz da proposta que exponho.

SEM AMENIZAR

Qualquer definição editorial em forma de emenda substitutiva para amenizar a proposta da jornada 3x1, ou seja, para alargar a jornada de modo a negligenciar a realidade regional que está na cara de todos, qualquer coisa nesse sentido seria patifaria e desprezo à sociedade.

Contava com outra pauta neste dia, acordei pronto para redigir (o leitor sem intimidade com o jornalismo não tem ideia do quanto me concentro no trabalho para levar adiante o prazer e o dever em forma de obrigação diária de escrever) mas não resisti à manchetíssima certeira do Diário do Grande ABC.

Ler qualquer publicação e especificamente o Diário do Grande ABC por conta da regionalidade é um exercício que custa muita energia cognitiva. A leitura como ombudsman (e já escrevi sobre isso inúmeras vezes) é diferente da leitura como leitor comum. Ombudsman é o piloto na pista. Leitor comum é o espectador na arquibancada.

Por isso, a manchetíssima de hoje do Diário do Grande ABC me tocou profundamente.

Longe de mim defender a ideia de que o alarmismo, o realismo com tonalidades dramáticas e o tecnicismo frio devam ser a manchetíssima de cada dia das publicações locais e nacionais.  Tanto é verdade que a escala 3x1 está aí para negar esse radicalismo que certamente um e outro leitor me atribuiriam.

FORA, AGRESSOR!

Aliás, de vez em quando aparece um triunfalista para agredir este jornalista porque este jornalista procura não tergiversar sobre a realidade regional e nacional. Como estoico aprendiz, coloco o detrator no devido lugar de desconsideração.  Leigo metido a especialista é uma tragédia. E isso vale para todos nós.

Somos leigos em muitas especialidades. Pior é quem não se dá conta disso ou quem observa o mundo pelas lentes do estrabismo ideológico.

Voltando à jornada 3x1,  houvesse no Grande ABC uma associação dos editores de jornais, revistas, podcast e tudo o mais, entendo que uma cláusula pétrea de atuação coletiva não provocaria invasão de domicílio na individualidade de cada veículo. Seria espécie a obrigação ética e moral aplicar para valer a média mínima de uma a cada três manchetíssimas de cada dia voltada ao que existe de mais inquietante na região. Manchetíssimas não é uma definição restrita ao jornalismo impresso e digital diário. Vale para todo o mundo como definição da temática mais importante de cada dia.

A obediência tácita ao conceito de cláusula pétrea da jornada 3x1 seria uma iniciativa desafiadora tanto quanto acompanhar o jornalismo pela porta seletiva de ombudsman. Seria um exercício de coletivização da responsabilidade social.

As fontes viciadas e manipuladoras não encontrariam espaços a manobras oportunistas e deletérias e, com isso, teríamos desdobramento instigante.

As manchetíssimas de tonalidades críticas, corretivas e indignada  influenciariam o comportamento geral e sistêmico dos veículos de comunicação e dos comunicadores em geral. 

A mudança seria o início do princípio do começo da abertura do marco inicial de uma reviravolta na prática jornalística. Que me perdoem o encadeamento proposital de redundâncias que têm como inspiração a necessidade de martelar a obviedade da prática jornalística.

INVENTÁRIO EDITORIAL

A título de curiosidade, quando não de arrependimento, vou me atribuir uma tarefa inadiável nos próximos dias: verificarei a síntese das ilustrações de todas as capas da revista de papel LivreMercado, desde a primeira edição em formato físico de revista, em novembro de 1996 com Celso Daniel até janeiro de 2009.  Vou prestar contas a mim mesmo do comportamento editorial que explicitei como espécie de manchetíssima da publicação.

Ainda não defini o resumo da ópera para chegar a alguma conclusão. Devo perscrutar cada Reportagem de Capa sob quatro critérios,  levando-se em conta balizas como “sensibilidade exageradamente crítica”  “sensibilidade cautelarmente crítica”, “sensibilidade involuntariamente ufanista” e “sensibilidade propositadamente triunfalista”. Não parei para pensar sobre a territorialidade de cada departamento, mas acho que o conjunto é suficiente para chegar a resultado esclarecedor.

Como carrego o DNA das publicações que dirigi e dirijo, acho que vou passar pelo exame da ordem de compromisso social. E essa conclusão não é exclusivamente de minha livre e espontânea vontade. Parece que vem a reboque dos registros impressos.  Se não estiver enganado, a sinalização seria de que sempre me enxergaram da forma como me enxergo. Se houver alguma diferença, alguém precisa prestar contas ao tribunal da transparência.



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