Economia

VEM AÍ A CATÁSTROFE DO
COMÉRCIO ELETRÔNICO

DANIEL LIMA - 14/04/2026

Anotem ou guardem este texto porque este texto tem tudo a ver com o futuro do Grande ABC que sempre chega em forma de presente frustrante. Pela primeira vez em 36 anos de dedicação total à regionalidade nos mais diferentes temas vou fazer um alerta nada metafísico, porque é puramente lógico: nossa Economia segue cada vez mais para o brejo da desindustrialização e  -- agora vem o ineditismo --  se não dermos um jeito de agir com rapidez, teremos um terremoto também e ainda maior no setor de comércio, com influência direta nas áreas de serviços. Economia são vasos comunicantes.

Não dá para salvar a pátria de um organismo em metástase há muito tempo. Se fizermos tudo certinho,  o resultado necessariamente não será redentor, mas possivelmente será menos acachapante. O mundo dos negócios está virando de cabeça para baixo.

Sugeri de passagem ainda outro dia que o Grande ABC deveria assumir de vez a viuvez ou a relativa viuvez do setor industrial, que representa apenas 25% do PIB Regional (era o dobro na virada do século) e partisse para o setor de comércio e serviços de tecnologia minimamente avançada para evitar novos fluxos de quebra da mobilidade social.

PERDER DE POUCO

Isso mesmo: temos que nos organizar para perder de pouco porque perder vamos perder. Sempre em comparação aos concorrentes mais preparados do Estado, e também à média estadual e à média nacional. Como estamos perdendo feio há 30 anos, com espasmos de vitórias insustentáveis.

É evidente que não se deve abandonar jamais ou entregar os pontos à desindustrialização,  porque ai seria o fim da picada. Mas também é o fim da picada enganar o distinto público e afirmar que vamos dar um jeito na estrutura industrial a ponto de recuperar as forças, como disse ainda ontem dia um dirigente da classe empresarial de São Bernardo com o propósito propagandista de marqueteiros políticos que infestam a região.

Em sã consciência, exceto se algo extraordinário e completamente fora dos radares do bom-senso, do conhecimento macroeconômico, da sabedoria estratégica, de tudo que for selecionado para que se formule uma resposta consistente, o diagnóstico é de que a desindustrialização é uma causa perdida. Tanto que contamos com apenas duas correias de transmissão de sustentação, as cadeias produtivas do setor automotivo e do setor petroquímico, nossas Doenças Holandesas, a primeira terrivelmente disputada pelos chineses e a segunda cada vez mais impactada também pelos chineses. Aliás, os chineses estão em todos os lugares.

INCURSÃO DEVORADORA

Mas é mesmo o comércio eletrônico, especialmente a capilarização no formato de última milha, que aproxima cada vez mais as grandes plataformas  dos consumidores de regiões metropolitanas. Essa incursão devoradora vai colocar o empreendedorismo físico de pequeno e médio porte a nocaute. E com isso, a precarização ainda mais intensa do mercado de trabalho, coalhado de MEIs que, em larga escala,  não passam de desempregados de fato. Haja Bolsa Família para segurar as pontas.

Prefeitos festejam a construção e a ocupação de centros logísticos com galpões tecnologicamente estonteantes. Provavelmente não colherão os frutos amargos do futuro que chegará e não vai demorar. Exceto no caso de prefeitos que se reelegerem algumas vezes, já que quase todos entre os atuais do Clube dos Prefeitos são jovens para muitas fornadas eleitorais.

O comércio eletrônico já começou a fazer um estrago monumental nas metrópoles, mas será ainda muito mais destrutivo na medida em que as grandes plataformas  ganham capilaridade. Terrenos e galpões industriais abandonados na Região Metropolitana de São Paulo escasseiam a essa modalidade de negócios movidos por investimentos robustos.

CONSUMIDOR PRAGMÁTICO

Os consumidores estão cada vez mais pragmáticos. As lojas convencionais e também imóveis de localização estratégica estão virando minicentros distribuidores de produtos armazenados, carimbados, organizados e  despachados em veículos leves e de acessibilidade fácil.

Vou dar um exemplo e muitos outros poderia dar e que provavelmente parecerá óbvio diante da magnitude das mudanças de consumidores. Minhas cachorras não precisam mais que me desloque até um pet shop para adquirir determinadas rações   porque um aplicativo me coloca no balcão tecnológico da plataforma de comércio eletrônico. Mais que isso: o preço é inferior, e muitas vezes muito inferior, ao comercializado pelo pet shop.  E a rapidez de entrega é estonteante.

Estou procurando ser o mais simples e didático possível para me fazer entender inclusive por leitores eventualmente menos familiarizados com o comércio eletrônico e suas camadas de transformações. Já imaginaram os leitores quanto a quebra da cadeia de intermediários entre o fabricante,  distribuidor,  lojista e consumidor significará como remelexo geral na sociedade como um todo?

ÁREAS ABANDONADAS

O mercado imobiliário será duramente impactado. Aliás, já está sendo bastante impactado. As áreas de comércio  tradicionalmente mais disputadas na Capital, por exemplo, estão cada vez mais desertas. E o que dizer dos centros comerciais da região, entregues às baratas primeiro com a quebra do poder de consumo provocada pela desindustrialização, e agora,  golpeados pelos negócios eletrônicos de entrega rápida?

O empreendedorismo familiar, que sofre com a concorrência de maior porte, muito mais apetrechada, já virou pó. Vivemos uma sobrecarga da crise econômica dos anos 1990 e que se aprofundou neste século. Os nichos de ricos e classe média típicos do  Bairro Jardim em Santo André não podem e nem devem ser traduzidos como prosperidade municipal. São exatamente isso – nichos de uma parcela da sociedade que construiu riqueza nos períodos de vacas gordas. Muitos dos frequentadores desses nichos já perderam muito do poder de consumo, mas resistem o quanto podem para frequentar supostos semelhantes econômicos.

Como já revelamos em diferentes estudos e análises, o cenário mudou completamente. O índice de famílias de classe rica e classe média tradicional representa cada vez menos o conjunto da população em Santo André e no Grande ABC como um todo.

METRÓPOLES ENSANDECIDAS

A perspectiva de que regiões metropolitanas vão sofrer profundas mudanças econômicas e sociais não é a uma alucinação pessimista. É a pura realidade já colocada em diferentes praças mundiais. Olhar para a China, especificamente para Pequim, deveria fazer parte da lição diária não só dos prefeitos de plantão, mas rigorosamente dos demais agentes públicos e privados que supostamente poderiam detectar algumas saídas que agora parecem improváveis. O monstro do comércio eletrônico está se movimentando ainda com certo vagar ante a pressão que exercerá cada vez mais e em ritmo incontrolável.

Não sobrará pedra sobre pedra no comércio da região com a avalanche que está chegando. E os trabalhadores precários, que cruzam ruas e avenidas de áreas metropolitanas, serão cada vez mais requisitados.

Não é de hoje que escrevo sobre a ilusão dos centros logísticos festejados como sinônimo de desenvolvimento econômico. Bobagem pura. Na combinação de ganhos e perdas, o rapa-geral nos pequenos negócios de comércio e de serviços combinado com o desemprego no ecossistema, a conta não fecha como sinônimo de prosperidade social. Longe disso. Enfrentar o monstro da modernidade é uma façanha e tanto. E se torna ainda mais desafiador quando o que está mais sacramentado como desequilíbrio socioeconômico não encontra sequer medidas preventivas para mitigar os danos. 

REPORTAGEM DA FOLHA 

Leiam a integra da reportagem publicada na Folha de S. Paulo  de 3 de abril último, sob o título “Entregador chinês narra exaustão física e emocional do trabalho em delivery”, com assinatura de Victoria Damasceno, correspondente do jornal na Asia e baseada em Pequim. Esse texto reforçou minha preocupação que não é de hoje sobre o impacto do comércio eletrônico na sociedade. 

Fenômeno internacional da literatura contemporânea chinesa, Hu Anyan apresenta um relato sincero e bem-humorado sobre a realidade do trabalhador no século XXI. Quando um amigo sugeriu que Hu Anyan escrevesse sobre as suas experiências em empregos informais ou pouco especializados em diversas cidades da China, ele achou que a tarefa estaria em melhores mãos se fosse conduzida por um jornalista. Mas esse livro é a prova de que a visão de um observador externo jamais seria tão sensível quanto a de um trabalhador que vivenciou aquela rotina por tantos anos.

Noites tão quentes que era possível beber três litros de água sem precisar ir ao banheiro; dias buscando apartamentos com climatização adequada; tarefas repetitivas que comprometiam a saúde das unhas das mãos; poucos momentos de descanso, ocupados por cálculos de qual seria a quantidade ideal de álcool necessária para fazer a pessoa dormir sem acordar de ressaca no dia seguinte.

Ao retratar suas impressões, o autor desenha com riqueza de detalhes a imagem de uma geração ­― de uma classe ― desiludida com a precarização do mercado de trabalho, a pressão social e a busca por sentido sem cair na armadilha da autopiedade, encontrando profundidade no cotidiano em meio a uma rotina de exploração e dificuldades financeiras enquanto busca não perder a sua identidade.

De empresas de logística em Xangai a entrega de encomendas em Pequim, passando por trabalhos administrativos diversos em shoppings, pequenos comércios e empresas de comunicação, Hu procurou saídas sempre que se via preso a um emprego sem perspectivas, voltando-se para a literatura e a escrita sempre que precisava de força e companhia.  Faço entregas em Pequim traz uma perspectiva marginal, única, direta e surpreendentemente bem-humorada para compreender a vida de um trabalhador do século XXI.

Viver em Pequim significa escorar-se em entregas. A sensação é que qualquer produto pode ser entregue, seja uma refeição pronta, seja uma roupa, seja um scooter (sim, a moto). Assim, circular pela cidade também exige atenção, uma vez que os entregadores com seus capacetes amarelos, azuis ou laranjas, seguindo a cor da plataforma à qual pertencem, dominam o trânsito.

Não à toa, mercados físicos mal sobrevivem, e a cidade tem a fama de abrigar comércios que abrem e fecham em questão de poucos meses.

É nesse contexto que Hu Anyan escreve seu primeiro livro, um compilado das memórias que acumulou em trabalhos precarizados no país, em especial como entregador de plataformas online.

Em "Faço Entregas em Pequim - Memórias de um Trabalhador", lançado no Brasil pela Record, o autor detalha rotinas extenuantes de mais de 70 horas semanais batendo nas portas dos clientes, lidando com os poucos benefícios sociais oferecidos pelos empregadores, o pagamento que mal cobria as contas e a falta de descanso adequado.

"O tipo de pessoa que eu era dependia mais do ambiente em que eu estava do que da minha natureza. Na verdade, já naquela época eu percebia que a situação no trabalho estava me transformando aos poucos. Eu ficava mais impaciente, mais irritado, menos responsável", escreve Hu.

O livro, que retrata a realidade de quem atua na engrenagem do gigante comércio eletrônico chinês, nasceu de um blog criado por Hu durante a pandemia para registrar seu cotidiano. O que ele não esperava é que o projeto se tornaria viral e, mais tarde, suas histórias seriam publicadas como um livro que viraria best-seller na China.

De um lado, argumentam que a voz de Hu expõe com simplicidade a realidade de muitos tipos de trabalho. De outro, que o autor traz um relato pessoal que evidencia as dinâmicas dos empregos precarizados a que muitos ainda são submetidos.

Hu, porém, não refletiu longamente sobre a tensão entre trabalho, desigualdade e mobilidade social quando decidiu compartilhar suas memórias.

"Só depois da publicação, quando comecei a ser questionado sobre isso, passei a refletir mais sobre o tema. Pessoalmente, vejo o livro como um memorial centrado nas minhas experiências profissionais. Talvez algo entre autobiografia e documentário social", diz à Folha.

O autor expõe que teve de aguentar dias de trabalho não remunerado para, talvez, conseguir uma colocação em uma empresa de entregas. Mostra que parar para comer ou ir ao banheiro dependia de um cálculo sobre quanto dinheiro seria perdido com aquela pausa.

Revela detalhes que muitas vezes escapam a quem utiliza esse tipo de serviço —como o fato de que os entregadores arcam com os prejuízos em grande parte das ocorrências. Um desses casos lhe rendeu uma perda de 1.000 yuans (cerca de R$ 750).

"Por exemplo, como meu minuto valia meio yuan, ir ao banheiro me custava 1 yuan, mesmo que o sanitário público fosse de graça, porque eu gastava dois minutos. Almoçar levava 20 minutos —metade deles só esperando a comida ficar pronta—, ou seja, 10 yuans. Se um prato feito custasse 15 yuans, o custo total do meu almoço seria 25 yuans, um luxo que eu não podia me dar", escreve.

Hu conta que, ao publicar a obra, ficou surpreso com o desconhecimento dos clientes sobre o nível de automação da indústria da qual são consumidores. Muitos acreditam, diz ele, que o trabalho desempenhado nas madrugadas por trabalhadores braçais já seja feito por máquinas.

"Alguns leitores ficaram chocados ao descobrir que eu trabalhava no turno da noite separando encomendas em uma empresa de logística. Eles não sabiam que esse tipo de trabalho físico pesado ainda existe nas operações logísticas modernas."

O autor opta por não identificar parte das empresas onde trabalhou, citando apenas algumas participantes do mercado. As mais conhecidas de delivery, como a Meituan —dona do braço brasileiro Keeta—, acabam ficando em segundo plano, já que sua experiência se resume à entrega de produtos comprados por outras plataformas.

A obra não se limita, porém, ao período em que Hu atuou como entregador. O chinês reúne relatos pessoais de 19 empregos em diferentes localidades.

Além de Pequim, apresenta ao leitor passagens em que trabalhou em Xangai como faz-tudo em uma loja de conveniências ou auxiliando na venda de bicicletas. O registro pessoal se mantém ao longo de todo o texto, evidenciando que, apesar das diferenças entre as colocações, a exaustão física e emocional e a baixa remuneração são, quase sempre, o denominador comum.



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