O Diário do Grande ABC desta terça-feira eleva à manchetíssima de primeira página a relação empresarial da Consladel e das organizações do grupo de Jorge Moura na Província do Grande ABC. Diz o jornal que só a Consladel faturou por dia, este ano, R$ 155,9 mil nos cinco contratos com a Prefeitura de São Bernardo, comandada pelo petista Luiz Marinho. O jornal parece pisar em ovos, mas não deixa de assustar quem conhece as entranhas do Poder Público.
O presidente do São Bernardo, Luiz Fernando Teixeira, já em campanha a deputado estadual de olho na sucessão de Luiz Marinho, não é citado uma única vez na matéria. Há entre o jornal e o advogado uma empatia implícita que resiste à beligerância sazonal entre a publicação e a Administração Marinho. LFT é o embaixador regional do PT na mídia. Tem muito mais peso que o embaixador tucano, o deputado estadual Orlando Morando, que recolhe sobras de investimentos publicitários do governo do Estado.
Os contratos que o Grupo Consladel, como poderia ser chamado o conglomerado desse empresário denunciado pelo Ministério Público Estadual por pagar propinas a gestores públicos, deveriam ser objeto de iniciativas dos legislativos locais. Mas há completa blindagem do Executivo a questões que possam quebrar o ciclo de avanço de forças políticas no poder. Os vereadores foram feitos para corroborar as decisões dos prefeitos. Os poucos legisladores que ousam resistir à avalanche de falsidade democrática são encostados. Viram zumbis açodados por eleitores que os procuram em busca de recompensas às próximas eleições. Como atendê-los sem proximidade com o Executivo dono de fato do campo de jogo, da bola e da torcida?
Esperar que alguns ensaios de movimentação da fossilizada “sociedade civil” é acreditar que o Palmeiras jogará de preto e branco algum dia. As ações de algumas entidades de classe, até prova em contrário, são seletivas. Imaginar, por exemplo, que as unidades das OABs (Ordem dos Advogados do Brasil) vão se mobilizar para promover a faxina nos radares e em tantas outras especialidades do Grupo Consladel, é desconhecer os tentáculos do Poder Público. Está tudo praticamente dominado. E onde há espírito de reação, não faltam bombeiros da cooptação.
Homenagem e mensalão
Jorginho Moura, o empresário acusado pelo Ministério Público após minuciosas investigações, recebeu ainda outro dia o titulo de cidadania de São Bernardo. E foi festejadíssimo no evento pela cúpula petista, prefeito Luiz Marinho e Luiz Fernando Teixeira à frente.
Investigar as relações do Grupo Consladel com os administradores públicos da região é mesmo missão para o Ministério Público. Se depender de qualquer outra esfera oficial ou oficiosa da sociedade regional, nada acontecerá.
A Administração Luiz Marinho é incentivadora de desconfianças no uso de recursos públicos. O engavetamento do caso da Construtora MBigucci, que fraudou os cofres públicos durante o leilão de um terreno valiosíssimo, prova que os dispositivos éticos da gestão petista viraram pó. Os intrincadíssimos contratos com a Consladel e empresas associadas, sabendo-se como se sabe que aqueles empreendimentos estão sob investigação feroz do Ministério Público da Capital, mais que sugerem, asseguram a possibilidade de que a gestão Marinho faz pouco caso de amarras de credibilidade e seriedade com recursos orçamentários.
Tem-se a nítida impressão que o mensalão foi obra de grupos políticos do Cazaquistão, tal a indiferença com que a Administração Luiz Marinho e tantas outras gestões petistas tratam com obscuridade as relações com o empresariado. A Fundação do ABC também é exemplo do quanto a gestão Luiz Marinho faz pouco caso da sociedade. Aquela caixa-preta que tem todos os contornos e conteúdos de escândalos que fariam tremer até os mais céticos defensores do Estado em áreas vitais como saúde, educação e transporte, segue impenetrável.
Poder político
Até que ponto a Consladel como mina de dinheiro está intrinsecamente relacionada a projetos políticos do PT na região é uma pergunta que somente os próprios petistas podem responder. Mas para isso é indispensável que resgatem um predicado que está no depósito de discursos dos tempos de oposição: transparência.
Seria exagerado afirmar que o titulo de cidadania entregue a Jorginho Moura em São Bernardo é um acinte aos antecessores premiados? Parece que não, levando-se em conta que não era desconhecida a investigação do MP da Capital que culminou na denúncia por corrupção. O vereador Tião Mateus, petista que frequenta assiduamente os corredores do gabinete de Luiz Marinho, foi escolhido para patrocinar a proposta unanimemente aprovada por um Legislativo chapa branca.
Também presidente do Clube dos Prefeitos da Província do Grande ABC, Luiz Marinho teria grande oportunidade, fosse diferente do que tem se apresentado, para promover faxina do Grupo Consladel na região. Afinal, outras prefeituras também têm proximidades com o empresário. Um apanhado geral desses contratos deveria ser levado à Imprensa e a interessados para um debate público sobre o uso de recursos orçamentários. É claro que a proposta é apenas deboche. Jamais alguém vai se apresentar para colocar o guizo de ações republicanas no pescoço de obscuridades que se perpetuam e que estimulam especulações sobre os canais de irrigação de financiamentos eleitorais espúrios e enriquecimentos ilícitos.
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