A partir desta edição o prefeito de Santo André chama-se Gilvan Ferreira. Gilvan Júnior foi desativado, independentemente do que ocorrer no futuro em forma de resultados. Por que, então, o ex-prefeito Paulinho Serra não virou Paulo Serra, como é tratado por toda a mídia, assim como Gilvan Ferreira, depois de a mesma mídia ter substituído o diminuto?
Simples: Paulinho Serra não conseguiu me convencer durante oito anos como prefeito de Santo André a ponto de merecer tratamento mais sóbrio embutido em Gilvan Ferreira. Por isso, e como não muda o disco de abusos, Paulinho Serra continuará sendo Paulinho Serra.
A explicação comporta mais que uma justificativa tanto para Gilvan Ferreira como para Paulinho Serra.
No caso de Gilvan Ferreira, desde 26 de março, quando conversamos durante duas horas, comecei a pensar na possibilidade de retirá-lo do diminutivo da dinastia familiar que lhe reservou o apêndice Júnior. Gilvan se mostrou um politico maduro, apesar de 33 anos de idade, prospectivo na disposição de mudar Santo André, meticuloso nos cuidados com que se manifestou sobre várias questões, humilde a ponto de não se apresentar como salvador da pátria e sobremodo articulado nas ideias, como se a docilidade e a simplicidade que transmite fosse a condenação tácita a discriminações daqueles que o observam com certo desdém.
DISCRIMINAÇÃO SOCIAL
Talvez este jornalista integrasse essa lista discricionária patética, porque somos muitas vezes levados a conclusões carregadas de contaminações que supervalorizam etiquetas sociais. Justamente este jornalista que desembarcou em Santo André aos 18 anos de idade não poderia cometer o crime de discriminação social mesmo que preliminar.
Talvez o que salva minha honra, porque os humildes sempre me despertam solidariedade, seja mesmo a imprecisão de me qualificar como discriminador, quando de fato o mais provável mesmo é que o viés cético com que exerço minha profissão e que vale para todos os agentes da sociedade fosse de fato o fator principal e único.
Talvez esteja, no fundo, no fundo, tentando limpar minha barra discricionária. Talvez houvesse reagido sem tanta desconfiança se Gilvan Ferreira fosse um concorrente do Paço Municipal repleto de condecorações acadêmicas ou mesmo que a dinastia familiar contasse com outra plumagem, não de quem veio do Nordeste. Aliás, do mesmo Nordeste de meu pai. É possível que tenha uma dívida a pagar a Gilvan Ferreira pela estupidez, sei lá.
PRESENTE ESPECIAL
O que sei e digo que sei é que o enxergo como um provável presente especial para Santo André no campo administrativo. Gilvan Ferreira tem a centelha dos líderes que parecem mais como coadjuvantes, até que lhes permitem manifestação.
Gilvan Ferreira pode até me decepcionar no futuro, porque tudo na vida é possível, mas não creio que passarei por essa frustração. Gilvan Ferreira mantém uma associação perfeita entre projeção de eficiência e compromisso com uma base técnico-organizacional que o levaria aos intentos.
Não há no dicionário comportamental de Gilvan Ferreira, aparentemente, nada que o descredencie como alguém disposto a fazer de Santo André um modelo administrativo muito acima da média dos antecessores após a morte do imbatível Celso Daniel.
Os leitores que me perdoem, mas não posso antecipar algumas investidas que introduzi na conversa deduas horas com Gilvan Ferreira, sobre a quais ele não refugou um centímetro. Poderia por conta disso produzir um relato mais substancioso que sustentaria a decisão de resgatá-lo do diminutivo hierárquico familiar, porque Júnior está ligado a Filho, a Neto, essas coisas que, cá entre nós, mantenho distância num equívoco pessoal porque cada família tem o direito de fazer o que bem entender de seus herdeiros.
MATERIAL FARTO
Fosse alguém disposto a provar qualquer coisa que lembrasse competência jornalística, já teria exposto desde aquele 26 de março uma porção de declarações de Gilvan Ferreira. O prefeito de Santo André não ficaria chocado com nada, porque não fizemos trato algum de manter tudo em sigilo.
A decisão é exclusiva deste jornalista porque tudo tem o tempo certo. Foi com base no que ouvi de exposição e que ouvi de argumentação que transformei Gilvan Júnior em Gilvan Ferreira. Demorei menos de um mês porque precisei acomodar a ideia num compartimento apropriado de mérito. No caso de Gilvan Ferreira, este jornalista era o único soldado do quartel midiático como o passo fora do compasso sobre o Paço de Santo André. Era preciso decantar e decifrar Gilvan Júnior até que fosse possível emergir Gilvan Ferreira.
Posso garantir aos leitores que não tratarei Gilvan Ferreira com qualquer privilégio, mas também não dedicarei a ele atenção a ferro e fogo. A explicação é simples: eventuais situações que Gilvan Ferreira se coloque em maus lençóis administrativos serão mais compreendidos mediante a base de informações que já armazenei sobre seus planos.
PARTE DO TODO
Vou dar um exemplo do quanto deverei ser mais cauteloso para não estigmatizar a gestão de Gilvan Ferreira por eventualmente não me satisfazer como jornalista. Ainda não engulo muito – e isso vale para todos os gestores públicos – o entusiasmo com determinadas medidas de governo, especialmente no rastro marqueteiro do antecessor Paulinho Serra. Mas devo compreender que não se trocam pneus de gestão e de imagem com o carro de relacionamentos políticos em fase de adaptação.
Trocando em miúdos: Gilvan Ferreira parece ou dá a impressão, quando não a certeza, de que na medida do possível terá a governança e a governabilidade ajustada a seus princípios, mas não faria nada sem testar cada movimento para que ao mesmo tempo em que se prove independente do antecessor, não crie ambiente de beligerância que entorne o caldo do equilíbrio do qual não parece abrir mão.
O que deverá de fato levar Gilvan Ferreira a escalar uma montanha de iniciativas para descolar-se dos administradores de Santo André que o antecederam é o que parece mais abundante em sua personalidade e nos objetivos traçados: retirar de Santo André o espectro de paralisia econômica explicitada em quase todos os indicadores como consequência natural da cumulatividade de passivos ao longo de pelo menos duas décadas.
MUITO MELHOR
Se não houver o que chamaria de desajustes da máquina pública de Santo André, naturalmente dividida entre o ex-prefeito e o atual prefeito, independentemente das relações entre eles após 15 meses de troca de comando, tudo indicaria que ao final dos quatro primeiros anos de administração Gilvan Ferreira colecionará dados mensuráveis, tecnicamente irrebatíveis, que constam de ranqueamentos sérios, muito acima dos dados herdados.
Quando escrevo sobre os quatro primeiros anos de Gilvan Ferreira não estou sugerindo que os eventuais adversários são perdedores por antecipação. Nada disso. A democracia tem regras claras, cristalinas, que precisam ser respeitadas. Da mesma forma que Paulinho Serra aproveitou-se bem da péssima gestão do petista Carlos Grana, abalroado pelo desastre chamado Dilma Rousseff, Gilvan Ferreira pode dar uma sova no antecessor com números econômicos, sociais e fiscais muito melhores, mesmo com apenas um mandato para tanto.
Sobre Paulinho Serra, acho que não vou escrever nada porque o necessário já foi escrito ao longo dos anos. Desconheço (mas vou me informar melhor sobre isso, garanto) como foi o processo que teve como desfecho a candidatura de Gilvan Ferreira para concorrer à Prefeitura com as bençãos do então titular do Paço Municipal. Sei lá o que se passou de fato entre aquelas paredes de poder. Certo é que não consigo compreender por que foram listados nove candidatos para substituir Paulinho Serra. Gilvan Ferreira entre eles, como se sabe.
ROMÁRIO EM CAMPO
Com todo o respeito aos demais, o vestibular proposto e levado a cabo até determinado ponto evoca uma possiblidade acima de todas as demais na área de gestão de recursos humanos: como não enxergaram que os nove candidatos do Paço eram um desperdício de oferta que ultrajava o bom senso porque entre eles figurava Gilvan Ferreira, então Gilvan Júnior?
Guardadas as devidas proporções, seria algo como um treinador de futebol contar com nove centroavantes para decidir quem seria escalado para uma decisão de campeonato e optar por qualquer um daquela leva que não fosse potencialmente alguém como Romário, o Rei da Área. Gilvan Ferreira é mais ou menos isso depois de acompanhá-lo atentamente mais ainda nos últimos tempos e, principalmente, depois daquelas duas horas de reunião. Um Romário discretíssimo e poderosíssimo na grande área do pragmatismo administrativo.
Gilvan Júnior constou de 135 textos desta revista digital, quer como protagonista, quer como figurante de análises deste jornalista. A primeira vez que Gilvan Júnior apareceu nestas páginas foi em 19 de outubro de 2023. No caso de Paulinho Serra, sem contar com esta edição, foram 1.021 análises, a primeira das quais em 19 de dezembro de 2007. Dez anos antes de assumir a Prefeitura.
Tanto Gilvan como Paulinho estão distantes dos registros de CapitalSocial em que aparecem Celso Daniel: são 2.020 textos ao longo dos anos. Paulinho Serra continuará sendo contabilizado como Paulinho Serra. Gilvan Ferreira vai se somar à herança de Gilvan Júnior quando por qualquer razão este jornalista decidir pesquisar este arquivo de mais de nove mil textos.
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15/04/2026 CLUBE DOS PREFEITOS É MARCA JORNALÍSTICA