Esportes

Estaria o São Caetano substituindo
Gandhi por Che Guevara? Vamos ver

DANIEL LIMA - 28/05/2012

É uma tremenda bobagem acreditar e, mais que isso, interpretar que o São Caetano demitiu o técnico Márcio Araújo após apenas dois jogos na Série B do Campeonato Brasileiro. A referência é outra: Márcio Araújo dirigiu o São Caetano em 36 jogos, somou 43,52% dos pontos (47 pontos em 108 disputados), ajudou a salvar o time da Série C do Brasileiro no ano passado, ganhou um bônus para comandar o grupo na Série A do Campeonato Paulista desta temporada mas desperdiçou a oportunidade e a paciência de quem cobra melhores resultados. O São Caetano agora de Sérgio Guedes deve ser um time mais competitivo. Estaria mais para Ernesto Che Guevara do que para Mahatma Gandhi. Caso contrário, flertará mais uma vez com o rebaixamento.
 
É natural que haja lamentos pela demissão de Márcio Araújo. Esse ex-médio volante do São Paulo que chegou a deixar Falcão no banco de reservas por razões apenas circunstanciais é um profissional de fino trato. Amável, educado, resgata com oratória de pastor as condições de harmonia que eventualmente se perdem num grupo tão complexo como o de jogadores de futebol. Foi assim que, mesmo fora do mercado da bola havia nove meses, Márcio Araújo deu bons resultados no São Caetano na Série B do Brasileiro do ano passado.
 
Quando Márcio Araújo chegou o São Caetano estava em 18° lugar na classificação da Série B do Brasileiro, após 23 rodadas. Um índice de produtividade comprometedor de apenas 34,78%. Quando a Série B terminou, 15 rodadas depois, o São Caetano escapou do rebaixamento na rodada final com 48 pontos, um apenas acima do Icasa, o primeiro da linha de corte de descenso.



Números bem discretos
 
Com Márcio Araújo o São Caetano ganhou 53,33 dos pontos disputados naquele campeonato. Mas mesmo assim precisou de uma vitória improvável na penúltima rodada, contra o Vitória no lotadíssimo Barradão, para depender das próprias forças na rodada final, em casa, ante o Criciúma desfalcado e desmotivado, quando venceu por 1 a 0.
 
Já na Série A do Campeonato Paulista deste ano os resultados gerais foram decepcionantes. Principalmente porque a direção do São Caetano confiou nos reforços listados por Márcio Araújo. Diferentemente do que o treinador propagou à Imprensa, foi ele mesmo quem apontou os jogadores que solucionariam eventuais buracos individuais e coletivos do grupo. Não foi o que se viu. Tanto que o São Caetano terminou o Estadual mais uma vez longe da zona de classificação aos mata-matas. Mais precisamente em 12° lugar com 24 pontos, 24 gols a favor e 25 contra.
 
Não fosse uma muito mais que improvável vitória na penúltima rodada ante um Santos pouco motivado no Estádio Anacleto Campanella, mais uma vez a equipe jogaria para não cair na última rodada, em Guaratinguetá. O índice de aproveitamento de 42,10% ao final de 19 jogos e as duas derrotadas recentes na Série B do Brasileiro rebaixaram para 43,52% o resultado final dos 36 jogos de Márcio Araújo no comando do São Caetano. Uma longevidade surpreendente ante a média dos antecessores mais recentes, de 19 jogos.
 
Sem sequência
 
Se há algo de que não pode reclamar Márcio Araújo é de ter sido a diretoria do São Caetano impaciente. Num retrospecto rápido, o time de Márcio Araújo não conseguiu uma sequência sequer de três jogos de rendimento satisfatório, independentemente dos resultados. Com o comando sempre morno do treinador, o São Caetano não engrenou jamais um sistema defensivo compacto nem tampouco um sistema ofensivo que inquietasse os adversários. O São Caetano de Márcio Araújo era o retrato de Mário Araújo: calmo, tranquilo, contemplador, de baixo volume de jogo, de baixa intensidade. De vez em quando saltava a patamar mais agressivo, mais apropriado à disputa de três pontos. Mas só de vez em quando.
 
A
herança que Sérgio Guedes recebe de Márcio Araújo é mais que um conjunto de detalhes, como declarou o novo comandante do grupo. O São Caetano precisa correr atrás de uma estrutura tática que reforce o sistema de defesa, com maior aplicação na marcação dos meias-atacantes e dos atacantes, e acelere a capacidade dos laterais e mesmo dos volantes no apoio ao ataque. É preciso sair de campo um time estanque, compartimentado, previsível, e entrar em campo um time insinuante, agressivo, que reduza e amplie os espaços com e sem a bola. Tudo que faltou ao longo da trajetória de Márcio Araújo.
 
Resta saber se Sérgio Guedes conseguirá decifrar os sinais e as individualidades para montar com os jogadores de que dispõe um time que tenha consistência. Há abundância de alternativas técnicas para a defesa, para o meio de campo e para o ataque. Só de centroavantes o São Caetano conta com três alternativas.

Todos na linha de autenticidade na função. Há volantes marcadores e meias articuladores aos montes. Não faltam laterais nem zagueiros de área. Tampouco um reserva experiente para o gol.
 
Márcio Araújo contou com duas intertemporadas para ajustar as peças, definir uma filosofia de jogo, mas não deu respostas positivas. Sérgio Guedes vai ter de consertar o avião em pleno voo. A fama de operador incansável, primeiro a chegar e último a sair dos treinamentos, deverá ser radicalizada porque o São Caetano precisa aprender a ser competitivo, depois de chegar ao topo do bom-mocismo de campeão da disciplina na última temporada paulista.
 
Chegou a hora de Che Guevara entrar em campo, sem perder a ternura, é claro. Mahatma Gandhi e futebol não combinam.



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