Confesso publicamente: a Administração Luiz Marinho é mais forte que minha vocação terapêutica de escrever para espantar maus espíritos. Quando penso que posso direcionar mais intensamente temáticas além das fronteiras administrativas do setor público, o prefeito de São Bernardo aparece no radar de denúncias de irregularidade.
Agora foi a manchetíssima de primeira página do Diário do Grande ABC de domingo: o gestor petista está pagando a um fornecedor de salsichas da Sadia bem mais que o governo Fernando Haddad e o governador Geraldo Alckmin. A maracutaia em forma de identidade prévia do vencedor do leilão foi registrada em cartório um dia antes da suposta disputa. Ou seja: já se sabia com antecedência quem ganharia o pregão.
Fosse outro o prefeito em questão, concederia o princípio constitucional de que todos são inocentes até prova em contrário. Entretanto, como minha experiência com a Administração Marinho é tenebrosa, aposto as fichas no denunciante e no Diário do Grande ABC. Quem fez o que fez com o escândalo do conglomerado MBigucci, engavetando um crime contra os cofres públicos, como foi o caso do leilão fajuto de um terreno público vencido pelo empresário Milton Bigucci, não merece credibilidade em situações assemelhadas. Se não for corrupto, Luiz Marinho é por demais despreparado ao comando da máquina pública que supostamente dirige há quase cinco anos.
Reproduzo os principais trechos da reportagem publicada na edição de domingo do Diário do Grande ABC sob o título “Pregão de S. Bernardo tinha decisão um dia antes”. Deixo a considerações complementares a pretendida defesa do prefeito Luiz Marinho, cujo conteúdo deveria constar do Festival de Besteiras que Assola o País, de Stanislaw Ponte Preta, personagem do saudoso Sérgio Porto:
O governo do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, programou para o dia 23 de julho a divulgação da empresa que seria contratada pela Prefeitura para fornecer salsicha de peru congelada para a rede municipal de ensino. Mas um dia antes, em 22 de julho, o vencedor já era conhecido, com registro em cartório de que o certame indicava cartas marcadas. Vinte e quatro horas antes de a administração anunciar a fornecedora (...) no cartório localizado (...) o munícipe Geraldo Alves Nogueira Lima registrou, com reconhecimento de firma, que a New Quality Indústria e Comércio de Carnes Ltda triunfaria no processo licitatório. No dia seguinte o leiloeiro (...) anunciou que a New (...) fizera a menor proposta e venceu o leilão presencial. A empresa superou sua única concorrente (...) oferecendo proposta de R$ 10,04 por quilo de salsicha de peru congelada – o total do contrato é de R$ 820,5 mil por 12 meses. Em declaração registrada em cartório Lima afirmou que “o citado processo licitatório já nasceu morto, pois não haverá efetiva competitividade, haja vista que antes mesmo da publicação da abertura da licitação já era de conhecimento público que a empresa vencedora seria a New Quality”(...). Colaborador de um site que coleta denúncias em administrações públicas, Lima disse que um dos funcionários de uma distribuidora dos alimentos o alertou que o certame em São Bernardo estava previamente definido, antes da realização da licitação. (...) O valor oferecido pela New Quality para salsichas de peru congeladas foi menor do que o proposto pela Fênix, mas é bem superior ao preço praticado na prefeitura de São Paulo, gerida pelo petista Fernando Haddad, e pelo governo do Estado, administrado pelo tucano Geraldo Alckmin. A quantia unitária de R$ 10,04, que resultou na vitória na licitação em São Bernardo, é 73% maior do que o preço contratado pela prefeitura de São Paulo (que comprou o quilo por R$ 5,80) e 78% superior ao acordo vigente com o Palácio dos Bandeirantes (adquiriu o alimento por R$ 5,65). O produto tem a mesma origem: a salsicha de peru congelada fornecida pela Sadia (as licitações são feitas com distribuidores do produto) – publicou o Diário do Grande ABC.
Deixando a desejar
Em nota, segundo o Diário do Grande ABC, a Administração Luiz Marinho apresentou defesa que deixa muito a desejar. Procura justificar a diferença de preços no volume de compra: a Prefeitura de Haddad comprou 75,5 mil quilos, ante 8.172 de São Bernardo e 150 mil quilos do governo do Estado. Por esse princípio, como compra metade em relação ao governo do Estado, o prefeito Fernando Haddad deveria pagar muito mais que R$ 5,80 por quilo ante os R$ 5,65 do governo Alckmin. A diferença de R$ 0,15 no preço por quilo num total de 75 mil quilos contratados é proporcionalmente muito mais suave que a diferença dos valores envolvendo a Prefeitura de São Bernardo e as outras duas instâncias governamentais. .
Mas não custa nada uma equação esclarecedora: se a Prefeitura de São Paulo contratou um volume 10 vezes maior que a Prefeitura de São Bernardo e se paga um acréscimo por quilo de R$ 0, 15 em relação à compra do governo do Estado, que consome o dobro da cidade de São Paulo, o máximo que a Prefeitura de São Bernardo deveria pagar adicionalmente ao fornecedor seria o equivalente a R$ 1,50 por quilo contratado, o que resultaria no valor final de R$ 7,30 por quilo, não os R$ 10,04 da licitação vencedora.
Esses cálculos têm tanta fundamentação teórica que batem com o resultado de três consultas que fiz a mercadistas de porte médio, após apresentar a situação denunciada pelo Diário. Um deles, Gilberto Wachtler, que autorizou a divulgação de sua identidade, foi objetivo: a diferença de preço de compra em situação análoga envolvendo um supermercado de grande porte e um supermercado de médio porte, que é o seu caso, não ultrapassa a 10%. Um supermercado de médio porte fatura não mais que 15% de uma unidade de grande porte. Mais: a salsicha envolvida na denúncia do Diário do Grande ABC não custa mais que R$ 5,70 no supermercado de Gilberto Wachtler. A salsicha de Luiz Marinho custa quase o dobro.
Portanto, quem acreditar no conceito de volume expresso por Luiz Marinho como justificativa a tamanha diferença de valores permitirá a possibilidade prática de inviabilizar-se o comércio daquele produto em pequenos estabelecimentos, já que o preço de compra na rede de distribuidores seria extraordinariamente maior que o preço de vendas nos supermercados de médio e de grande porte.
Justificativas frágeis
Como se observa, qualquer levantamento sério sobre o preço por quilo do produto em questão no mercado concorrencial da livre iniciativa desmascararia o argumento da Administração Luiz Marinho. Só não chego ao extremo de afirmar que a pesquisa também poderia incluir outros administradores municipais porque os níveis de corrupção estão cada vez mais elásticos que seria arriscado cair na armadilha, porque outros processos licitatórios teriam tessitura semelhante a de São Bernardo.
Para completar, a Administração Luiz Marinho alegou também que o contrato com o fornecedor vitorioso na licitação envolve a distribuição direta do produto nas escolas municipais. Não há informações sobre a modalidade de suprimento tanto do governo do Estado quanto da Prefeitura de São Paulo. Se for semelhante, a argumentação de São Bernardo cai no vazio. E se for diferente, o buraco é mesmo de incompetência, porque implicaria em metodologia desprezada por outros administradores públicos. Quem garante que não se acondicionou o fornecimento direto nas unidades escolares como defesa cautelar aos vícios do processo licitatório?
Lamentavelmente, a Administração Luiz Marinho se perde cada vez mais num cipoal de promessas no campo econômico, frustrações no campo social e tempestades no campo ético. Nada a surpreender para quem escolheu a dedo Maurício Xangola Mindrisz à presidência do latifúndio político-partidário mais fértil em malabarismos administrativos que não resistiriam a uma blitz do Ministério Público, como é o caso da Fundação do ABC, manipuladora sem obstáculos diretivos de orçamento maior que, individualmente, quase todos os municípios da Província do Grande ABC.
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO