Deu na edição digital do jornal Repórter Diário de ontem, sob o título “Vereadores denunciam a retirada de 300 árvores de empreendimento da Brookfield”, uma ação bastante seletiva da chamada Comissão de Assuntos Relevantes do Legislativo de Santo André. Seletiva porque, mesmo se for fundamentado o que se anunciou naquela publicação, algo que deve ser apurado com rigor, não passa de cortina de fumaça o que se pratica em termos de exposição pública dos desdobramentos da Cidade Pirelli que já morreu faz tempo, já foi enterrada faz tempo, mas que ainda espera por exumação.
Quem sabe uma cortina de fumaça altamente rentável, porque, sem a menor cerimônia, o que a tal comissão quer de fato é aumentar o preço do pedágio por ter a Brookfield resolvido investir no Bairro Homero Thon, num quinto da área total reservada à Cidade Pirelli. As outras quatro partes são solenemente esquecidas pela Comissão de Assuntos Relevantes porque, entre outras razões, a Comissão de Assuntos Relevantes reúne critérios que não são necessariamente os mais éticos e defensáveis. Priorizar e espetacularizar a parte ínfima ocupada pela Brookfield, que, até prova em contrário, cumpriu com as contrapartidas, é algo estranho.
Diz a notícia do Repórter Diário que os integrantes da Comissão de Assuntos Relevantes da Câmara de Santo André investiga a retirada de 300 árvores do entorno do empreendimento da construtora Brookfield, na Vila Homero Thon. Os vereadores, segundo o jornal, querem rediscutir a contrapartida do empreendimento, além dos impactos ambientais, com os secretários de Gabinete, Tiago Nogueira, e de Desenvolvimento Urbano, Paulo Piagentini, de Obras e Serviços Públicos, Paulinho Serra. Caso necessário, ainda segundo a publicação, os parlamentares convidarão o responsável pelo empreendimento para prestar esclarecimentos na Câmara.
Estou preparado
Já que a Comissão de Assuntos Relevantes e alguns dos secretários da Administração petista de Carlos Grana estão tão ciosos com o empreendimento da Brookfield, o que acha ótimo este jornalista, não fosse a desconfiança de que há caroço nesse angu, faço a seguinte sugestão a eles, para saciar o ímpeto de moralidade que supostamente defendem: por que não convocam ou convidam ou obrigam ou faça o que quiserem para terem este jornalista numa sessão do Legislativo? Me chamem que eu vou para falar tudo sobre a Cidade Pirelli e, mais que isso, inquiri-los sobre as providências que precisam tomar para colocar essa questão na agulha da responsabilidade pública. Ou seja: que parem com essa iniciativa isolada, incluindo-a, por que não, num debate muito mais amplo.
É claro que não acredito que os vereadores de Santo André terão a coragem de abrir o jogo com este jornalista, mas reitero a sugestão. Para não deixá-los em eventual situação de desvantagem ante quem conhece relativamente bem o assunto, enviei a todos eles ontem, em suas respectivas caixas postais eletrônicas, um total conjugado de 18 matérias que preparei ao longo dos anos sobre a Cidade Pirelli.
Na verdade, foram quase 100 artigos que tratam diretamente e indiretamente do empreendimento legado por Celso Daniel a sucessores que jamais entenderam a importância desse riscado de desenvolvimento econômico. De quase 100 matérias, selecionei as 18 mais detalhadas e as encaminhei aos vereadores. Com um mínimo de boa vontade, não serão necessárias mais que duas horas de leitura atenta para se observarem os pontos principais de complicações da Cidade Pirelli. Até porque tive o capricho de destacar todos os trechos mais importantes em amarelo.
Vou jogar na lata do lixo da desconfiança desnecessária, quem sabe paranoica, de acreditar que a Comissão de Assuntos Relevantes e os secretários municipais inquietos com o empreendimento da Brookfield querem mesmo mais que se ocupar da responsabilidade social da construtora. Para tanto, basta a Comissão de Assuntos Relevantes aproveitar os eflúvios desses dias de grandes transformações sociais e, antes que sejam seus integrantes atropelados, abrir as portas a representantes da sociedade para debates mais que esperados. O projeto Cidade Pirelli precisa ser exumado para valer, mas tudo indica que a proposta não sensibiliza a Comissão de Assuntos Relevantes. Por que será, seria capaz de responder o leitor?
Escolhendo tarefas
Diz o vereador José Montoro Filho (PT) ao jornal Repórter Diário que o empreendimento foi alvo de uma série de denúncias e, desta vez, será feito levantamento do projeto para rever certos pontos como o desmatamento das árvores para a alteração viária da Avenida Giovanni Batista Pirelli e seu entorno: “A obra foi aprovada no final do ano passado ao apagar das luzes, sem ser devidamente analisada”, diz o petista ao jornal Repórter Diário.
Já o representante da Brookfield Incorporações, ouvido pelo Repórter Diário, disse por meio de nota que o manejo e a supressão das árvores estão previstos no Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), homologado em dezembro de 2011, e foram autorizados pelo Departamento de Parques e Áreas Verdes de Santo André (DPAV), em 17 de junho de 2013. “O manejo, a supressão e o transplante das árvores serão realizados por conta de uma das contrapartidas exigidas pelo Departamento de Segurança de Trânsito (DST), que estabelece o alargamento da Avenida Giovanni Battista Pirelli, diz a nota, segundo o jornal.
Prometo aos vereadores de Santo André que se me convocarem a falar sobre a Cidade Pirelli, não abordarei outras questões em que o mercado imobiliário de Santo André está metido até a medula em irregularidades. São escândalos à espera de reação da Comissão de Assuntos Relevantes. Duvido que haja interesse em dar transparência total às imundícies. Provavelmente o secretário de Desenvolvimento Urbano, Paulo Piagentini, será o primeiro a negar-se a abrir a caixa-preta do mercado imobiliário, porque há interesses corporativos a minar as bases do enquadramento de negócios mais que suspeitos no uso e ocupação do solo em Santo André.
O que querem da Brookfield, até prova em contrário, é muito mais que um acerto de contar republicano em Santo André. Fosse esse ímpeto de moralidade antecedido por uma proposta de devassar a estrutura de aprovação de negócios imobiliários em Santo André, algo prioritário para um novo governo municipal após o escândalo do Semasa, até daria para acreditar que há de verdade uma ação profilática da Comissão de Assuntos Relevantes.
Talvez esse pessoal ande desprezando demais a capacidade de reação da sociedade da Província do Grande ABC. Acreditam piamente, quem sabe, que o movimento que ganhou as ruas das grandes metrópoles será passageiro e lubrificará, por exaustão, a engrenagem de novos modelos de tapeação. Não apostaria nisso.
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