Está confirmado o que publicamos em sete de julho do ano passado: o projeto Cidade Pirelli está morto e enterrado. Será substituído pelo Brookfield Plaza. Quem perde mais é o prefeito Aidan Ravin, que tentou pegar carona eleitoral na grife deixada por Celso Daniel mas acabou derrotado pela lógica empresarial do grupo que comprou parte das áreas destinadas ao maior fracasso empreendedor nos últimos tempos na República do Grande ABC. Utilizar o nome de Cidade Pirelli seria usurpação. Embora morta e enterrada, Cidade Pirelli é um escândalo que o Ministério Público não pode deixar barato.
O que os leitores desta revista digital possivelmente não entenderam mas vão entender é a razão deste jornalista afirmar ontem que o Diário do Grande ABC se omitiu quanto aos aspectos que configuram o que chamaria de prevaricação de administradores públicos. Anunciar a construção do primeiro bloco do Brookfield Century Plaza, como está batizado o empreendimento da Construtora Brookfield, é quase nada. A Cidade Pirelli deixa um rastro de irregularidades que não pode ser simplesmente esquecido.
Uma caçapa bem cantada
Foi em julho do ano passado que produzimos sob o título "Má notícia para Aidan Ravin: Cidade Pirelli está enterrada", um texto exclusivo que definia o desfecho que somente agora, em manchete principal de primeira página, e mesmo assim com desvios informativos, o Diário do Grande ABC publicou. Escrevemos naquela oportunidade que a Cidade Pirelli planejada pelo então prefeito Celso Daniel não seria recriada mesmo que em proporções menores pelo prefeito Aidan Ravin.
O ponto central do simbolismo da revitalização econômica de Santo André não teria, como anunciamos, o aval da Construtora e Incorporadora Brookfield. O investimento de mais de R$ 200 milhões programado para a Vila Homero Thon, em parte dos terrenos da multinacional reservados para a Cidade Pirelli, seria um empreendimento autônomo, sem qualquer ligação com o projeto aprovado há mais de uma década -- escrevi naquela oportunidade, depois de ouvir o executivo José de Albuquerque, diretor da empresa, na Capital.
Nada disso (e muito mais) do que escrevi em julho do ano passado foi transmitido na edição de ontem do Diário do Grande ABC aos leitores. Tudo, evidentemente, para desviar a atenção do foco de irregularidades e concentrar-se na grandiloquência do anúncio de que Santo André terá um novo shopping no ano que vem.
Poderia ter escrito o Diário do Grande ABC o que revelei há quase um ano. Escrevi naquela oportunidade que o comando da Brookfield decidiu tomar a iniciativa de separar o investimento projetado para os 45 mil metros quadrados que adquiriu da multinacional italiana do conjunto da obra da Cidade Pirelli, que envolve área três vezes maior. A Brookfield não queria e não quer ser enredada por armadilhas legais que tumultuam o legado do empreendimento idealizado por Celso Daniel. A Cidade Pirelli é um novelo muito complicado para quem quer apenas construir um novo empreendimento com potencial para alterar positivamente imensa área populacional de Santo André.
Sempre retomando aquele artigo, a Brookfield jamais se utilizou mesmo que informalmente da expressão "Cidade Pirelli", segundo garantiu José de Albuquerque. A vinculação do empreendimento à obra imaginada e preparada por Celso Daniel partiu do Paço de Santo André. A embalagem de Cidade Pirelli, de forte apelo político-eleitoral, não era pauta de avaliações da construtora.
Uma parte dos terrenos
A compra da área por R$ 50 milhões não previa qualquer relação com a Cidade Pirelli formatada no final dos anos 1990 e cujos rescaldos de irregularidades seguem inexplorados. O negócio foi pautado, segundo o executivo, por regras do mercado. Por isso o projeto não teria de ser submetido a instâncias legislativas. Seguiria trâmite comum da burocracia pública como qualquer outro empreendimento do setor imobiliário. Ao desvincular as três áreas adquiridas da multinacional italiana do destino original de quase 170 mil metros quadrados do espaço reservado há mais de uma década para a Cidade Pirelli, a direção da Brookfield agiu com a praticidade de quem quer apenas agregar valores econômicos e sociais aos empreendimentos.
O anúncio da primeira etapa de obras do Brookfield Century Plaza nas páginas do Diário do Grande ABC de ontem limitou-se aos aspectos econômicos do empreendimento, apenas a isso. Daí minha decisão de levar aos leitores a realidade abrangente dos fatos. A Brookfield vai cumprir sua parte em termos de reciprocidade porque, para construir o BCP, despenderá cerca de R$ 7 milhões como contrapartida para minimizar impactos principalmente no sistema viário.
Secretário omisso
Uma série de perguntas que CapitalSocial enviou recentemente ao secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação, titular do Conselho Municipal de Políticas Urbanas e, sintomaticamente, ex-executivo da Pirelli, Frederico Muraro Filho, não foi respondida. E provavelmente nem será, porque Muraro não tem respostas convincentes. Até porque deveria manifestar-se impedido de participar de qualquer iniciativa que culminasse na apreciação de projeto que ocupasse a área da projetada e fracassada Cidade Pirelli. Quem trabalhou como ele por mais de 30 anos na Pirelli é mais que suspeito de praticar desvios quando está em jogo dinheiro público.
A herança deixada pelo projeto Cidade Pirelli é pesadíssima. Trata-se de um estorvo para o ex-prefeito petista de Santo André, João Avamileno, e também para Aidan Ravin. Os problemas mais graves do projeto Cidade Pirelli são as contrapartidas dos empreendedores privados, liderados pela multinacional italiana e jamais consumadas. Muito pelo contrário: o Viaduto Cassaquera, construído pela Administração João Avamileno, envolveu irregularmente recursos públicos superiores a R$ 50 milhões a preços atuais. Tudo isso está pretensamente destinado ao lixo da história ou o Ministério Público de Santo André, que recebeu denúncia de CapitalSocial, agirá para valer?
Respondendo mais amplamente à indagação do título deste texto, quem perde com o fim do projeto Cidade Pirelli são os contribuintes de Santo André e o prefeito Aidan Ravin, que viu desaparecer uma bandeira eleitoral ainda recentemente levantada por puro oportunismo, durante o período de homenagem aos 10 anos da morte do então prefeito petista. Quem ganha é o ex-prefeito João Avamileno e também o prefeito Aidan Ravin, a persistir o empurrar do espólio para o fundo de gavetas de esquecimentos. Ambos poderão livrar-se de crimes de responsabilidade por fecharem os olhos aos desdobramentos de irregularidades.
A Construtora e Incorporadora Brookfield consegue sair ilesa desse escândalo, porque está aí apenas e simplesmente para empreender, dentro das regras do jogo, inclusive contribuindo com sua parte na operação urbana que sustenta a legalidade do Brookfield Plaza. Diferentemente, portanto, de ocupantes de terrenos originalmente reservados ao projeto Cidade Pirelli.
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