Administração Pública

Grana dinamita Celso Daniel e
o legado do Eixo Tamanduatehy

DANIEL LIMA - 13/06/2014

Seguindo rigorosamente a Lei de Murphi, o prefeito Carlos Grana comprova com a sofisticação dos ignorantes que, quanto mais se desconfia da capacidade de gerir a economia de Santo André, mais ele se supera. É claro que está sempre mal-acompanhado da secretária de Desenvolvimento Econômico, Oswana Fameli, indicada por interesse politico da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André) para ocupar a chapa que venceu as eleições de 2008. A mesma Acisa que jamais tolerou o PT como modelo de gestão pública. Uma estupidez ideológica exercitada no período de Celso Daniel. Ou seja: rejeitou a proximidade quando havia luz. Aconchegou-se quando sobram trevas.


 


A mais recente barbaridade cometida pela dupla de prefeito e vice-prefeita é uma afronta à memória administrativa de Celso Daniel: acompanhados por gente que pouco entende do riscado, eles estão dinamitando o projeto Eixo Tamanduatehy. O gol contra ganha a marca de Eixo Avenida dos Estados. Para um prefeito que, na campanha eleitoral, prometeu resgatar o legado de Celso Daniel, nada mais emblemático do ponto a que chegou o grau de fidelidade e inteligência administrativa.


 


O anúncio da gestão petista de que o Eixo Avenida dos Estados está num suposto planejamento de reconstrução industrial da cidade que mais perdeu riqueza produtiva nos últimos 30 anos, esquecendo-se portanto do Eixo Tamanduatehy, um megaprojeto preparado por especialista em urbanismo e economia, remete a uma anedota atribuída ao então presidente de Corinthians, Vicente Matheus. Instado pela secretária a anotar uma recomendação de que não perdesse a reunião programada para uma sexta-feira, Vicente Matheus, caneta em punho e na dúvida sobre a grafia correta do dia da semana, se com “x” ou “s”, não resistiu: mandou a secretária antecipar o encontro para quinta-feira. 


 


Messi por Jael


 


O prefeito Carlos Grana estava sendo apertado pela promessa de dar continuidade ao Eixo Tamanduatehy. Mais propriamente pela imperiosidade de reunir gente especializada para produzir mudanças que o tempo passou a exigir. A morte de Celso Daniel manteve o Eixo Tamanduatehy em estado de quase congelamento, após o lançamento oficial no final dos anos 1990. Há necessidade de adaptações.


 


O que fez Carlos Vicente Grana Matheus? Deu ordens para esquecerem o Eixo Tamanduatehy. O Eixo Avenida dos Estados entrou em campo com a simplicidade gerencial dos administradores pouco afortunados em ao menos observar o futuro como preenchimento de necessidades sociais já presentes. 


 


A notícia de que o Eixo Avenida dos Estados é o mote do prefeito e da secretária Oswana Fameli para sugerir à sociedade que a economia de Santo André será revigorada foi publicada em vários jornais impressos e digitais da região até que o Diário do Grande ABC a levou à manchetíssima de primeira página no dia da abertura da Copa do Mundo. Uma matéria sem contextualização porque falta conhecimento histórico sobre o desenvolvimento econômico na região.


 


A substituição do Eixo Tamanduatehy pelo Eixo Avenida dos Estados equivale em termos futebolísticos à troca de Messi, o maior craque do planeta, por Jael, um centroavante esforçado que jogou até no Flamengo por algum tempo mas hoje está no Joinville, da Série B do Campeonato Brasileiro. Também passou pelo São Caetano, recentemente. É o contraponto de Messi. Um é gênio, o outro apenas esforçado. Tanto quanto o confronto entre Celso Daniel e Carlos Grana.


 


Pior que escalar um Jael qualquer, como está sendo escalado o Eixo Avenida dos Estados, é que o novo projeto, que nasce sem eira nem beira de planejamento feito por quem pouco entende de competitividade industrial, deverá ficar no banco de reservas. Ou seja: não entrará em campo exceto numa ou noutra empreitada sem grande valor. A Avenida dos Estados, que corta parte dos territórios de São Caetano, Santo André e Mauá, é o resto do toco, o toco sozinho de endereços sobre os quais há interesse de se implantar unidades produtivas que façam a diferença à recuperação do prestígio industrial da cidade.


 


O encalacramento logístico da Avenida dos Estados é um convite à fuga de investimentos que possam fazer a diferença num Município entregue à própria sorte econômica e com indicadores sofríveis nas três últimas décadas.


 


Uso misto detonado


 


O esquartejamento do Eixo Tamanduatehy é o resumo da ópera de incompetência do prefeito Carlos Grana. O projeto deixado por Celso Daniel e que mesmo aos trancos e barrancos possibilitou vários investimentos, sobretudo na Avenida Industrial, deveria passar por reestudos contextualizados à situação econômica do País. Nada disso será feito. Será simplesmente esquecido. O uso misto da área de mais de nove milhões de metros quadrados do Eixo Tamanduatehy cederá espaço exclusivamente a dois milhões de metros quadrados para o setor industrial do Eixo Avenida dos Estados. Uso misto significa vizinhança com qualidade de vida entre indústria limpa, serviços, áreas de entretenimento e residências. Uso estritamente industrial é um salve-se-quem-puder.


 


Em nome de eventuais inversões financeiras nos mais de dois milhões de metros quadrados que a Administração Carlos Grana diz existirem para ocupações serão incentivados todos os tipos de atividades produtivas. Nem assim, provavelmente, decolará. A carona do Polo Petroquímico, nas proximidades do Eixo Avenida dos Estados, foi perdida há muito tempo. Há concorrência territorial mais próxima e menos complexa.


 


Santo André como alternativa industrial de agregado de valor tecnológico, sobremodo na extensão do Rio Tamanduatehy, que corre em paralelo à Avenida dos Estados, é algo tão viável quanto plantar eucaliptos no topo do Paço Municipal ocupado por Carlos Grana.


 


Secretária dá o tom


 


A primeira notícia de que se tem informação sobre a investida da gestão Carlos Grana em direção à Avenida dos Estados, e consequente soterramento do Eixo Tamanduatehy, foi publicada no site da Prefeitura em 22 de maio último. As declarações de Oswana Fameli são sedutoras para quem desconhece a disputa por espaço industrial no País: “O Conselho precisa participar ativamente deste debate, que visa planejar a cidade com base em uma política pública para o desenvolvimento. Nossos integrantes se engajaram minuciosamente em analisar o cenário industrial e produtivo, aliado ao diagnóstico das áreas disponíveis no entorno do Eixo da Avenida dos Estados”, avaliou a secretária. Que prosseguiu: “(Dois passos são importantes) -- definir as áreas estratégicas destinadas a este fim e criar políticas públicas que incentivem a economia”. Oswana Fameli, que confessa correr na mesma raia metodológica do governo federal, entende que a aprovação da Lei de Inovação, que regulamentou o Sistema de Inovação, detalha o papel das agências de fomento, instituições de apoio, incubadora de empresas e parque tecnológico. Ou seja: segue uma teoria que insiste em conflitar com a prática.


 


E a prática é simples: Santo André está fora do roteiro de investimentos substantivos da indústria de transformação porque é um dos piores pedaços de competitividade sistêmica de uma região, a Província do Grande ABC, divorciada da realidade nacional ao insistir em acreditar que é o centro do mundo. Os números sobre desigualdade de salários e renda são pedagógicos sobre o enrosco.


 


Perdas históricas


 


A Administração Municipal de Santo André desdenha dos cuidados críticos dos números históricos que CapitalSocial está cansado de apresentar. Em fevereiro de 2012 mostramos, por exemplo, que nenhum dos municípios que compõem o G-20 (o Clube dos Municípios Ricos do Estado de São Paulo) apresentou Valor Adicionado Industrial abaixo de 115% de crescimento nominal entre 2000 e 2009, exceto Santo André, que registrou 92,13%. Um índice sofrível, quando no mesmo período o IGP-M (Índice Geral de Preços ao Consumidor) medido pela Fundação Getúlio Vargas chegou a 127,08%. Repetindo: Santo André foi lanterninha entre os municípios mais industrializados do Estado de São Paulo no período mencionado. Os números ficaram piores no ano seguinte.


 


A reestruturação do Eixo Tamanduatehy deveria ser um dos pontos nucleares da gestão Carlos Grana. Para tanto, especialistas em competitividade regional poderiam ser requisitados para subsidiar informações que o provincianismo dos técnicos municipais jamais detectará. A situação se agrava quando se entrega o destino mesmo que mais restrito de parte daquela área, no caso o Eixo Avenida dos Estados, a um grupo de convidados não especializados no assunto e que integram o Conselho de Desenvolvimento Econômico sob o comando da secretária Oswana Fameli. Esse é o retrato do estágio de simplificação a que chegou a gestão petista.


 


Santo André é quase um doente terminal em competitividade industrial porque insistiu ao longo dos tempos em acreditar que o hino oficial do Município, que fala em “viveiro industrial” serviria como barreira às investidas da concorrência. O prefeito Carlos Grana e a secretária Oswana Fameli são até capazes de, ante um ou outro novo negócio na mais que provável profanada Avenida dos Estados, soltarem fogos de artifício. Eles perderam, isto é, se alguma vez tiveram, a noção do que significa artilharia real estruturada para o desenvolvimento econômico.


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