O PT e os partidos aliados fazem a chamada festa da vitória amanhã à noite no Clube Atlético Aramaçan. Nada contra comemorar uma vitória eleitoral. Muito pelo contrário. O que é bom tem mesmo de ser festejado. Mas não se vive apenas de celebrações. O ambiente que reina em Santo André é de inquietação. Deixa-se que a onda de boatos sobre a formação do secretariado do petista Carlos Grana ganhe configuração que, transposta ao campo esportivo, remeteria o grupo supostamente escolhido à Terceira Divisão. Só está faltando mais essa para Santo André meter-se em nova enrascada pós- Celso Daniel.
Tomara que tudo que estejam falando nos pontos mais conhecidos de Santo André, onde especulam a vida política, esportiva, social e, por que não, pessoal, não passe de associação de línguas de trapo e agourentos. Se for verdade o que tenho ouvido quase calado, prestando o máximo de atenção nos interlocutores, o embananamento da Administração Carlos Grana será total.
Especulações à parte, uma situação é clara e cristalina: o prefeito Luiz Marinho, comandante petista na Província do Grande ABC, protegido pelo ex-presidente Lula da Silva, apadrinhado pela ministra Miriam Belchior e dono do maior orçamento municipal da região, acumula o cargo de primeiro-ministro em Santo André. É claro que Luiz Marinho negará essa informação, que seu entorno vai desclassificar a revelação, mas o jogo está jogado. São Bernardo tem o poder de escolhas e de vetos do secretariado que estaria sendo montado para Santo André. Quem dá a bola petista na região é Luiz Marinho e está acabado.
Uma cota bem elástica
A cota de participação de Luiz Marinho na Administração Carlos Grana é elástica. E o jogo a ser jogado será vigoroso, porque ao lado do titular do governo de São Bernardo está sua mulher, Nilza Oliveira, que, todos sabem, não dá refresco. Muito próxima a Miriam Belchior, com quem atuou na Administração Celso Daniel, Nilza Oliveira é a extensão de mando de Luiz Marinho. O secretariado de Luiz Marinho sabe bem disso. Não faltaram casos de estremecimentos por conta do rigor com que a primeira dama atua.
É claro que Nilza Oliveira não vai estar de corpo e alma na Administração Carlos Grana. O fará através de representantes escolhidos a dedo. Carlos Grana será discretamente vigiado porque há petistas que o consideram exageradamente conciliador, sempre pronto a fazer concessões em detrimento da operacionalidade administrativa.
Se é certo, portanto, que a Administração Carlos Grana terá Luiz Marinho no cangote, os nomes dos secretários entram no terreno de especulações mesmo. Fala-se muito em escolhas e vetos determinados pela gestão Luiz Marinho e também por setores sindicais que, em Santo André, terão peso semelhante ao imposto em São Bernardo. Sim, o viés sindical da Administração Luiz Marinho é latente. A gestão do Município no sentido mais amplo passa pelo corredor polonês da aprovação sindical, sobretudo do Sindicado dos Metalúrgicos.
Governabilidade compartilhada
A governabilidade do PT na região está condicionada ao tratamento senão privilegiado pelo menos quase paritário com as forças sindicais. A diferença entre Santo André e São Bernardo é que no território das montadoras de veículos a animosidade entre capital e trabalho é mais ressaltada, embora nem chegue aos pés do passado de tantas conquistas e tantas complicações. Há certa harmonia principalmente entre o grande empresariado e o Partido dos Trabalhadores. Se é que me entendem. Haja vista, para ser mais direto, o relacionamento generoso entre as montadoras de veículos e o governo federal. Nos tempos de Fernando Henrique Cardoso o pau cantou. Agora, o rebaixamento de impostos lubrifica a engrenagem de consumo sobrerrodas. As autopeças desgarradas dos grandes conglomerados industriais que se danem.
A festa desta sexta-feira no Clube Atlético Aramaçan poderia, segundo observadores, marcar o anúncio de alguns nomes para ocupar o secretariado. Duvido, porque o ônus poderia ser maior que o bônus. Certo mesmo é que a área de Desenvolvimento Econômico, que já esteve sob possível influência da educadora Oswana Fameli, eleita vice-prefeita, conta com dois novos concorrentes bem mais apetrechados: Wilson Ambrósio da Silva, ex-executivo do Diário do Grande ABC durante o comando acionário das famílias Polesi-Dotto, e o empresário Mário César de Carvalho, da Gráfica Bandeirantes.
Sabe-se que esses nomes já foram colocados à mesa de decisões dos petistas entre outras razões porque Oswana Fameli seria uma barbeiragem e o PT não pode prescindir numa atividade vital à recuperação de Santo André de gente que entenda do riscado econômico. Até mesmo para jogar limpo e tratar questões relevantes sem brincadeiras estatísticas como a atual gestão. O empresariado certamente se somaria a um representante do setor que tenha lastro.
Certo mesmo é que a Administração Carlos Grana começou desde que ganhou a disputa nas urnas e de lá para cá o desempenho está aquém da expectativa. Quando eventuais mudanças e escolhas ficam restritas demais aos bastidores, tudo pode acontecer -- inclusive a difusão de versões não necessariamente verdadeiras e, portanto, alimentadoras de idiossincrasias que, gostem ou não, minam o terreno preparatório à posse oficial.
Afastamento estratégico
Talvez tenha faltado a Carlos Grana e a seus mais diretos colaboradores um pouco mais de cuidado para se afastarem do ambiente pós-eleitoral repleto de informações e contrainformações, organizando os próximos passos com planejamento que contemplasse funções, conceitos, prioridades e iniciativas dos primeiros convocados à tarefa de reestruturar um Município reconhecidamente empobrecido, desindustrializado e jogado às traças estratégicas. Ou seja, o time seria convocado em duas ou três etapas, sendo a primeira estruturalmente impactante para dar sustentação pública às demais.
Como parece haver mais gente para convocar do que gente a ser convocada, tanto se dividiu a coalizão que levou Carlos Grana à vitória, a impressão que se transmite é de que um bando de pernas de pau estaria pronto para entrar em campo. Convocar o time durante uma festa seria uma tremenda besteira, mas deixar que a festa seja apenas uma festa sem que se transmita com entusiasmo e firmeza uma mensagem de confiança seria uma tremenda vacilada. Que, portanto, o Aramaçan marque uma noite de esperança para Santo André.
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO