Neologismos derivados de Xangola não faltam no dicionário de quem conhece suficientemente a Administração Pública. Xangola é apêndice de estrutura de mando político-partidário. A origem remonta a Maurício Mindrisz, o Xangola monotemático de tricolinagem sempre avocada para compensar silêncios espertíssimos ou dissimulações mais que vantajosas. Xangola é um servidor público que deveria servir de case a quem pretende se dar bem. Mesmo ante eventuais borrascas, como a morte do prefeito Celso Daniel.
Maurício Xangola Mindrisz é presidente da Fundação do ABC, um conglomerado de administração de serviços de saúde dotado de orçamento milionário. É a única porção de regionalidade a dar certo na Província do Grande ABC. E se dá certo é melhor desconfiar. Num território em que as idiossincrasias municipalistas são norma de conduta, é melhor desconfiar sim de algo que se traduza em tradição de regionalismo.
Provavelmente há muito tempo prefeitos compartilhem tantas coisas, mas tantas coisas, que apenas uma investigação detalhadíssima poderia revelar. Indícios não faltam. Mas como a sociedade regional tem o péssimo passado, o sofrível presente e certamente o negligente futuro de nada questionar, ou de fingir que questiona, nada emerge à superfície que possa criar embaraços à suposta eficiência do dinheiro público direcionado à Fundação do ABC.
Quem vai colocar o guizo da responsabilidade coletiva no pescoço do gato das artimanhas que se consolidaram na Fundação do ABC de mais de R$ 1 bilhão de orçamento anual?
Mulheres poderosas
Maurício Xangola Mindrisz foi colocado à frente da FUABC por duas mulheres petistas poderosas. Uma, Miriam Belchior, velha companheira de Xangola, ex-supersecretária de Celso Daniel, virou ministra de Estado. Seu terreiro é principalmente o PAC, o tal Plano de Aceleração do Crescimento, que ganhou corruptelas depreciativas por conta de escândalos na aplicação de recursos fartos e cronogramas jamais cumpridos.
A outra mulher de Xangola é a supersecretária de São Bernardo, a primeira dama Nilza de Oliveira. Que também trabalhou como assessora de Celso Daniel e formou dupla do barulho com Miriam Belchior. Xangola as conheceu de perto profissionalmente naquele ambiente. Eles se conhecem há muitos carnavais, portanto. Quem sonhar em fazer carreira de servidor público a frequentar o topo do organograma não pode desconsiderar amizades que prometem alta rentabilidade.
Há uma dicotomia entre as mulheres tutoras de Xangola e o comportamento público de Xangola. Miriam e Nilza são autoritárias, decididas, explosivas, impetuosas. Xangola é calmo, tranquilo, mobilizador de bastidores e colecionador de segredos pessoais e profissionais. Tem por costume fechar o bicho sobre segredos pessoais. Mas repassa segredos profissionais sempre em condições vantajosas. Xangola é o burocrata que todo mandachuva público gostaria de ter.
Está sempre próximo nas horas difíceis para acalmar os ânimos. Essa é uma característica de ouro para fazer carreira na Administração Pública, porque o ambiente de quem corre contra o relógio de mandatos que se esgotam nem sempre é civilizado e muito menos ético. O tempo de gestão está para a Administração Pública como a lucratividade ao setor privado. Mas Xangola tem outras características.
Primeiro, tem facilidade motora e cognitiva impressionante para dobrar-se aos que lhe determinam ordens. Não costuma contestar determinações. Tem paciência para agir nos bastidores em busca de espaço próprio. Mas como não reúne muito talento didático, seu poder de convencimento é restrito ao potencial hierárquico, o que o torna vulnerável. Não atrapalhar já é um predicado e tanto nos bastidores públicos. Para Xangola, isso não exige esforço algum.
Segundo, é suficientemente frio e calculista para suportar desgastes. Não reage a eventuais estilingadas verbais que principalmente as duas mulheres poderosas costumam distribuir. Quem lhe estiver próximo é invariavelmente o alvo de desforras, sempre com sutileza, sempre com clareza de quarto escuro, porque xangolismo de verdade é algo que transcende qualquer resquício de transparência aos subordinados ou adversários. Xangola não abre mão de xangolapatria petista.
Terceiro, faz-se de desentendido e de bom moço para cortar caminho em hostes alheias e obter informações úteis tanto a ele quanto ao PT, seu evangelho partidário. Quando os adversários se dão conta de que Xangola só tem cara de ingênuo, é tarde demais. Talvez sua leitura preferida seja a guerra entre gregos e troianos. Inspira-se certamente na engenharia estratégica do Cavalo de Troia para agir em nome do partido. Xangolapetismo é isso aí.
Quarto, até recentemente Xangola não tinha a menor vaidade. Ou não demonstrava ter a menor vaidade. Estava satisfeito ou parecia satisfeito em imperar nas trevas de coadjuvante privilegiado. O problema de Xangola é que virou presidente de uma entidade relativamente importante e lhe bateu uma vontade imensa de ganhar manchetes, colunas sociais, reuniões de cúpulas.
Xangola soltou a franga, se é que me entendem. Mas não é um deslumbrado como tantos no Poder Público. Tem inteligência e preparo suficientes para saber a distância entre o passo que pode dar e o passo que não pode dar. Xangola é um sapateiro que não vai além dos sapatos, por isso não provoca ciúmes na cadeia de poder de políticos e assessores financiados pelos contribuintes.
Comichão aparece
Mesmo assim, não é fácil para Xangola conviver com algum poder explícito, como o de presidente da Fundação do ABC. A comichão das manchetes mexe com o ego público adormecido. Em algum momento tem rompantes de chefe poderoso que sabe bem não é, porque deve obediência total às tutoras, mulheres fortes, arredias, mulheres macho, se é que me entendem.
Ter Xangola na Fundação do ABC, retirando-o da ociosidade de uma das salas no entorno estratégico do prefeito Luiz Marinho, foi a recompensa maior por ter esse engenheiro formado na FEI se dedicado tanto a uma especialidade que cultiva com certa arrogância entre os mais próximos durante períodos eleitorais: é um alquimista dos números das pesquisas de institutos especializados que procuram definir bem antes da hora quem se acomodará no gabinete de Prefeito. Xangola tem espécie de adoração por detalhes recônditos das pesquisas. É difícil lhe arrancar informações que comprometam a estratégia dos petistas. Xangola sabe mais que ninguém que seguir à risca a cartilha de fundamentos não escritos dos petistas é essencial.
Confusões no Semasa
Como Luiz Marinho aceitou as ponderações da primeira ministra Nilza de Oliveira para instalar Maurício Xangola Mindrisz na Fundação do ABC, Celso Daniel também não resistiu a escalar o amigo dos tempos de juventude como superintendente do Semasa no início de seu segundo e mais frutífero mandato em Santo André, em 1997. A introspecção, o radicalismo ideológico e a dificuldade de dividir responsabilidades com quem entende que lhe seja inferior na hierarquia administrativa depõem contra Xangola desde há muito tempo. Tanto que arrumou confusão e atrasou a vida econômica de Santo André durante a gestão de Celso Daniel.
Xangola arranjou uma briga e tanto com a Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) que, longe de uma disputa em favor dos empresários, pretendia mesmo era antagonizar a Administração petista. Não que a demanda da Acisa não fosse justa. Era tão justa quanto oportunista.
O que foi que houve com Maurício Xangola Mindrisz e a Acisa naquele maio de 1999? O então superintendente do Semasa foi acusado pela Acisa de falta de sensibilidade, porque aumentou a tarifa de água em até 39%. Um relatório divulgado pela entidade apontou que o aumento acumulado da tarifa entre 1994 e 1999, de 171,43%, superava em quase três vezes a inflação do período, de 59,87%, e em mais de duas vezes o reajuste da Sabesp no preço da água vendida a Santo André, de 78,99%. Reajuste não pago como também a própria conta da Sabesp, numa longe demanda judicial.
A Acisa não só reclamou como também acusou Xangola de inflar o custo da água para fazer caixa e aumentar em 30% os valores despendidos com o quadro de pessoal da autarquia, espécie de caixa forte das administrações de Santo André. A Acisa também acusou o Semasa de distribuir a água mais cara na Província do Grande ABC.
Ouvido, Mauricio Xangola Mindrisz não soube explicar claramente os sucessivos aumentos da água em Santo André. Pediu tempo para recolher informações que jamais chegaram. Defendeu-se de forma insustentável. Argumentou que a Acisa colheu apenas valores relativos a residências, esquecendo-se de comércio e serviços. Como se o todo prejudicasse a parte. Confirmou que o Semasa estava pronto a novas contratações, mas negou, sem apresentar detalhes, que os valores seriam os apontados pela Acisa. Com Maurício Xangola Mindrisz as explicações são sempre um alvo muito difícil de acertar. É um treinamento de pontaria às avessas. É mais provável que ao mirar uma árvore acerte letalmente o coração de um incauto transeunte.
O desfecho do caso envolvendo o Semasa e a Acisa foi melancólico a quem imaginava que Santo André ganharia, finalmente, um capítulo especial de cobranças em nome da sociedade. A Acisa desistiu de mover ação coletiva em nome de supostos três mil associados e tudo acabou em pizza. Afinal, não seria digno das tradições de Santo André que tudo não passasse de encenação, mesmo quando inicialmente haja um fundo de verdade nas ações. Xangola é um andreense da gema que sabe como são as coisas, se é que me entendem.
Atraso competitivo
Mas a maior confusão em que se meteu Xangola no Semasa data de 1997, quando rompeu acordo para construção da ERA, a chamada Estação de Reuso de Água Industrial. Xangola enviou ofício ao consórcio formado pelas empreiteiras Jeva-Etresco, vencedora da licitação para a construção da obra, rescindindo unilateralmente o contrato. A iniciativa retardou o relógio de competitividade de Santo André em uma década e meia no setor químico-petroquímico. Foram 15 anos de agravante de custos ante outras localidades destinatárias de polos petroquímicos. Somente no ano passado o Polo Petroquímico conseguiu encerrar a obra em parceria com a Sabesp.
Xangola considerou a estação de tratamento um “elefante branco” e prometeu estudar alternativa para implementar o sistema de fornecimento de água industrial. Jamais cumpriu a promessa.
Xangola rescindiu o compromisso formal para a construção da Estação de Reuso de Água ao argumentar que o contrato não previa subcontratação de empresas. Disse também que o Semasa não gastaria R$ 30 milhões numa obra para a qual não existia estudo de viabilidade. O ex-superintendente do Semasa, titular na gestão anterior do petebista Newton Brandão, engenheiro Ajan Marques de Oliveira, reagiu: “Não entendo que tenha havido qualquer irregularidade contratual. Uma empresa pode não ter determinado equipamento, como máquinas pesadas, e acaba recorrendo à subcontratação. Essa rescisão poderá trazer prejuízo ao Município”—declarou Ajan. Palavras sábias, porque Santo André continuou a penalizar o setor químico-petroquímico, sua maior fonte de recursos orçamentários, e a perder cada vez mais competitividade.
É claro que não faltou bateria de críticos do empresariado ao então superintendente do Semasa. O diretor do CIESP (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo) em Santo André, Fausto Cestari, afirmou que a decisão surpreendeu os empresários: “O barateamento da água industrial é a única questão que não pode ser retirada do foco nesse momento. Ninguém mataria esse projeto sem ter certeza absoluta de que não seria viável”, afirmou. E completou: “A indignação é pela falta de participação do Semasa com os agentes sociais envolvidos na questão. Havia a promessa de que a ERA seria um projeto de estudo prioritário e isso não aconteceu”.
Já o gerente geral técnico industrial da Fairway, Marco Antonio Demarchi, foi ainda mais certeiro sobre a decisão considerada autoritária de um representante da Administração Celso Daniel: “A indústria pode até não deixar o Grande ABC por causa dos custos que isso implicaria, mas se o preço da água industrial não contribuir para chegar aos padrões desejáveis, certamente a cidade não será atraente para novos investimentos”.
Coincidência ou não, desde meados da última década, segundo estudos de CapitalSocial com base em dados oficiais, Santo André registra o menor crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) entre os 20 mais importantes endereços paulistas. O setor químico-petroquímico representava à época quase metade do repasse do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) no bolo orçamentário de Santo André. Xangola o tratou a porretadas, enquanto a totalidade dos municípios do Interior de São Paulo provavelmente acenderia velas e promoveria novenas se contasse com apenas algumas indústrias da atividade, às quais lhe dariam todas as vantagens fiscais, locacionais e tantas outras.
Maquiagem pesada
Blindar Maurício Xangola Mindrisz é um dos mandamentos sagrados de quem o aponta como imprevidente no tratamento com a mídia e suscetível demais a pressões de eventuais grupos de oposição internos e externos. Trocando em miúdos e numa linguagem policialesca, Xangola costuma confessar quando apertado. Troca os pés pelas mãos. A tranquilidade que exala em público é apenas um revestimento provisório – como pesada maquiagem de modelos em passarelas para disfarçar a palidez de rigorosas dietas alimentares.
A experiência com a ERA foi exemplar e comprometeu a relação do prefeito Celso Daniel com o empresariado de grande porte. O encaminhamento de uma questão tão complexa não poderia ter-se dado ao sabor de um simples e quase grosseiro comunicado de rompimento. Encontros com os mais interessados na obra, as empresas privadas, principais contribuintes de impostos de Santo André, poderiam ter amenizado os rescaldos. Para isso seria necessário que Xangola praticasse um jogo democrático entre Estado e Mercado.
Mais tarde, em abril de 2001, Maurício Xangola Mindrisz revelou o tamanho das patas de descaso a compromissos firmados pela autarquia. Numa reportagem do Diário do Grande ABC sobre a dívida do Semasa com a Sabesp, que à época superava a R$ 150 milhões e hoje ultrapassa a R$ 1 bilhão, Xangola pronunciou uma resposta que provavelmente abominaria caso ouvisse como credor. Vejam o trecho da matéria:
Ele (Xangola) afirmou que todos os recursos foram utilizados para a realização de obras e manutenção do sistema de água e esgoto do Município. O orçamento anual da autarquia é de R$ 98 milhões, incluindo a arrecadação com todas as taxas. Sem dinheiro em caixa para pagar a dívida quando o impasse foi resolvido, Mindrisz afirmou que terá de parcelar o pagamento a longo prazo: “Isso é algo que vai ser fruto de uma longa negociação. Dependesse apenas de mim, seria por uns 50 anos com isenção de 10”.
Sarcasmo também é uma arma de Xangola, sempre com o acompanhamento de sorriso irônico. E invariavelmente com discrição, como se tudo não passasse de cacoete inocente. Quem tiver o cuidado de analisá-lo a pouca distância de mesas de restaurantes que costuma frequentar na região dificilmente detectará os assuntos tratados. Exceto se o interlocutor for espalhafatoso ou se tema for tricolinagem futebolística. Xangola mantém tom quase coloquial à mesa. Nem especialistas em leitura labial decifrariam frases. Xangola fala baixo, é monossilábico e geralmente mantém o rosto enterrado no prato. A barba relativamente espessa aumenta o bloqueio. Xangola age com a naturalidade programada de quem se sente ameaçado por câmeras e microfones.
Costas largas
O xangolismo de Xangola é um tipo comum na Administração Pública, embora seu detentor seja a síntese da subjetividade e da objetividade da marca e, por isso mesmo, ostente posição mais destacada, pelo menos no âmbito municipal.
As costas largas de duas mulheres poderosas não são para qualquer um. O xangolismo de Xangola vem de uma linhagem especial, como viuvinha de Celso Daniel, companheiro de juventude do qual foi assessor e prestigiadíssimo secretário ou ocupante de cargos equivalentes. A morte do prefeito mais regional da Província do Grande ABC retirou Xangola de cena também, mas nada que o impedisse de continuar a frequentar os corredores bem pagos do Poder Público.
A presidência da FUABC provavelmente não tem como mantra desdenhar dos créditos que a instituição contabiliza junto a prefeituras inadimplentes. Xangola é bom de contas. Quando deve, joga para o amanhã depois do amanhã. Quando tem a receber, cobra ou deixará um rastro de imprudências que poderiam lhe custar bastante caro, mesmo com a dupla de mulheres-maravilha a lhe dar todo o respaldo.
Quem quiser fazer carreira relativamente vitoriosa na Administração Pública jamais deveria desprezar a biografia de Xangola. Há sempre um novo rei a cultuar para garantir-se destacadamente no anonimato, quebrado de vez em quando com um cargo de relevo público. É nesse ponto, quando sai do armário do anonimato, como no caso da Fundação do ABC, que o xangolismo passa a correr riscos. Nada, entretanto, que o impeça de cometer barbeiragens, crente de que, com numa inversão metafórica de papéis de Dona Flor e Seus Dois Maridos, jamais perderá o apoio da dupla poderosa de mulheres.
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO