Como o prefeito Luiz Marinho voltou à teimosa, voraz e contundente pregação em defesa de um Aeroportozão nos mananciais de São Bernardo, embora anteriormente tenha negado as dimensões e se contentasse com um terminalzinho de carga e descarga, não resisto a avaliações sobre as razões que levam o chefe do Executivo da cidade mais rica da região a insistir na proposta. Vou vincular a algumas alternativas complementares os motivos que fazem do Aeroportozão em São Bernardo uma obsessão de Luiz Marinho. A linguagem é prudentemente hermética em alguns pontos e mais contundente em outros. Vejam, então:
a) Tudo já está acertado como um grupo privado de alto poder econômico, com evidentes extensões ao financiamento eleitoral de campanhas dos petistas e aliados porque é assim que funciona a engrenagem de negociações obscuras.
b) Tudo já foi devidamente encaminhado sobre o espaço a ser ocupado, que associaria interesses do grupo privado e gente especializada em atuar no entorno de gestores públicos com ações de extraordinária competência na arte de adquirir terrenos estrategicamente valiosos a preços de banana.
c) Tudo já estaria sob o controle de compensações políticas que teriam sido geradas pela negociação que culminaram na renúncia de Luiz Marinho a concorrer ao governo do Estado.
d) Tudo já estaria mais que concatenado com organismos que têm por obrigação cuidar da legislação ambiental, de modo que se dariam os nós necessários para evitar contratempos.
e) Tudo estaria mais que combinadíssimo com instâncias políticas fora da esfera petista, mas de aliados importantíssimos, para que se amarre o burro de burocracias partidárias de modo a remover empecilhos sempre colocados para valorizar o passe dos oponentes.
Expostos estes motivos que giram em torno dos macrointeresses de trazer para São Bernardo um investimento que contraria completamente os cânones capitalistas, o bom senso, a ética e a moralidade, vamos então a sucinto destrinchamento temático:
Grupo econômico poderoso
Embora a ética e a moralidade ditem a regra que um gestor público, qualquer que seja, deva tratar a todos com isonomia, o Aeroportozão pretendido por Luiz Marinho é um acerto entre amigos que se entendem a um simples olhar. Eles, os empresários, já foram esquadrinhados pela gestão Luiz Marinho e atuam conjuntamente nos entornos da Administração Federal para demover todos os obstáculos que sintetizam a exuberância ostensivamente impraticável da obra, caso se leve a sério a premissa de que os mananciais não são uma área a ser degradada mesmo que a peso de muito dinheiro. Em nenhum instante passou pela cabeça do petista tornar a pretensão de construir o Aeroportozão uma ação de capitalismo democrático. Vigora o capitalismo de compadrios.
O entorno viciado
É claro que o entorno da Administração Luiz Marinho não assistirá impassível e maravilhado a tentativa de implantação de um Aeroportozão onde a natureza se revoltaria. Entenda-se por entono da Administração Luiz Marinho gente graduadíssima que está diretamente relacionada ao prefeito, tanto nos interiores da Prefeitura como nos arredores mais próximos. Gente que sempre se mostrou importante às incursões petistas, antes mesmo da primeira vitória eleitoral, em 2008. Esse entorno viciado que mantém Luiz Marinho encabrestado não resistiria a uma varredura investigatória que provaria, entre outras traquinagens, o grau de intersecção entre a inadimplência de proprietários de terrenos negociados na bacia das almas e a infiltração de agentes que se situam distantes da normalidade do mercado imobiliário.
O preço da desistência
Trazer para o território sagrado ou que deveria ser sagrado dos mananciais um trambolho aeronáutico que atingiria fundo a riqueza ambiental seria uma espécie de contrapartida às negociações político-partidárias muito bem encaminhadas no passado e que venderam a ideia mais que biruta de que o prefeito de São Bernardo seria competitivo na disputa governamental. Pura besteira, porque há tanta potencialidade de conciliação no conservador Estado de São Paulo entre um sindicalista e o eleitorado quanto palestinos e israelenses amarem-se para sempre. Como bom negociador dos tempos de sindicalista, Luiz Marinho não entra numa disputa sem cair na armadilha de quem se mete num labirinto de saída única. Pelo contrário: com Marinho o que se dá é exatamente o reverso de uma versão de labirinto – as portas de saída são múltiplas.
Intimidades ambientais
O passado de relacionamentos próximos entre o PT oposicionista e moralista e instâncias ambientais empedernidas garantiu a ambas as partes longevidade de intimidades que novos contextos políticos permitiram incrementar principalmente tendo em vista que o que era oposição virou situação em muitos endereços. No que depender de instâncias locais subservientes à flexibilidade dos cromossomos de conceitos inegociáveis no passado para que o Aeroportozão de São Bernardo saia do terreno ameaçador de pesadelo e subverta todos os caros valores de qualidade de vida, a situação estaria resolvida. Daí o prefeito Luiz Marinho falar com tanta convicção de uma obra que, em situação contextualizada de equilíbrio do ecossistema, provocaria o escárnio geral.
Generosidade partidária
Se a ameaça de disputar espaço para candidatar-se a governador do Estado abriu ampla vereda de oportunidades ao estoque de contrapartidas internas retiradas do bolso do colete de Luiz Marinho, não é diferente a amarração com partidos aliados em todos os níveis, principalmente em Brasília, para que se fechem os olhos e se tapem os ouvidos, bem como se lacrem as narinas, a tudo que derivar de pernicioso na equação que culminaria na afronta de aprovar um Aeroportozão em São Bernardo. A ideia de que está tudo dominado, que o partido do poder em Brasília pode tudo porque não haveria limites aos desejos de algumas de suas importantes peças no tabuleiro de acertos é uma ideia que extrapola o terreno metafísico e se instala na materialidade de encontros mais que suspeitos.
Conclusão: estamos roubados
Portanto, e para concluir mais um capítulo sobre a proposta de agressão ambiental, bem como o soterramento de critérios financeiros, econômicos, logísticos, concorrenciais e tudo o mais que a pretensão de Luiz Marinho exala, o que temos é um prefeito ostensivamente debochado, meticulosamente irresponsável, descuidadamente fanfarrão e extraordinariamente cínico ao voltar a se referir sobre o Aeroportozão em São Bernardo.
Ao dizer, como disse, a um canal de internet que espera que o Aeroportozão seja inaugurado já em 2017, Luiz Marinho passou a convicção de que tem as costas largas para empreender todos os devaneios possíveis. Entretanto, convém desconfiar que está a agir no mesmo ritmo das birutas de aeroportos, porque ainda outro dia negou o Aeroportozão em nome de um terminalzinho de carga. É mais provável que esteja a zombar de todos. Seria preferível o desrespeito à irresponsabilidade social.
Total de 854 matérias | Página 1
26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO