Administração Pública

Grande ABC tem supersecretário
para reordenar desenvolvimento

DANIEL LIMA - 05/01/1997

Nelson Tadeu Pereira, o nome mais importante do novo secretariado municipal do Grande ABC, deverá marcar a história econômica da região em duas etapas. A primeira, antes dele, de absoluto alheamento dos administradores públicos em relação às necessidades de planejamento integrado do setor. A segunda, de depois dele, com introdução de mecanismos de diagnósticos e ações que contemplem não só a desaceleração de um contínuo processo de esvaziamento, como também de recuperação das atividades econômicas.


Escolhido para ocupar a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André, Nelson Tadeu Pereira, quase 30 anos de Grupo Rhodia, um dos três Melhores Executivos do Ano eleitos pelo Conselho Consultivo de LivreMercado, Engenheiro Emérito deste ano da Associação dos Engenheiros e Arquitetos do ABC e um dos meninos de ouro de Edson Vaz Musa, até outro dia presidente do Grupo Rhodia no Brasil, é certamente o tiro na mosca do prefeito Celso Daniel.


A opção por Nelson Tadeu Pereira, depois da recusa de Wilson Ambrósio da Silva, diretor do Diário do Grande ABC, sinaliza o tônus de flexibilidade político-ideológica de Celso Daniel. A promessa de assumir pessoalmente a nomeação do secretariado está confirmada. Nelson Tadeu não é filiado ao PT e a qualquer outro partido.


O fato de ter ligações empresariais, como executivo de uma multinacional, em outros tempos teria destroçado a opção por Nelson Tadeu. Desta vez, entretanto, Celso Daniel não encontrou tanta resistência porque está dando ao PT de Santo André um perfil conciliador e moderado de quem não vê o capital como inimigo, mas sim indispensável aliado.


Celso Daniel controla o partido em Santo André depois de mais de uma década de permanentes atritos com a ala sindical, então sob a batuta do ex-deputado federal José Cicote. Seguidos desgastes de derrotas eleitorais de Cicote para a Prefeitura de Santo André e na tentativa de reeleição a deputado federal, além de envolvimento no movimento contrário à absorção do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André pelo de São Bernardo, filiado à CUT, deixaram o campo livre para Celso Daniel.


Por isso, a definição por um executivo privado para a pasta mais importante da gestão que se iniciou no último dia 1º, além da ocupação da Craisa, Companhia Regional de Abastecimento Integrado de Santo André, por membros do PMDB comandados pelo ex-deputado federal Valter Garcia, revela o novo conteúdo de pragmatismo político-administrativo do prefeito.


A possibilidade de Celso Daniel ter em Nelson Tadeu um supersecretário é tão certa quanto dois e dois são quatro. Não se tem notícia no setor público regional de profissional que reúna currículo tão admirável. Como Tadeu anuncia que pretende imprimir no setor público a mesma volúpia por mudanças que o marcou na iniciativa privada, o mínimo que se pode esperar é que uma espécie de revolução de conceitos avançará em direção a todas as Prefeituras.


O efeito-Tadeu não teve o adensamento de seguidores em outras grandes empresas da região porque prevalece a cultura do individualismo estratégico, mas encontrará terreno mais sensível na administração pública porque provavelmente obterá apelo comunitário que dinamitaria os atávicos obstáculos burocráticos.


Na Rhodia Têxtil de Santo André, e em seguida na Fairway Filamentos, joint-venture do Grupo Rhodia com a Hoechst, Tadeu introduziu programa de capacitação dos fornecedores que fez tanto sucesso que virou livro, A Revolução nos Serviços. O sistema aplicou conceitos de qualidade, racionalidade e produtividade na relação com fornecedores, cujo quadro foi drasticamente reduzido na Rhodia Têxtil de dois mil para perto de 300. Com isso, aproximou a empresa dos fornecedores e compartilhou decisões tratadas até então de forma isolada. Os tempos de globalização econômica exigem criatividade e a equipe comandada por Nelson Tadeu esbanjou talento.


Mas antes desse programa, Tadeu já revelara preocupações com o Grande ABC, ao instituir o projeto Santo André Primeira Opção. Em síntese, o programa estimulava compras nas empresas sediadas na região, de modo a maximizar internamente a arrecadação tributária. A Rhodia Têxtil, agora Fairway, deu saltos nos valores de aquisição de produtos e serviços. Quando o programa foi lançado, a empresa comprava apenas 10% em peças de reposição, serviços e produtos na região. Em pouco tempo, saltou para 40%, transferiu para Santo André duas empresas fornecedoras, além de representações com subsedes.


O novo secretário de Desenvolvimento Econômico de Santo André, pasta criada por Celso Daniel justamente para dar à atividade a importância que as inquietações macroeconômicas e locais exigem, já delineou algumas metas que pretende ver atingidas. E não deixa de estendê-las aos demais municípios, porque sabe que a condição prática de região metropolitana torna as relações no Grande ABC interdependentes.


Nelson Tadeu vai atacar de imediato a fragilidade de dados estatísticos das Prefeituras. Por isso, endossa a proposta do Consórcio Intermunicipal de efetivar convênio com o Instituto Municipal de Ensino de São Caetano (IMES) para elaboração de um banco de dados sócio-econômicos.


“Precisamos nos preparar para vender o Grande ABC aos eventuais interessados, mas isso se faz com dados, com informações. Temos que preparar documentos e dossiês para mostrar o potencial do nosso mercado. Investimento produtivo deve ser encarado como uma competição, em que só consegue espaço quem mostra organização” — disse.


Ao assumir a Secretaria, Nelson Tadeu já carrega para seu gabinete estudos de Uberlândia relativos à sensibilização de investimentos na área de software. “São três volumes substanciosos que mostram o Município em todos os seus detalhes” — afirma.


Um bom banco de dados é um dos caminhos para enquadrar a economia do Grande ABC num modelo de modernidade gerencial. É o primeiro e indispensável passo. Nelson Tadeu sabe disso, mas não fica só nisso. Ousado, não quer adotar em Santo André e estimular para toda a região apenas o programa de incubadoras de empresas que tem levado muitos administradores públicos a Rio Claro, onde a proposta já virou realidade.


No Projeto Incubadora, a Fiesp/Ciesp facilita a implantação de empresas em galpões específicos, e as embalam por determinado período, até que possam andar com as próprias pernas. Nelson Tadeu considera interessante o sistema, pretende implantá-lo, mas vai mais longe. Entende que é possível também adotar o que chama de condomínio industrial traçado pelo especialista Mariano Caratin e que consiste em reunir num mesmo galpão microempresas que possam dividir não só os custos com infra-estrutura, casos de aluguel, segurança, refeitório, entre outros, mas até operacionais, com o uso em comum de máquinas e equipamentos. “Seria uma espécie de outlets industriais” — compara Tadeu para diferenciar sua proposta do sistema tradicional de condomínio industrial, em que não se avança na socialização de máquinas, equipamentos e espaços operacionais.


Que não venham com discurso de que faltam áreas físicas no Grande ABC, porque o novo secretário não aceita. Primeiro, porque especialistas do setor imobiliário já garantiram que a região reúne porção de galpões vazios a comprovar o arrefecimento econômico. Segundo, porque Tadeu critica há muito tempo a desatualização de quem entende que novos investimentos exigem necessariamente mais construção física: “A tendência de miniaturização das empresas acabou com qualquer correlação entre investimento e área” — afirma.


Já a partir dos primeiros dias de atuação, Nelson Tadeu manterá contatos com secretários de pastas equivalentes dos demais municípios da região. Com Valter Moura, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, e provavelmente com Filipe dos Anjos Marques, presidente da Associação Comercial e Industrial de Diadema, terá facilidades de aproximação porque já lhe são conhecidos, por atuar na Associação Comercial e Industrial de Santo André e no Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) de Santo André: “O que pretendo com os demais secretários é realizar trabalhos em que a força do conjunto tornará a carga menos pesada para todos e os resultados bem mais visíveis” — explica.


Não serão apenas os respectivos secretários do setor econômico das Prefeituras os alvos da aliança que Nelson Tadeu pretende constituir. Ele também estará voltado para todas as lideranças empresariais da região, caso de associações comerciais, delegacias regionais do Ciesp e Regional do Sebrae. “Precisamos de maior relacionamento entre Prefeituras da região e organizações empresariais para dar agilidade e complementariedade às ações” — afirma.


Daí, Tadeu imaginar também a composição de uma organização empresarial que atuaria como espécie de consultoria aos empresários, sobretudo de pequeno porte, orientando-os diretamente ou através de respectivas entidades de classe sobre as melhores alternativas para resolver problemas como a certificação do ISO 9000, financiamentos através de órgãos oficiais, entre outras necessidades rotineiras. “Tudo isso visa a facilitar a vida de quem empreende, de modo a tornar a atividade produtiva receptiva à redução do quadro de desemprego que observamos com muita preocupação” — explica o secretário.


O intercâmbio entre Prefeituras e organizações empresariais também é indispensável quando se sabe que a guerra fiscal, anunciada e depois refugada pelos prefeitos Luiz Tortorello (São Caetano) e Gilson Menezes (Diadema), é uma ameaça que pode contribuir para complicar ainda mais o desempenho regional.


Nelson Tadeu entende que só mesmo um diagnóstico profundo do perfil dos impostos municipais no universo de arrecadação de cada Município da região, bem como avaliações detalhadas sobre o que chama de repercussões fiscais decorrentes de incentivos, poderá eliminar eventual caracterização de preconceito sobre a questão.


“A isenção de impostos numa determinada atividade não pode ser vista de forma individual. Importa muito o conjunto em que a atividade está inserida em termos geográficos e que pode, por sua vez, representar ganhos indiretos de arrecadação que compensem aquela medida” — pondera o novo executivo público.


A ausência de vínculo partidário facilitou a assimilação de Nelson Tadeu pelo staff do prefeito Celso Daniel. O currículo do novo secretário de Desenvolvimento Econômico também está recheado de ações comunitárias, que ele jamais divulgou, e isso tem valor particularmente preponderante num partido de esquerda. Nelson Tadeu interpreta a entronização no PT como ato em que prevalecerá a tranquilidade de quem não está dando salto no escuro: “Se existe um partido coerente no espectro nacional, este é o PT. Sei muito bem o que pensam e como agem os membros do PT. Sei exatamente o que me espera” — dizia três dias antes de assumir o cargo.


Avesso ao uso de gravata, discreto o suficiente para passar quase despercebido numa festa em que se transformou no grande homenageado, caso do título de Engenheiro Emérito do Ano entregue duas semanas antes de assumir a Secretaria, Nelson Tadeu Pereira conflita com o padrão de homem público também porque é extremamente econômico ao falar, embora tenha impressionante capacidade de articulação, típica dos melhores políticos.


Ele deixou um cargo na Rhodia que tratava de esmiuçar a emaranhada legislação tributária brasileira de modo a encontrar alternativas técnico-legais que poderiam favorecer tanto novos investimentos como melhorar a performance fiscal, para, ironicamente, comandar uma pasta que terá papel relevante na preservação e conquista de empreendedores que mensuram atentamente sobre vantagens e desvantagens de estar numa região predominantemente metalúrgica, com capacidade de infra-estrutura viária estrangulada e historicamente reivindicativa na área sindical, além de ter erigido um muro separatista entre as fronteiras municipais.


A integração regional, induzida pela via econômica, é o desafio que espera por Nelson Tadeu. Ele quer transplantar para o âmbito regional, com limitações e vantagens específicas de agora fazer parte de uma administração pública, toda a sinergia que conseguiu costurar entre a Rhodia Têxtil e seus maiores fornecedores. Ele não apostaria nessa empreitada se não acreditasse no sucesso, porque tem fama de homem sempre cauteloso, que mede milimetricamente os passos pessoais e profissionais.


Se não acreditasse em mudanças ele jamais abandonaria um emprego disputadíssimo numa das maiores multinacionais com sede no País, onde os salários costumam ser acima dos previstos nas bolsas, para aceitar pouco mais de R$ 4 mil como comissionado do setor público. É verdade que Nelson Tadeu pretende unir-se a outros profissionais e montar empresa de consultoria na região, para aumentar seus rendimentos e espalhar ao empresariado toda a experiência acumulada na Rhodia, mas isso ainda é apenas projeção. Tanto quanto os vencimentos que começará a receber em 1999 como complementação de salário de aposentadoria do fundo especial da subsidiária da multinacional francesa.


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