O secretário municipal de Mobilidade Urbana (e também de Obras e Serviços Públicos), Paulinho Serra, pode estar cavando a própria sepultura político-eleitoral ao introduzir o que se configuraria um embaralhamento logístico desgastante no sistema viário de Santo André. Como também pode encontrar uma saída desafiadora para reduzir o estresse causado pelo excesso de veículos e escassez de espaços. O ex-tucano Paulinho Serra, um dos secretários mais importantes da administração petista de Santo André, trafega sobre uma tênue linha que separa armadilha e consagração. Só o tempo vai lhe definir o destino. Por mais que o secretário projete efetividade operacional, não seria um cavalo a se recomendar aposta em Grande Prêmio. Os obstáculos são enormes.
Por enquanto, e ante a possibilidade de meter-se em enrascada, Paulinho Serra deve agradecer aos céus, ao calendário gregoriano, às férias corporativas e às férias escolares pelo fato de que o que se apresenta tanto nos locais escolhidos para se transformarem em faixas exclusivas de ônibus como no entorno ainda não configurar completo mapa do inferno. Tratar-se-ia, entretanto, de um vestibular para o inferno?
Quando fevereiro chegar e o fluxo de veículos voltar às ruas principais do Centro de Santo André, vai ser um deus-nos-acuda ou até lá é possível preparar o terreno para amenizar os efeitos colaterais das medidas?
Capital regional de conexões logísticas por força de ser o centro geográfico de um território de 840 quilômetros quadrados, Santo André potencializou de tal maneira o caos em mobilidade urbana que as mudanças introduzidas pelo secretário Paulinho Serra e a equipe que lhe dá retaguarda técnica poderiam sugerir intervenções emergenciais. Resta saber se tudo sairá conforme o figurino estudado ou os resultados dos próximos tempos ganharão a forma de uma chiadeira geral.
Teria o secretário de mobilidade urbana da Prefeitura de Santo André forçado a barra ao procurar abrir espaços que aparentemente não existem em importantes corredores viários de uma cidade que envelheceu também no descompasso de explosão de uso de veículos e retração de investimentos públicos? O tiro sairia pela culatra ou Paulinho Serra deu um nó nos pessimistas e preparou uma surpresa que se materializará num futuro próximo? Teria Paulinho Serra e sua equipe de assessores retirado do comodismo soluções que de tão desprezadas pareceriam inúteis?
Perimetral é exceção?
Será que o conjunto de endereços a que se reservaram as faixas de ônibus terão a suposta efetividade em harmonia que rivalizasse com o trecho da Avenida Perimetral? Segundo reportagem do Diário do Grande ABC, ali se apresentou o menor índice de irregularidades cometidas pelos motoristas de veículos particulares no primeiro dia do experimento. Nada mais natural, porque a extensão, a sinalização e as características do trajeto, de via rebaixada, favorecem a fluidez dos ônibus e inibe ainda mais a mobilidade dos veículos de passeio. Nas outras vias, de condições físico-estruturais mais modestas e inimagináveis à segregação do transporte coletivo, a adaptação seria provavelmente menos confortável.
Paulinho Serra está privilegiando o transporte coletivo de classes populares em detrimento da individualização do transporte característico da classe média motorizada tanto quanto a Administração de Fernando Haddad, na Capital. Uma política corretíssima sob o ponto de vista político-eleitoral para o PT do prefeito Carlos Grana, como o está sendo para o PT paulistano. O problema é que Paulinho Serra poderá atirar contra os próprios pés. Toda a vida eleitoral que construiu teve a classe média tradicional, das imediações do Centro de Santo André, como sustentação. A mesma classe média que, faixas e corredores de ônibus eventualmente em transe, não hesitaria em reagir.
Será que Paulinho Serra não pagará um preço muito alto em nome de uma organização estrutural da mobilidade urbana de Santo André, metido numa camisa de força que lhe daria muito pouco espaço a contragolpear eventuais dores de cabeça?
Se o desgaste na classe média pouco se modificará para os petistas de Santo André, porque esse estrato social, no Brasil inteiro, quer ver o PT pelas costas, e provavelmente azeitará o prestígio nas classes populares, porque o transporte público tende a ganhar maior fluidez e rapidez, para Paulinho Serra nada seria pior. E não existe meio termo a seduzi-lo: a opção preferencial pelo transporte público, num território despreparado estruturalmente para absorver política com essa finalidade sem ferir interesses dos mais motorizados, poderá custar caro ao secretário. Ou então terá a recompensa da consagração de uma solução que os antecessores desdenharam.
Mais fiscais, mais problemas?
A recuperação do prestígio entre os eleitores que lhe deram mandatos de vereador seria mais demorada na exata proporção de resistência ao projeto que programou em sete importantes vias do Centro de Santo André – e em outras duas constam do plano de expansão. Quanto mais fiscais botar nas ruas para orientar e multar motoristas, mais inoculará repulsa. Seria um passo a um suposto apartheid social às avessas.
Copiar o modelo paulistano de Fernando Haddad é uma resposta corajosa mas também potencialmente pretensiosa da Prefeitura administrada por Carlos Grana. À falta de planejamento histórico, e, principalmente, de obras físicas compatíveis com as ambições de desentupimento das ruas, resolveu-se correr atrás do rabo das manifestações de junho do ano passado, as quais Fernando Haddad logo tratou de incorporar ao modelo de mobilidade urbana da Capital.
Embora o nó logístico em São Paulo seja muito mais intrincado que o de qualquer Município da Província do Grande ABC, o mimetismo de Santo André não deixaria de provocar transtornos. Quem se aventurar a deslocar-se pelo Centro de Santo André escolhido pelo secretário Paulinho Serra como palco de manobras logísticas sofrerá um bocado. As faixas de ônibus não têm durante boa parte do dia a uniformidade de ocupação que supostamente justificaria a medida. Enquanto isso, as faixas dos veículos particulares se tornaram ainda mais congestionadas.
Como se já não bastasse na região um modelo de abuso logístico, na forma da ociosidade de quilômetros de asfalto do sistema de trólebus, agora se implanta em Santo André algo assemelhado. Seria esse o cenário do futuro próximo ou, insisto, Paulinho Serra trabalha com a certeza de que a perspectiva é de melhora, de adaptação, de conversão a um ganho generalizado dos ocupantes de ruas e avenidas?
É claro que a gestão de Carlos Grana também poderá sofrer com os rescaldos da possibilidade de o sistema viário advindo das faixas exclusivas de ônibus tornar-se errático. Achar como alguns estão achando que somente o secretário Paulinho Serra poderá dar com os burros nágua é individualizar demais uma politica de governo. Da mesma forma que os eventuais ganhos na classe média serão compartilhados entre o governo petista e o secretário mais conservador.
Partindo-se da lógica de que não há como ampliar os espaços físicos naturalmente destinados aos veículos particulares e que esses espaços já eram escassos antes que as faixas exclusivas de ônibus aparecessem no mapa de intervenções políticas de gestores públicos, dá-se como certo que a insatisfação dos motorizados expandirá tentáculos. Entretanto, nem essa premissa é entendida como imutável e inquebrável. Daí a decisão de Paulinho Serra executar o projeto.
Os ganhos eleitorais nas classes mais populares que se beneficiarão de uma média de velocidade menos lenta serão capturados pelo PT, que fala como nenhum outro partido a linguagem dos boleiros do povo. Já os danos colaterais na classe média serão integralmente do secretário.
E o mercado imobiliário?
Tanto em Santo André como da Capital, e nos eventuais novos casos de prioridade às camadas mais populares que comem o pão que o diabo amassou nos enlatados sobrerrodas, o mais marcante como pano de fundo das medidas é o interesse eleitoral. Os prefeitos da Capital e de Santo André sabem que desarranjos logísticos são, em largo espaço, uma associação de veículos demais nas ruas, favorecidos pela política consumista do governo federal petista, e liberdade demais aos abusos geralmente impunes do setor imobiliário, o mais corrupto no jogo sujo das grandes metrópoles.
Mas quem disse que a Administração Grana vai botar o dedo na ferida imobiliária? E quem garante que, mesmo após expor as vísceras dos cambalachos de dezenas de construtoras e incorporadoras que sonegaram milhões em impostos, o prefeito Fernando Haddad vai imprimir um ritmo de urbanização responsável nas entupidas vias da Capital?
O secretário Paulinho Serra está arriscando o pescoço ao meter-se trânsito adentro para dar a Santo André um pouco da competitividade logística que perdeu ao longo dos anos, encalacrado que está seu território à Leste e à Oeste da geografia regional. A Avenida dos Estados é um eterno jogo de empurra de engarrafamentos e condições precárias de segurança, enquanto a Anchieta e a Imigrantes, do outro lado de Santo André, converteram-se em aliadas principalmente de São Bernardo e de Diadema. Sem contar os efeitos mesmo que residuais de um Rodoanel de baixa acessibilidade interna mas, de alguma forma, favoráveis por tangenciar aqueles dois municípios.
Se der a Santo André um mínimo de competitividade no sistema viário não só com faixas e corredores exclusivos de ônibus mas também com uma série de medidas de micro, pequeno e grande porte, Paulinho Serra poderia se cacifar a voos mais altos. O sonho de virar prefeito de Santo André não estaria assim tão distante. Mas, convenhamos, o ex-tucano poderia ter escolhido uma secretaria e um roteiro muito menos emocionantes.
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO