Administração Pública

Luiz Marinho ainda está longe
de Marinho Daniel. Reagirá?

DANIEL LIMA - 23/04/2012

Quarenta meses após tomar posse o prefeito Luiz Marinho frustra a expectativa de quem o imaginava capaz de reintroduzir a agenda de integração da Província do Grande ABC iniciada por Celso Daniel. O Marinho Daniel sonhado ainda está distante, muito distante. Entretanto, deixa um saldo positivo parcial de investimentos sociais já consolidados e muitos a consolidar em São Bernardo.
 
Pode
parecer exagero tentar elevar Luiz Marinho ao altar de governança regional deixado por Celso Daniel, mas essa era a projeção para que o petista que sonha com o Palácio dos Bandeirantes se diferenciasse do lugar-comum dos administradores públicos na região. Talvez Marinho consiga avançar algumas casas nesse tabuleiro de desafios num eventual segundo mandato.
 
O ex-ministro do Trabalho e da Previdência Social do governo Lula da Silva poderia ter colocado como prioridade a reconstrução da regionalidade interrompida mesmo antes da morte de Celso Daniel, em janeiro de 2002. Também poderia ter assumido o comando de reavaliação e reestruturação da cadeia produtiva do setor automotivo na região. Afinal, exerce a presidência do Grupo Automotivo do Clube dos Prefeitos.
 
Questões fundamentais para a manutenção do equilíbrio social e econômico da região, que passam obrigatoriamente pelo setor automotivo, não estão na pauta de Luiz Marinho. Pelo menos com foco e intensidade compatíveis com os problemas. Talvez o prefeito veja no setor automotivo um vespeiro em vez de bandeira a ser empunhada para valer. O passado de presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, que o tornou tão próximo das montadoras e autopeças, facilitaria o agendamento de medidas domésticas no interior de decisões estaduais e federais ditadas por pressões macroeconômicas.
 
Desalinho a corrigir
 
É justamente porque tem-se dedicado para valer às angústias sociais de São Bernardo, sobretudo nos transtornos provocados por uma infra-estrutura social em completo desalinho com a pujança econômica, que a Administração Luiz Marinho salva-se nesses 40 meses.
 
Atribuir à Administração petista uma nota sete de zero a 10 não é exagero mas também está longe da previsão mais otimista, que o colocava como principal liderança política e econômica da região. Marinho acabou por dividir o cetro político com o tucano William Dib, ex-prefeito de São Bernardo e incômodo articulador do PSDB na Província do Grande ABC. Já na economia, faltam atores.  A Província do Grande ABC é um deserto de institucionalidade econômica. As entidades que supostamente representariam os empreendedores são escritórios burocráticos e os administradores públicos sofrem na carne o infortúnio crônico da realidade prática: investimentos de porte em áreas produtivas relutam em ancorar na região.
 
A frustração é mesmo ter acreditado e até mesmo torcido para que Luiz Marinho reinventasse um Celso Daniel de que a Província do Grande ABC tanto necessita. E olha que, ao contrário do gerenciador público que seria o coordenador-geral da campanha de Lula da Silva à Presidência da República naquele 2002, Luiz Marinho conta com mais facilidades e oportunidades.
 
Celso Daniel foi prefeito em segundo e também em terceiro mandato incompleto quando o oposicionista Fernando Henrique Cardoso ocupava a Presidência da República e não escondia ojeriza aos metalúrgicos da Província. Santo André já era um Município economicamente decadente. Luiz Marinho conta com o embalo de 10 anos de petistas na presidência da República, o que pressupõe relativo controle da máquina pública. Tanto que grande parte dos recursos financeiros aplicados nas entranhas sociais de São Bernardo vêm de Brasília.
 
Encaixes imperfeitos
 
Marinho Daniel é, portanto, uma junção de nomes e de projeção administrativa com encaixes imperfeitos. O prefeito Luiz Marinho ainda não conseguiu enxergar a Província de São Bernardo além de seus próprios limites territoriais. Mesmo perdendo força, a Província do Grande ABC ainda não faz parte do roteiro de atuação do prefeito. A liderança econômica regional de São Bernardo, quarto maior PIB (Produto Interno Bruto) do Clube dos 20 Municípios mais Ricos do Estado de São Paulo, exceto a Capital, não é exercida de forma mais ampla e aguda. A gestão de Luiz Marinho conforma-se em fincar os pés sociais em São Bernardo. O imbricamento do setor automotivo em toda a região permitiria ações mais ousadas e necessárias.
 
Recluso a São Bernardo, não passa pela cabeça de Luiz Marinho assumir a presidência do Clube dos Prefeitos, cargo que Celso Daniel ocupou por três gestões para disseminar conceitos de integracionismo que viraram pó tanto quanto ele, depois de ser assassinado. Luiz Marinho mantém-se fiel à origem metalúrgica. É um trabalhador levado à Prefeitura e que se dedica como poucos na elaboração de projetos e no acompanhamento de obras. Celso Daniel era um intelectual com olhar além fronteiras regionais e nacionais.
 
Factóides econômicos
 
A Administração Luiz Marinho alimenta-se de factóides econômicos. Assessores açodados e triunfalistas de plantão fizeram vazar uma anedota levada à sério pela Imprensa sempre descuidada e acrítica: São Bernardo estaria preparando-se para sediar um terceiro aeroporto de grande porte na Região Metropolitana de São Paulo.
 
Tempos depois, bobagem desmascarada, o noticiário converteu-se em algo mais modesto e mesmo assim pouco provável: o aeroporto seria de pequeno porte, para embarques e desembarques de executivos e cargas. Para o primeiro, o modelo de grande porte, seriam necessários não menos que 15 milhões de metros quadrados -- uma réplica do espaço territorial de São Caetano. Não há flexibilidade na ocupação dos mananciais que suportaria tamanha sandice. Outros quesitos, que vão de modelagem financeira do investimento à competitividade saudável numa área que passará por reestruturação dos aeroportos já instalados, também têm peso preponderante. Para o aeroporto menor, uns dois ou três milhões de metros quadrados de desmatamento já seriam insuportavelmente calamitosos ao meio ambiente de uma área degradadíssima.
 
A Administração Luiz Marinho desfralda uma bandeira factível mas de demorada execução: um cluster voltado à indústria de defesa. O planejamento depende de série de restrições e articulações, inclusive internacionais. Já a carona que se pretende pegar do Pré-sal, que tem a vizinha Bacia de Santos como palco de grandes investimentos, ainda não saiu do papel. Está-se numa fase de prospecção de eventuais empreendimentos locais que se adaptariam ao ramal industrial e de prestação de serviços.
 
Também o Parque Tecnológico não passa de proposta. Há muito tempo lançam-se informações sem respaldo prático. A São Bernardo econômica caminha a passos de tartaruga. Bem diferente da São Bernardo social. A opção preferencial da Administração Luiz Marinho está no estudadíssimo mote das campanhas publicitárias que alcançam o horário nobre da TV: "Governo da Inclusão". O ideal seria "Governo da Inclusão Social e Econômica".
 
Incluindo de verdade
 
De qualquer maneira, "Governo da Inclusão" não é propaganda enganosa. A Administração Luiz Marinho está carregadíssima de razão. Por trás do orçamento milionário de quase R$ 4 bilhões desta temporada há  enxurrada de problemas de saneamento básico, habitação, saúde, educação, mobilidade urbana, entre outros. Talvez o que não tenham explicado a Luiz Marinho é que a marca de fazedor de obras dá votos sim, ajuda a construir uma carreira política, leva-o a dormir relativamente bem com seu travesseiro, mas os grandes gestores públicos só se cristalizam com desenvolvimento sustentado, do qual a vertente econômica é parte essencial.
 
Assim como um País não vive apenas de consumo, porque chegará o dia em que o PIB começará a ratear sob o peso de pressões inflacionárias ditadas por movimentos de peças da globalização, um Município precisa do respiradouro de investimentos privados. São Bernardo mantém por conta do poderio econômico construído durante décadas. Não tem novas e resistentes plataformas de embarque.
 
O setor automotivo é um filão de ouro que tende a se esgotar, após sofrer dolorosa dieta com a guerra fiscal e a descentralização produtiva no País. O mundo gira numa velocidade muito maior do que são capazes de interpretar os triunfalistas. A roda da fortuna de investimentos industriais deixa rastros de desalento.  A literatura econômica mundial é vasta em advertências. Fortalezas que desandaram não são miragens. Detroit, nos Estados Unidos, é um caso emblemático. A dependência de uma determinada atividade econômica -- alertam os especialistas -- é o caminho mais curto à porta do inferno de potencialidade à depauperação social.
 
A Administração Luiz Marinho repete com gravidade maior, porque o potencial é muito mais gigantesco, o que é lugar comum na região: falta de apetite para tornar o planejamento econômico um dos vértices de prioridades. Enquanto uma força-tarefa não for acoplada, pouco se deverá esperar pra fugir da dependência automotiva. O organograma da Secretaria de Desenvolvimento Econômico precisa ganhar prioridade com profissionais que enxerguem São Bernardo como uma grande agência de negócios. Nada que não seja comum em dezenas de municípios paulistas que saíram à caça de empresas insatisfeitas em outras localidades. Principalmente na Região Metropolitana de São Paulo.
 
Celso Daniel dirigiu Santo André durante nove anos. Nos primeiros quatro, entre 1989 e 1992, ainda submetido ao cabresto doutrinário do PT, cometeu muitos erros. Nos últimos cinco anos, de janeiro de 1997 a janeiro de 2022, provou amadurecimento e visionarismo ao adotar políticas públicas mais tarde metamorfoseadas pelo governo Lula da Silva. No campo econômico deixou as sementes do Eixo Tamanduatehy, com várias obras, e uma Cidade Pirelli que os sucessores, o petista João Avamileno e o petebista Aidan Ravin, transformaram em grande farra de incompetência.
 
Automotivo desgarrado
 
O que deixará Luiz Marinho no campo econômico depois de eventual segundo mandato, já que no primeiro é impossível uma grande reviravolta? O setor automotivo segue desgarrado da influência da Prefeitura, como o foi nas administrações anteriores. E não há nada mais importante do que reagir organizadamente nesse período de produção abalada por  importações favorecidas principalmente pelo câmbio.
 
Talvez a Administração Luiz Marinho ainda não se tenha dado conta da grandeza que lhe reservaria a história da região se já tivessem sido fixadas as estacas de uma nova ordem econômica, dentro dos limites naturais que o cargo lhe reserva num contexto macroeconômico cada vez mais diluidor de forças regionais.
 
Talvez Luiz Marinho pudesse abrir espaço na agenda aos buracos econômicos da Província do Grande ABC. Bastaria acrescentar a Economia no centralismo das questões sociais e também das articulações político-partidárias que vão muito além da geografia regional, porque o sonho de ser governador não é uma abstração, mas um projeto latente. Possivelmente Luiz Marinho chegaria à conclusão que ao imprimir ações econômicas que gerassem resultados no curto, no médio e também no longo prazo, ganharia visibilidade suficiente para tornar também mais resplandecentes incursões sociais e políticas.
 
Leia mais, para entender melhor:
 
Celso Daniel assume controle de desenvolvimento econômico
 
População é que decidirá destino
 
Não mais que uma província metida a besta
 
Marinho Daniel (1)
 
Marinho Daniel (2)
 
Marinho Daniel (3)
 
Marinho Daniel (4)
 
Marinho Daniel (5)
 
Marinho Daniel (6)
 
Marinho Daniel (7)



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