Esportes

Nunes, artilheiro ou operário,
pode decidir para o São Caetano

DANIEL LIMA - 13/10/2011

O centroavante Nunes, que voltou ao ataque do São Caetano e aos poucos retoma a melhor forma física e técnica, pode tirar a equipe da zona de rebaixamento já no jogo deste sábado contra o ASA, em Arapiraca, e também, impulsionar uma reação que culminaria na manutenção da equipe na Série B do Campeonato Brasileiro. Nunes é o nome provável do futuro próximo do São Caetano e não necessariamente porque saiba fazer gols. Nunes é um atacante que sabe fazer e sabe ajudar a fazer gols, mas para isso é indispensável que a equipe aprenda a jogar com ele.


Se o São Caetano aprender a jogar com Nunes, ganhará um reforço que ainda está por estrear. Ter Nunes em campo sem lhe extrair todo o potencial é como escalar um centroavante comum. Nunes é mais que um centroavante comum. Ele mesmo não se deu conta disso a ponto de deixar o tempo passar demais para se descobrir. Está na hora de acordar.


O conceito de que centroavante bom é centroavante goleador nem sempre é válido, embora a cultura do futebol brasileiro não perdoe quem não seja artilheiro quando se carrega o número nove. Jogou com a nove, tem de marcar. Os analistas de futebol, a maioria presa a conservadorismos, não dão trégua a centroavante que passa em branco.


Nunes é um centroavante que frequenta a grande área com destemor, conhece cada metro quadrado do minifúndio mais importante de um campo de futebol, tem ótima impulsão, chuta com precisão, faz a função de pivô como poucos, abrindo espaço para quem chega de trás, e sistematicamente mostra os dentes cerrados a zagueiros mal-encarados. É um ocupante incômodo, quando não invasor, dos metros quadrados mais vigiados da arena do futebol.


O que o atrapalha?


O que, afinal, atrapalhou tanto a vida de Nunes, que estourou numa Copa São Paulo de Futebol Juniores, em 2003, quando o Santo André foi campeão numa final diante do Palmeiras do então também jovem e aparentemente menos promissor Vagner Love? O gênio forte, a mania de querer transformar futebol em pugilismo mesmo que sutil, o mau-humor com as arbitragens, uma extravagante mania de ser sincero demais com os treinadores, a sem-cerimônia de desafiar dirigentes que se metem a treinadores, caso da última passagem pelo Santo André, recentemente, e uma tendência de interagir com torcedores adversários sem muita sutileza. Nunes é um vulcão em campo.


Mas o Nunes que se recuperou de uma contusão que o afastou do São Caetano durante muitos jogos na Série B do Campeonato Brasileiro parece mais sereno, mais preparado psicologicamente, mais adequado às durezas da competição. O ambiente do São Caetano o favorece muito ao equilíbrio emocional. Ele conta com a atenção de quem o conhece bem, de quem sabe que o temperamento quase indomável radicaliza-se em bom-mocismo com um mínimo de atenção e afeto.


Nunes bem tratado fora de campo é Nunes motivado dentro de campo. Nunes beligerante fora de campo é Nunes indomável dentro de campo.


Mas mesmo assim é preciso saber utilizar as qualidades técnicas e táticas de Nunes para extrair o máximo de produtividade dos pés à cabeça.


No grande time do Santo André, vice-campeão paulista do ano passado em memorável final contra o Santos, Nunes parece ter sido menos importante do que Rodriguinho, artilheiro da equipe com 16 dos 54 gols marcados em 23 jogos. Também parece ter pesado menos na balança final do que Bruno César, com oito gols, e Branquinho, com sete. Os laterais Cicinho e Carlinhos não teriam deixado Nunes destacar-se tanto, porque fizeram caminhos em direção ao gol com frequência. Assim como os volantes Alê e Gil associaram marcação e fluência na arrumação do setor.


Gols para os outros


Que papel, afinal, o técnico Sérgio Soares teria reservado a Nunes naquele Ramalhão extraordinário que assustou tanto o Santos de Ganso e Neymar, além da torcida alvinegra, naqueles dois jogos no Pacaembu? Porque Nunes marcou apenas quatro gols naquela competição?


Nunes era um operário padrão, um boi de piranha para que todo o grupo mais talentoso aparecesse. Incomodava os zagueiros e os volantes adversários com movimentação constante na grande área e, em sentido inverso, saindo da grande área para abrir espaços aos meias e laterais que penetravam em diagonal.


Quantos gols o Ramalhão construiu por conta dessa intensa mobilidade de Nunes? E das cobranças de falta de Bruno Cesar em áreas supostamente mortas, para onde se deslocava Nunes a fim de chamar os zagueiros e ser atingido ou fingir-se atingido, já que, marcadíssimo pelas arbitragens, as tentativas de pênaltis já não surtiam efeitos? Nunes trocou os pênaltis que rareavam por faltas letais.


Nunes era uma peça importantíssima naquela equipe. Deixou de ser o goleador do Ramalhão no campeonato para que a equipe brilhasse ofensivamente como um todo. A passagem pelo Vasco da Gama não lhe fez bem à alma. Não encontrou no time carioca o respaldo extra-campo que faz a diferença dentro de campo.


No São Caetano do técnico Márcio Araújo, Nunes tem sido um atacante quase solitário. Por conta da timidez ofensiva da equipe, que atua com três volantes e um meia pouco infiltrante, e dois laterais apoiadores que não encontram respaldo de volume de jogo no meio de campo, Nunes joga preso entre os zagueiros. Sair para que, se ninguém penetra?


Contra o Vila Nova de Goiás, sábado passado, quanto Ailton e Geovane foram introduzidos na equipe e fizeram o que sabem fazer, buscar o gol adversário, Nunes marcou dois gols e causou estragos como nos bons tempos do Ramalhão ao deixar a área, chamar a marcação e abrir brechas aos companheiros.


O ASA é quase imbatível em Arapiraca na Série B do Brasileiro. Só perdeu para a Ponte Preta. Dos 42 pontos já disputados ali, ganhou 33. Um ambiente mais que convidativo para brilhar a estrela de Nunes, fazendo gols ou abrindo espaços a quem vem de trás. Mas é preciso que venham de trás, que o time se solte, que defender não seja supérfluo, mas atacar não se torne ocasionalidades.


Nunes é um dos maiores artilheiros dos gols dos outros. Mas é preciso que o treinador saiba disso.


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