O futebol da região marcou apenas dois gols nos três jogos que disputou no final de semana, mas como não sofreu nenhum o saldo é excelente: o São Bernardo empatou em Itu com o Ituano pela Série A do Campeonato Paulista e segue na segunda colocação do grupo, com possibilidade de disputar o mata-mata salvador. Já pela Série B do Paulista o Santo André ganhou em casa do Marília por 1 a 0 e está em terceiro lugar na classificação detalhada. O São Caetano, também em casa, venceu o Guaratinguetá pelo mesmo placar e fugiu da zona de rebaixamento. Vimos os três jogos para transmitir aos leitores impressões técnicas e táticas que geralmente a imprensa não reproduz por motivos variados e os comentaristas de TV sonegam ou são incompletos.
São Bernardo: correndo atrás de equilíbrio
Ficou evidenciado sábado em Itu o que pretende o técnico Edson Boaro do São Bernardo que começou arrasador a Série A do Campeonato Paulista com três vitórias seguidas mas que na sequência ganhou apenas um dos seis pontos disputados, exatamente no zero a zero no Interior: a falta de equilíbrio de rendimento entre o sistema defensivo e o sistema ofensivo deverá exigir cada vez mais atenção. Afinal, para chegar à Série D do Campeonato Brasileiro e tentar um calendário anual que não se limite a competições no Estado o São Bernardo precisa passar à fase de mata-mata do Paulista.
O treinador do São Bernardo deve ter ficado razoavelmente satisfeito ao final do primeiro tempo. Ele viu o setor direito da equipe surpreender o Ituano com penetrações bem estruturadas do lateral Rafael Cruz sempre com o suporte de um dos meio-campistas. Foi assim que o São Bernardo construiu três jogadas letais de cruzamentos que poderiam ter sido transformadas em gol. A outra foi um chute comprido do lateral Eduardo, entrando em diagonal, logo aos 45 segundos do jogo. O travessão salvou.
Além de explorar bem o lateral Rafael Cruz, o São Bernardo surpreendeu ao escalar um centroavante que jogou como referência. Diogo Acosta atuou à frente dos três meias (Erick Flores, Bady e Marino) na formação 4-2-3-1 utilizada por Edson Boaro. Quando Marino saiu contundido ainda no primeiro tempo, Gil entrou, mas não mudou a configuração tática. O São Bernardo foi mais harmonioso que o Ituano, mas também sofreu três ameaças, com menos contundência, exceto o chute no travessão em falta batida pelo zagueiro Salles.
No segundo tempo o São Bernardo sofreu para sustentar o empate. Primeiro porque Rafael Cruz perdeu espaço para o apoio com o deslocamento de um dos volantes do Ituano para fechar o caminho até então livre porque Marcinho, o terceiro meia do 4-2-3-1 do adversário não acompanha o lateral do São Bernardo. Segundo porque Gil avançou mais como segundo atacante, formando dupla com Diogo Acosta, agora menos enfiado entre os zagueiros. Bady seguia articulando muito e penetrando pouco, Flores sumia e aparecia feito meteoro e os volantes permaneciam fixos à frente da área. Até o lateral Eduardo desapareceu ofensivamente. Recorrer a bolas longas tornou-se inevitável.
Sorte do São Bernardo que o sistema defensivo continua sólido e que o Ituano tenha abandonado as jogadas de aproximação, em tabelinhas e triangulações, e optado depois dos 20 minutos por cruzamentos para o grandalhão Marcão, um jovem de 19 anos e quase dois metros de altura. O Ituano ameaçou o tempo todo com bolas cruzadas, mas o São Bernardo se deu bem no posicionamento e nos cortes.
A mensagem que o São Bernardo deixou no empate em Itu é que sofre muito com a ausência do volante-meia Edson, contundido, porque perdeu uma saída rápida ao ataque, por dentro. E pode lamentar também a ausência de Marino que, mesmo sem ser um exemplo de meia-atacante, até porque é volante-meia, está entrosado ao grupo. Os laterais Rafael Cruz e Eduardo passam a ser, por isso mesmo, muito mais importantes que antes. A equipe vai depender muito da evolução ofensiva que apresentar porque não se deve esperar nada além de muito vigor e incansável dedicação dos volantes Daniel Pereira e Dudu. Ajustar o ataque com um centroavante com mobilidade e faro de gol é essencial. Diogo Acosta e Careca não resolveram até agora.
Mesmo com problemas de articulação ofensiva, dependente demais de Bady, um jogador inteligente que passa o tempo todo buscando alguém livre para enfiar lançamentos sob medida, o São Bernardo não é carta fora do baralho à classificação. Além de ter acumulado pontos preciosos no começo do campeonato, o sistema defensivo e a sempre eminente potencialidade nas bolas paradas indicam que vitórias rasantes podem constar do histórico na competição. Ou seja: o time de operários de Edson Boaro tem tudo para disputar uma vaga num grupo em que o Santos é o favorito e a Ponte Preta se consolida como grande adversário a ser batido por terceiros, porque não há confrontos diretos entre integrantes do mesmo agrupamento.
Certo é que as dificuldades ofensivas poderão aumentar nas próximas rodadas, como já aumentaram nas duas últimas: a vitória contra o Corinthians deu visibilidade ao sistema de jogo do São Bernardo, feito de contragolpes, e os adversários estão mais atentos. Por isso Rafael Cruz sentiu o peso no segundo tempo, quando não teve o corredor livre do primeiro, e o São Bernardo perdeu a capacidade de infiltrações.
São Caetano: uma vitória demorada
Se o São Caetano que venceu o Guaratinguetá por 1 a 0 aos 46 minutos do segundo tempo do jogo disputado sábado à noite no Estádio Anacleto Campanella não for fogo de palha, a torcida pode esperar resultados melhores nos 16 jogos que faltam na Série B do Campeonato Paulista. Diferentemente dos dois primeiros jogos, quando perdeu e principalmente não teve poder de fogo, o São Caetano do terceiro jogo foi incisivo no primeiro tempo e muito mais forte ainda no segundo. O resultado de zero a zero teria significado de derrota para quem foi ofensivo o jogo inteiro.
A notícia mais surpreendente para o São Caetano foi a volta do meia-armador Cleber, de passagem irregular pela equipe e emprestado nos últimos tempos ao São Bernardo e ao Criciúma. Kleber saiu do esquecimento para a glória. Ele foi o melhor do São Caetano ao atuar com liberdade e ao sinalizar que talvez seja o armador de que o time tanto carece. A escalação de Cleber deu mobilidade ao meio de campo com repercussão no ataque que tanto se ressentia de alguém com competência para fazer de cada passe ou lançamento uma ótima ação. Substituto do mais defensivo e pouco agressivo Anselmo, Cleber merecia até ter feito um gol que desperdiçou quando faltavam 15 minutos. Ele livrou-se de três adversários e encobriu o travessão.
Com Cleber no meio de campo o São Caetano segurou mais os volantes Rodrigo Thyssen e Esley e liberou os laterais a apoiarem um ataque com Danielzinho e Jael agora menos estáticos do que no jogo com o Marília, mas ainda longe dos melhores momentos. Jael e Danielzinho fracassaram tanto que o São Caetano só ganhou mais força ofensiva quando os substituiu no segundo tempo. Os mais ágeis Jackson e Igor deram nova dinâmica ofensiva. Mesmo errando em duas finalizações em que o gol adversário estava disponível à festa, Jackson justificou a entrada ao confundir os zagueiros até então acomodados com a lentidão de Jael e os repetitivos erros de posicionamento e de finalização de Danielzinho.
O São Caetano foi melhor no primeiro tempo, teve duas oportunidades para marcar com Kleber, enquanto o adversário não ultrapassava a forte marcação defensiva. No segundo tempo, depois de um começo vacilante ante um adversário que se fechava ainda mais e que só mantinha dois atacantes à frente, para apanhar contragolpe, o São Caetano superou as expectativas com Jackson e Igor no ataque.
A entrada de Wagner Carioca no começo do segundo tempo também ajudou consideravelmente. Mesmo sem a mobilidade de Danilo Bueno, que dividia com Kleber a armação e as penetrações do sistema 4-2-2-2 do técnico Nedo Xavier, Wagner Carioca passou a preocupar o adversário porque é especialista em finalizações e cruzamentos.
E foi de um chute de fora da área de Wagner Carioca, rebatido pelo goleiro, que saiu o gol do São Caetano. O volante penetrou surpreendentemente para quem passou a maior parte do jogo cobrindo os avanços dos laterais e só teve o trabalho de completar. Os jogadores e a comissão técnica do São Caetano comemoraram a vitória como se os três pontos tivessem decidido a classificação da equipe na luta para voltar à Série A do Campeonato Paulista.
Quem sabe não seja isso mesmo. A autoconfiança pode fazer o time de Nedo Xavier desabrochar de vez. Principalmente se o treinador aprendeu bem a lição: nos dois primeiros jogos houve excesso de marcadores no meio de campo em detrimento de penetrações e finalizações. Além disso, Jael e Danielzinho se recuperam de afastamento dos gramados e estão fora de ritmo. Seria mais conveniente resguardá-los no banco de reservas e escalá-los durante os jogos, até readquirirem a forma física e técnica para formarem uma dupla que todos esperam.
O São Caetano lavou a alma com o gol nos descontos, mostrou mais intensidade durante a maioria do tempo do jogo, foi agressivo pelas laterais e criou infiltrações pelo meio, mas é claramente um time em formação. Vai demorar ainda algumas rodadas para ter rendimento uniforme durante todo o tempo. E se contar mais com um novo Cleber, poderá acumular os pontos que andou desperdiçando nas duas primeiras rodadas.
Santo André: um banho-maria rentável
O Santo André que ganhou do Marilia de 1 a 0 sob sol intenso na tarde de sábado no Estádio Bruno Daniel provavelmente simboliza a essência difundida como a ideal para quem disputa um campeonato de acesso como a Série B do Campeonato Paulista: tem malícia para controlar emocionalmente o jogo, utiliza-se das armas técnicas e táticas de que dispõe para evitar que o adversário paute o ritmo dos 90 minutos e conta com alguns jogadores que, nos momentos decisivos, garantem o resultado.
Isto tudo significa que o Ramalhão não é um time de entusiasmar se for levado em conta que futebol é muito mais que essas qualidades. Mas é um time que sabe o que quer. Tanto que ganhou do Marília exatamente da forma que se organizou nos treinamentos e nos vestiários: evitou que o adversário aumentasse o ritmo no primeiro tempo, quando foi melhor, e que reagisse com risco no segundo tempo, quando estava em desvantagem no placar. Em suma, o Santo André como visitado é um time que manda o recado com clareza de que não está a fim de ser subjugado pelo oponente, custe o que custar. E fora de casa não muda quase nada. Controlar o tempo de acordo com a conveniência do placar é uma arte. E disso o Santo André parece não abrir mão. Resta saber o que será quando estiver em desvantagem no placar, já que a equipe não parece ter características técnicas para empreender reviravoltas.
A vitória diante do Marília que veio com dois atacantes espetados e um meio de campo congestionado para roubar a bola e contragolpear inclusive com a saída rápida dos laterais foi mais uma prova de fogo do sistema de jogo do Santo André. O zero a zero do primeiro tempo foi um presente para a equipe de Roberto Fonseca: o Marília foi mais incisivo, mas não completou as pontadas ofensivas entre outros motivos porque o Santo André passou aperto mas não se descuidou da marcação.
No segundo tempo duas mudanças foram decisivas: Nunes deixou de atuar excessivamente à esquerda do ataque, centralizando posicionamento, e Ramalho substituiu o segundo volante Diogo Orlando, bom na marcação mas sem aptidão no passe e na movimentação. Ramalho entrou tão bem que na segunda investida contou com a eficiência de Nunes como pivô: o centroavante serviu a Muller, um atacante rápido mas muito isolado durante quase todo o jogo. O chute saiu cruzado e encaminhou o resultado.
A partir daí o Santo André manteve o adversário em banho-maria, embora nos últimos 15 minutos a deficiente marcação e o mau posicionamento do lateral Júlio Cesar quase comprometeram o resultado: o Marilia fez substituições que deram mais ofensividade, especialmente às costas de Júlio Cesar e, não fosse a eficiência dos zagueiros de área Jonas e Rayan, nem toda a maturidade do grupo teria sustentado a vantagem.
As qualidades do Santo André e o bom posicionamento na classificação não podem ser superavaliados. Há riscos demais em depender apenas de um meia articulador tão inspirado quanto Michael, o melhor do time até sair cansado. Os dois volantes dão proteção à defesa, mas a articulação do meio de campo é excessivamente entregue a Michael porque Renato Peixe, lateral de origem, não tem a mobilidade dos meias, embora possa contribuir com chutes fortes de fora da área. A escalação de Ramalho desde o começo é uma alternativa que enfraquece o poder de reação ou de consolidação de vantagem na etapa final.
Ainda sem sofrer gol em três jogos, o Santo André não é por acaso um dos primeiros colocados. A maior virtude parece ser a consciência de que não pode arredar pé do controle emocional do jogo, sobretudo para superar uma propensão à lentidão na armação e na conclusão das jogadas. Menos quando Michael está com a bola ou quando se projeta ataque adentro.
Total de 992 matérias | Página 1
14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS