Vou fazer o seguinte trato com o leitor: vou repetir logo em seguida a indagação que consta da manchetíssima de hoje e darei 30 minutos para que pense sobre o assunto e responda. Não vale ler o que escreverei em seguida à sugestão porque assim a consulta estaria prejudicada. Compromisso firmado? Topa esperar 30 minutos após o cronômetro ser acionado? Trata-se do seguinte:
Até que ponto, se houver algum ponto a considerar, a votação registrada no Grande ABC por algumas figuras estelares da Internet prejudicou para valer o volume de votos que supostamente se destinariam a concorrentes da região?
Vou ser mais específico: votos de Lucas Pavanato, Érika Hilton, Samia Bomfim e Kim Kataguiri, que chegaram próximos a 400 mil eleitores nas sete cidades da região, prejudicaram mesmo os nossos candidatos? Teríamos registrado o que chamam de evasão de eleitores locais em favor de estrelas da Internet, gente com posicionamento político e comportamental incisivo? Prefiro usar o termo invasão eleitoral em vez de evasão eleitoral porque os votos não viraram pó em função de algum efeito miraculoso. Os votos foram conquistados por terceiros. Os invasores estelares, para ser bem claro.
SIMPLISMO NÃO EXPLICA
Agora o caro eleitor que também é leitor que pretende participar dessa consulta deve largar a leitura e voltar ao texto somente dentro de 30 minutos. É o tempo que sugiro para que pense no assunto. Posso garantir que o assunto é mais complexo do que se imagina. O cronômetro já foi acionado. Volte em 30 minutos, portanto.
Acho que a maioria dos leitores e dos eleitores do Grande ABC optaria pelo simplismo reducionista que colocaria a votação do quarteto acima mencionado como fator decisivo à quebra da representação do Grande ABC na Câmara Federal a apenas um vencedor nas urnas de 4 de outubro, no caso o ex-prefeito de Santo André, Paulinho Serra. Tínhamos Alex Manente, Vicentinho Paulo da Silva e Fernando Marangoni. Todos foram excluídos do baile adicional de quatro anos.
Paulinho Serra venceu graças aos votos prevalecentemente de Santo André. Oito de cada 10 votos que o elegeram foram obtidos na cidade que ele dirigiu durante oito anos. Mesmo com a vitória, Paulinho Serra ficou insatisfeito. Esperava algo como o dobro dos 103 mil votos locais. Muitos fazem contas dando conta de que Paulinho Serra perdeu capital politico porque teve mais de o dobro de votos para prefeito em 2020. Uma coisa e outra coisa são coisas diferentes. Não dá para comparar, sob pena de prática de fake News.
PROVAS PROVADAS
Para chegar à conclusão a que cheguei antes de preparar este texto – e nesse ponto o leitor desafiado a responder em 30 minutos é tremendamente prejudicado, reconheço, fiz série de ponderações, depois de recolher números essenciais.
Estava inclinado a dizer uma coisa como resultado de reflexões, mas no último minuto do segundo tempo dei uma reviravolta para chegar à seguinte afirmação: nossos representantes foram sim prejudicados pelo quarteto formado por Lucas Pavanato, Erica Hilton, Samia Bomfim e Kim Kataguiri.
Não há como resistir às provas que recolhi desafiando meu velho cérebro guerreiro que não se conforma jamais com conclusões aparentemente massificadas sem escrutínio do bom-senso. Ou seja: para responder o que provavelmente a maioria responderá ao fim de 30 minutos, precisei me submeter a sessões de sadomasoquismo matemático.
QUARTETO INVASOR
Acho que os candidatos que ficaram a ver navios e os eleitores em geral responderão ou já responderam que os invasores eleitorais são mesmo os responsáveis pela frustração regional. De tudo que já li sobre o assunto e que tratou desse assunto, não ouvi e não li ninguém deixar de responder positivamente a fatores externos, que se tornaram internos. Nenhum deles, entretanto, construiu uma tese razoavelmente robusta. Apenas simplificaram, como se os invasores eleitos no Estado de São Paulo fossem mais invasores no território do Grande ABC e daí à conclusão de interferência indevida na decisão do eleitorado.
Me meti nessa selva de especulação numérica certo de que os frustrantes resultados a deputado federal do Grande ABC teriam sido um passivo com peso relativamente maior dos invasores. Mas, em seguida, voltei a atenção para a realidade de que eles poderiam ter tido peso zero, porque teriam impactado também outras geografias do eleitorado paulista. Como resolver a questão?
PARTICIPAÇÃO SEMELHANTE
Por isso decidi pesquisar. No Estado de São Paulo como um todo, o quarteto arrasador registrou o total de 5.738.088 milhões de votos, assim distribuídos: Lucas Pavanato 3.038.438, Érica Hilton 1.596.472, Samia Bomfim 583.107 e Kim Kataguiri 520.071. A votação conjunta corresponde a 24,20% do total de votos válidos para deputado federal no Estado de São Paulo – 23.704.546 milhões.
Quer o leitor saber o peso proporcional dos votos ao quarteto mágico nos sete municípios do Grande ABC? Praticamente o mesmo da média no Estado de São Paulo. Dos 1.470.775 milhão de votos que os eleitores do Grande ABC destinaram aos concorrentes à Câmara Federal, 23,70% ( 348.612) foram acumulados pelo quarteto de intensa personalidade midiática.
Comparem o resultado da média paulista (24,20% com a média regional (23,70%) e constatem que, do ponto de vista matemático, não há nada que possa ser registrado como diferencial com alguma relevância. Os invasores eleitorais do Grande ABC não teriam sido invasores. Certo?
O resultado regional confrontado com o resultado estadual é uma equação indispensável à tentativa de encontrar a resposta. E a resposta que apareceu com a equivalência de votação do quarteto nos dois territórios poderia sugerir que a resposta aparentemente mais provável de que o Grande ABC foi prejudicado não se sustentaria. Estamos nos fazendo de vítimas para encontrar uma justificativa ao fracasso dos concorrentes à Câmara Federal.
Há variáveis municipais que chamaria de índice de invasão que não sustentariam argumentação contrária à conclusão a que chegamos como fruto do confronto entre Grande ABC e o Estado de São Paulo.
Observando-se por cidade da região, o quarteto obteve 23,83% dos votos válidos em Santo André, 23,35% em São Bernardo, 29,99% em São Caetano, 22,05% em Diadema, 19,66% em Mauá, 24,44% em Ribeirão Pires e 17,89% em Rio Grande da Serra.
QUESTIONAMENTOS
Como sou resiliente a qualquer tipo de encaminhamento de causa e efeito de resultados geralmente lubrificados pela pressa, quando não pela necessidade de provar uma conclusão previamente elaborada sem passar pelo confronto de questionamentos profundos, como sou assim, segui em frente. Seguir em frente significa não me conformar com algo que ainda possa ser sabatinado, escrutinado, destrinchado.
Teriam mesmo os candidatos a deputado federal com a chancela do Grande ABC sofrido efeitos semelhantes aos dos demais candidatos no Estado de São Paulo e com isso, definitivamente, não haveria sombra de dúvida de que seria uma falácia a tal invasão ou evasão de votos? Essa questão martelou meus pensamentos e creio que também dos candidatos que se frustraram e dos eleitores mais comprometidos com respostas das urnas.
Para chegar à conclusão a que cheguei, a conclusão que dá conta de que perdemos representação federal por conta da influência direta do quarteto de estrelas das redes sociais, precisei, portanto, esquentar a cabeça. O que pergunto para responder em seguida é como resolvi ter a coragem de dizer que sim, que fomos prejudicados, garantidamente prejudicados, e que, portanto, o quarteto nos atrapalhou? A resposta segue a seguinte trilha:
1. Contamos potencialmente com mais aderência de votos locais em relação à média do eleitorado paulista e da maioria dos municípios paulistas devido ao alto grau de conurbação --cidades que se juntam geograficamente como se megacidade fossem. Os grandes conglomerados urbanos somados contam com a maioria dos deputados federais. Há dados oficiais que confirmam a correlação.
2. Exatamente por oferecer potencial de concentração relativamente forte de votos nos candidatos locais, e apesar de todas as dificuldades impostas nestes tempos de redes sociais que praticamente eliminam distâncias de campanhas, o Grande ABC se torna mais vulnerável aos candidatos estelares não necessariamente na proporcionalidade de votos auferidos, mas na quantidade de votos depositados. Desta forma, como a distribuição de cadeiras obedece ao principio da quantidade relativamente às regras estabelecidas, os desfalques quantitativos sofridos pelo Grande ABC acabaram por afetar a ocupação de Brasília.
VALORES DIFERENTES
Vou ver se consigo convencer o leitor e também a mim mesmo partindo de um exemplo prático: Orlando Morando, ex-prefeito de São Bernardo, deixou de ser consagrado deputado federal por poucos votos em relação ao titular determinado nas urnas. Uma diferença ínfima que poderia ter sido largamente superada não fosse a influência percentual e quantitativa de Lucas Pavanato, segundo mais votado em São Bernardo. Orlando Morando liderou a contagem de votos a deputado federal em São Bernardo com 48.496 eleitores fieis, que representaram 11,10% do total de votos válidos, enquanto Lucas Pavanato, o segundo mais votado, registrou 43.716 votos, ou 10,01% do total de votos válidos.
Diferenças percentuais semelhante envolvendo qualquer outro candidato a deputado federal em relação a Lucas Pavanato não teria o mesmo efeito nas urnas nos casos em que os votos válidos fossem menos expressivamente marcantes. Ou seja: o menos de um ponto percentual (11,10% menos 10,01%) que separaram Orlando Morando e Lucas Pavanato em São Bernardo custou caro ao também ex-secretário de Segurança Pública da Capital. Cada ponto percentual de voto conquistado pelo invasor Lucas Pavanato tem peso diferente a depender do total do eleitorado de cada Município. No caso de Orlando Morando, cuja base de votos é São Bernardo, o estrago quantitativo foi enorme. E apenas três mil votos o separaram de uma vaga em Brasília.
TEM INFLUÊNCIA SIM
Então, resumidamente, a invasão de candidaturas estreladas no Grande ABC tem sim influência na composição da Cãmara Federal. A conclusão no caso das candidaturas a deputado estadual é outra porque elegemos oito representantes e não houve nada semelhante aos impactos do quarteto dos deputados federais. Apenas a jovem e intrépida Eduarda Capopiano causou certo estrago na região, mas nada comparável àquele quarteto.
Poderia o Grande ABC contar com mais que oito deputados estaduais, mesmo com a invasão da estrelada Eduarda Capopiano? Parece que sim: os vereadores Fran Silva, Julinho Fuzari e Ivan Silva, da base do prefeito Marcelo Lima, canibalizaram em parte o eleitorado de São Bernardo. Fossem apenas duas candidaturas, Marcelo Lima poderia contar diretamente com reforços na Assembleia Legislativa. Mas mesmo com os três trombando pelas ruas, possivelmente dois deles poderiam ter sido eleitos não fossem os quase 30 mil votos de Eduarda Capopiano,ou 7,01% dos votos válidos.
Quem acreditar que esse assunto está encerrado não sabe do que é capaz essa cabeça velha de guerra. O futuro próximo deve agasalhar algumas incursões essenciais à compreensão ainda mais ampla do significado dessa mudança social do voto, que não é nenhum fenômeno, claro, mas que pode demarcar novas especulações. Votos para Tiririca e votos para Eduarda, para Pavanato, para Érica e para alguns outros acenam a novos tempos. Ou não?
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12/10/2026 PAULINHO DESPREZA GRUPO QUE O EMBALOU