Administração Pública

Manual de competitividade para Luiz
Marinho disputar governo do Estado

DANIEL LIMA - 19/06/2012

A enquete que preparei para o Conselhão Regional decidir o que seria o futuro ideal de Luiz Marinho rumo ao governo do Estado com competitividade é na verdade um presente em forma de manual de Administração para o prefeito de São Bernardo e ex-ministro da Previdência e do Trabalho do governo Lula da Silva, seu padrinho e protetor. O prefeito Marinho deveria agradecer por isso, porque não lhe cobrei um tostão por esse favor. Até agora, quase quatro anos depois de eleito e cercado de alquimistas marquetológicos que não passam de palpiteiros infelizes, está muito distante do que se espera de alguém com pretensões tão elevadas. Exceto se Luiz Marinho pretender ser apenas mais um candidato a governador sem passado de lustro, como tantos outros;  inclusive, a maioria dos eleitos.
 
As 10 alternativas que compõem o material enviado ao Conselhão Regional só podem ser rotuladas assim, de alternativas, porque à definição dos pontos mais importantes se solicita a escolha de até cinco por individualidades que representam a classe média da Província do Grande ABC. Apenas por isso, nada mais, porque a totalidade da obra é que faria de Luiz Marinho candidato competitivo para valer -- e, sobretudo, respeitável.
 
Vamos fazer uma rápida análise sobre os 10 enunciados apenas para reforçar a linha de pensamento de que trata-se mesmo de um agrupamento de valores dos quais Luiz Marinho está a léguas de distância, depois, repito, de quatro anos de administração municipal.
 
O primeiro ponto versa sobre a conquista de uma vitória expressiva nas próximas eleições em São Bernardo, inclusive com a obtenção de maioria confortável no Legislativo. Quem considera esse vetor café pequeno não entende de gestão pública um tiquinho sequer. Ganhar bem, com larga vantagem, como William Dib ante Vicentinho Paulo da Silva em 2004, é algo praticamente impossível a Luiz Marinho neste 2012. O deputado estadual Alex Manente está no seu congote, com suporte do governo do Estado. Uma possível vitória de Luiz Marinho dificilmente lhe fornecerá maioria confortável no Legislativo. Os ataques verbais entre os dois candidatos nos últimos dias provam que a disputa está longe de ser fácil para o petista.
 
O segundo ponto trata da construção de uma liderança partidária regional de forma a consolidar alianças e evitar crises localizadas como em Mauá, onde o prefeito Oswaldo Dias sofreu um golpe de seus próprios companheiros de partido. Também a tarefa delegada a Luiz Marinho tem-se provado complicada. O prefeito petista concentra boa parte do tempo na gestão operária dos recursos orçamentários disponíveis, delega a terceiros pouco confiáveis e preparados a missão de diplomacia partidária e com isso perde as rédeas do poder regional. Mais que perder as rédeas, é desafiado abertamente. Como ficou claro o recado do vice-prefeito de Mauá, Paulo Eugênio Pereira. Ele disse, em bom tom, que ninguém de fora manda no Município.
 
O terceiro ponto trata de consolidar pelo menos um grande projeto econômico para São Bernardo, amenizando a excessiva dependência automotiva. Luiz Marinho já deixou o tempo escapar entre os dedos da falta de prioridades econômicas e não parece que o pré-sal saia do campo da baixa probabilidade para se converter em grande iniciativa com frutos saudáveis no curto prazo. Quem conhece a Petrobras sabe o quanto é morosa, tinhosa e outras coisas mais, para sonhar com democratização de oportunidades de novos parceiros. O aeroporto internacional ejaculado por fontes masturbatórias não passou de um gozo precoce e mal-ajambrado, entre outros motivos porque não existem condições multilaterais (espaço, recursos financeiros, condições ambientais, entre outros) que viabilizem a iniciativa. Talvez um aeroportozinho para vôos executivos seja a única saída, mesmo assim com riscos ambientais. Nada, entretanto, que mude o cheiro da brilhantina. Já a indústria de defesa segue no mesmo padrão do pré-sal: está mais para carta de intenções do que para realizações. O menos desastroso é Marinho não se descuidar da galinha dos ovos de ouro da indústria automotiva, já que a indústria de caminhões está à deriva.
 
O quarto ponto refere-se a Luiz Marinho dirigir o Clube dos Prefeitos e deixar como herança mais que um projeto de planejamento econômico e social, mas o encaminhamento de políticas resolutivas que finalmente coloquem a região num patamar de possibilidades integracionistas a salvo de solavancos político-partidários. Essa é uma missão praticamente desperdiçada a partir do momento em que Marinho decidiu meter os pés e a cabeça exclusivamente no território de São Bernardo. A construção da regionalidade da Província, iniciada e incrementada até onde foi possível por Celso Daniel, é um jogo praticamente perdido há muito tempo. Não será a atual geração da sociedade regional que pagará essa dívida que gerações antecessoras simplesmente desdenharam.
 
O quinto ponto trata de manter os laços que prendem Luiz Marinho ao ex-presidente Lula da Silva sem, entretanto, depender demasiadamente do padrinho. Aí é que está o grande problema estratégico-administrativo de Luiz Marinho. O prefeito de São Bernardo vive politicamente à sombra do padrinho, de um senhor padrinho. Uma situação ambígua: ao mesmo tempo que conta com proteção e embalo, enfrenta gargalos oposicionistas que o desafiam à inventividade da qual não parece portador, seguindo rigorosamente uma linha de ação previsível, como um operário de linha de produção.
 
O sexto ponto envolve a comprovação de iniciativas transparentes de que é um dirigente público livre da tutela sindical. Talvez a questão tenha o mesmo grau de cumplicidade, de contaminação, de interdependência, do espectro de Lula da Silva. Luiz Marinho e sindicalismo são indissociáveis porque se retroalimentam. A construção do chamado Museu do Trabalho e do Trabalhador, é prova disso. O capital, sem o qual não existe trabalho, foi simplesmente esquecido. É claro que não faltam petistas versáteis na arte da manipulação semântica a defender uma subjacente participação do empreendedorismo na iniciativa. Nada que possa ser levado a sério. A sindicalização do monumento está explícita, a manter o divisionismo entre capital e trabalho.
 
O sétimo ponto trata de priorizar ações e resultados que enfatizem a redução do custo da mobilidade urbana gerada pelo excesso de veículos nas ruas e pela desvairada ocupação espacial do mercado imobiliário. Talvez essa proposta não seja tão espetacularmente desafiadora ao gestor Luiz Marinho, mas muito mais terá de ser realizado do que o já aplicado e o já divulgado, porque a algazarra do mercado imobiliário exige uma ação vigorosa à contenção de exageros.
 
O oitavo ponto versa sobre a prestação deliberada a cada seis meses de eventual novo mandato das contas públicas sobre investimentos de São Bernardo em Saúde, Segurança Pública e Publicidade. É muito pouco provável que Luiz Marinho faça tamanha concessão à democracia da informação e do esclarecimento, porque são áreas beligerantes quando se colocam números monetários para balizá-las. Haveria constrangimentos insondáveis a envolver os participantes dos encontros.
 
O nono ponto do manual de competitividade de Luiz Marinho trata da promoção a cada 60 dias de uma entrevista coletiva com a Imprensa e representantes da sociedade para prestação de contas geral da Administração Municipal. Que ótima oportunidade para que a comunidade se inteirasse das ações do prefeito de São Bernardo, não é verdade? Mas como Marinho e a quase totalidade dos prefeitos não estão nem aí com essa modalidade de integração, só resta esperar que uma muito mais que improvável surpresa aconteça.
 
O décimo ponto trata de mobilização de esforços regionais para transformar as restrições à ocupação das áreas dos mananciais em compensações financeiras que seriam prioritariamente aplicadas naquelas mesmas áreas, reduzindo-se a degradação histórica. Fosse Luiz Marinho, prefeito do principal Município da região, um grande ponto de exclamação na Administração Pública nacional, esse projeto já estaria mais que engatilhado, estaria em plena execução. A Província do Grande ABC insiste em desdenhar dos mananciais e os custos sociais e econômicos se alargam a cada nova temporada.
 
Convenhamos que o que acabamos de apresentar de forma bastante sucinta é quase que um ensaio conceitual de programa de governo, muito mais valioso, acreditem, que aquelas dezenas de páginas que os candidatos costumam apresentar em riquíssimos impressos.
 
Por isso o Conselhão Regional, a quem entregamos a decisão de hierarquizar os valores dos enunciados, tem uma imensa responsabilidade de oferecer aos leitores em geral um consistente senso crítico que se cristalize nos respectivos pesos relativos gerais de cada ponto mencionado.
 
Confesso que teria dificuldades em optar por até cinco das 10 alternativas possíveis, mas o faria com o máximo de atenção porque o que serve para Luiz Marinho pode ser adaptado e servir também aos demais candidatos às prefeituras da Província. Mesmo à maioria que não tem pretensão ou possibilidade alguma de sonhar com o governo do Estado.


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