Não aposto um tostão furado no futuro industrial do Grande ABC se o futuro industrial do Grande ABC for delineado com base no passado e no presente de esgarçamento do setor industrial do Grande ABC. Sairemos do prazo de validade já vencido de vocação industrial para o esticamento do processo de resiliência industrial. Quem se apresentar com dados que neguem essa projeção certamente precisaria ser desmascarado. Seria fake news da mais pura malandragem.
Estamos encalacrados no setor industrial. Pior que isso: sem válvula de escape que compense minimamente o esvaziamento do setor, como é escancaradamente o caso da cidade de São Paulo, mais desindustrializada que o Grande ABC. Por isso, abrangentemente, a Economia do Grande ABC está fadada ao fracasso continuado.
Até metade desta década vamos na toada deste século, uma continuidade das duas décadas anteriores do século passado, quando se iniciou o processo de desindustrialização.
UM SORTILÉGIO?
Apresento em seguida alguns dados básicos que respaldam essas observações desagradáveis perante olhares benevolentes, quando não ignorantes, senão estúpidos. Nem recorro, como poderia, a um arsenal de razões que ao longo de quase quatro décadas desta publicação dinamitariam contra-argumentos dos ilusionistas de plantão.
Tudo isso que escrevo e o que se segue tem a consistência histórica que não admite em sã consciência mudança de rota que venha a interromper o circuito de desilusões. É preciso que se repita com novo enredo o sortilégio que nos beneficiou com o protecionismo econômico do Regime Militar e especialmente com a consolidação do setor automotivo para saltar da improbabilidade lógica e trafegar por uma estrada de extraordinária transformação. Nada que se possa apostar. Muito, mas muito longe disso.
A tendência é que os dados deste século -- contabilizados no caso desta análise até o ano de 2021 -- ganhem novas configurações nos próximos 19 anos. Se estiver por aqui em 2040, terei a oportunidade de checar mais uma vez essa previsão. Se não estiver fisicamente, o mundo digital haverá de ser pesquisado. Nesse intervalo, vou continuar a analisar a marcha de uma contagem devastadora.
Qualquer estudo que resgate o Grande ABC de um século já vivido chegará à conclusão óbvia de que nos tornamos uma Detroit à Brasileira sem o respaldo do governo federal à recuperação mesmo que parcial da Detroit original. Preferimos torrar dinheiro federal numa universidade alheia aos problemas do Grande ABC. Pior que torrar perto de R$ 500 milhões a cada ano é o silêncio acovardado da sociedade que assiste a tudo silenciosamente.
PODERIA SER PIOR
Seria ótimo se o Grande ABC apresentasse dados históricos e atuais que permitissem traçar destino até o ano 2040 suficientemente plausível à preparação de uma festa de recomposição econômica e social. Infelizmente não é o caso. E dificilmente o será. Não temos na Economia certa representatividade que conquistamos recentemente em cúpulas partidárias.
Há um paradoxo alucinante no que vou escrever em seguida. Acontece que teremos de rezar fervorosamente para o Grande ABC seguir dependente do setor industrial mesmo cambaleante. É o que temos para suportar as transformações que há muito desfigura o tecido social.
O PIB Industrial do Grande ABC (dados mais atualizados, de 2021, do IBGE) ainda representa um naco importante do PIB Geral. Contamos com 25,58% do PIB Geral. Baixamos 26 pontos percentuais neste século, com base em 1999, quando registramos 46,58%. É uma tijolada. Mas não é tão ruim assim, para ser otimista, porque o restante da composição da criação de riqueza na região é bastante frágil. Outros endereços paulistas também sofreram perdas industriais, mas se socorreram de outras atividades.
PERDENDO MUSCULATURA
De qualquer forma, mesmo com a indústria da região oferecendo exemplo de resiliência, entendendo resiliência como o sofrimento de perdas continuadas mas ainda suportáveis, mesmo assim os resultados são catastróficos para quem pontuava na Economia nacional há 50 anos. No Estado de São Paulo, também vítima de desindustrialização no confronto com outras peças da Federação, o Grande ABC sofre reveses duríssimos.
O PIB Industrial do Grande ABC registrado em 2021 tendo como contraponto o ano de 1999 cresceu nominalmente, sem considerar a inflação, 287,27%. Já o Estado de São Paulo avançou no conjunto de mais de 600 municípios nada menos que 400,72%. Mais de 100 pontos percentuais de diferença. E no PIB Geral, que envolve todas as atividades econômicas, o Grande ABC do mesmo período avançou nominalmente, incluindo-se o setor industrial, 549,82%, enquanto o Estado de São Paulo alcançou 699,26%.
A queda da participação relativa do PIB Industrial do Grande ABC ante o PIB Industrial do Estado de São Paulo é de 38,09%. Já o PIB Geral do Grande ABC perdeu em 42,96% a corrida contra a média do Estado de São Paulo. No PIB Industrial, a participação relativa do Grande ABC no Estado de São Paulo caiu de 10,26%para 7,90% no período já especificado. NO PIB Geral, de participação relativa de 7,43% no PIB Paulista em 1999, o Grande ABC caiu para 5,53%.
JUNDIAÍ É COVARDIA
Notem os leitores que estou sendo bastante generoso0, mas mesmo assim inevitavelmente cáustico, ao estabelecer o confronto do Grande ABC com o Estado de São Paulo como um todo. Quando se toma o pulso de determinadas localidades mais competitivas dos paulistas, a situação é muito mais grave e esclarecedora.
É covardia comparar o desempenho econômico industrial e também das demais atividades do Grande ABC com Jundiaí, por exemplo. Aquela cidade do Interior próxima da Capital cresce sem parar e está forrada de painéis de identificação de fábricas que deixaram o Grande ABC. Jundiaí cresceu nominalmente até 2021 nada menos que 595,67% no PIB Industrial e 1.306,03 no PIB Geral.
Convido o leitor a voltar alguns parágrafos e confrontar os dados de Jundiaí com os do Grande ABC. Reparem que no PIB Industrial a região cresceu nominalmente não mais que 287,27% ante 595,67% de Jundiaí. E no PIB Geral o Grande ABC avançou sem considerar inflação do período 549,82% ante 1.306,03%.
Resumindo: Jundiaí avançou mais que o dobro no PIB Industrial ante o Grande ABC e no PIB Geral a diferença chegou a quase três vezes. Tudo isso entre 2000 e 2021, com base em 1999. O PIB Industrial de Jundiaí (nominais R$ 1.931,81 bilhão) em 1999 não passava de 14,91% do PIB Industrial do Grande ABC (nominais R$ 12.952,19 bilhões) em 1999. Mas avançou para participação relativa de 30,38% em 2021 ao atingir R$ 11.700.444 bilhões ante R$ 38.503.718 bilhões dos sete municípios da região. A conta seria outra e muito mais preocupante caso fosse acrescentado o total dos dois modelos de PIB que abrangesse toda a vizinhança da cidade do Interior, que forma espécie de metrópole.
AGORA, SOROCABA
Jundiai é um caso muito especial de avanço espetacular tanto no PIB Industrial quanto no PIB Geral, diferentemente portanto do Grande ABC. Que tal, então, pegar um caso menos especial? Sorocaba é um exemplo do qual lanço mão desde muito tempo, especialmente ao comparar o desempenho econômico com Santo André. Há similaridades demográficas entre os dois municípios, com a funda distância de que Sorocaba está no Interior mais próximo da Capital e cresce sem parar, enquanto Santo André está na Grande São Paulo que mingua sem parar.
Pois Sorocaba dá duas sovas bem dadas no Grande ABC desde 2000, com perspectiva de seguir o massacre nas próximas décadas porque, entre outras vantagens comparativas, é a capital de uma metrópole interiorana para onde os investidores fluem confiança. Desde 1999 até 2021, Sorocaba alcançou crescimento nominal do PIB Industrial de 553,72% (portanto, o dobro do Grande ABC), enquanto o PIB Geral registrava avanço de 966,04% (quase o dobro do Grande ABC).
ROTA DA CAPITAL
Como o setor industrial do Grande ABC dificilmente reverterá a trajetória das últimas quatro décadas, de desindustrialização continuada tanto em termos locais quanto comparativos a outros territórios, só restaria mesmo uma alternativa, salvo o sortilégio já mencionado: seguir a rota da vizinha Capital que, esquartejada na indústria de transformação, fez do setor de serviços, principalmente, a saída ao crescimento.
Já advertia o prefeito Celso Daniel, há 30 anos, sobre a necessidade de fortalecimento da área de serviços, com a adoção de políticas públicas que estimulassem investimentos em atividades de médio e alto valor agregado, inclusive como suprimentos ao setor industrial.
O Grande ABC perdeu esse bonde que contempla atividades hoteleiras, de consultoria em geral, de entretenimento, hospitalar e tantas outras. Vencer a barreira do gataborralheirismo frente a Capital parece impossível. Vamos seguir com um parque de serviços de baixa qualidade na geração de empregos. Nada que compensaria o rebaixamento do PIB Industrial, que carrega no ventre de resultados grande parcela do peso salarial.
DUROS GOLPES
No mesmo período selecionado para mostrar o quanto o Grande ABC está perdendo a corrida de desenvolvimento econômico no Estado de São Paulo, a Capital paulista sofreu duros golpes na indústria de transformação. Duríssimos golpes. Perdeu participação relativa no conjunto do PIB local de 32,35% para 7,54%. Seria uma hecatombe se não houvesse avanço nas demais atividades, especialmente de serviços.
O PIB Industrial da cidade de São Paulo cresceu nominalmente apenas 71,69% no período, perdendo feio para os 285,25% da inflação no período, mas no PIB Geral, incluindo-se o PIB Industrial, avançou nominalmente 636,56%. Portanto, muito mais que o Grande ABC.
Essa análise é apenas uma das várias faces de avaliação do desenvolvimento econômico do Grande ABC. Vivemos nesta metade da terceira década de novo século uma situação que vai muito além da gravidade dos dados já consumados. A perspectiva é muito mais inquietante quando se elenca uma dezena de situações já postas como algo que se torna praticamente incontrolável. Não há mobilização e reação coordenada de instâncias ainda distantes da realidade. Nessa toada, quando 2040 chegar, esses dados parecerão presente divino.
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08/09/2026 UM ENTREVISTADO NO MUNDO DA LUA