Política

Teria chegado, finalmente, a hora
do Partido dos Empreendedores?

DANIEL LIMA - 15/07/2005

Na onda da navegação conceitual que fiz esta semana sobre o que é regionalidade reformista e o que é regionalidade tópica, sinto que há sensibilização dos leitores que se agarram a alguns mastros de esperança porque a borrasca atinge invariavelmente a todos. Em outros tempos reproduzia em newsletter específica os emeios a mim dirigidos. A racionalidade do tempo de que disponho me levou a agir diferente, mas nem por isso menos intensamente interessado no que afirmam interlocutores. Tenho recebido correspondências virtuais suficientes para saber distinguir anestesiamento generalizado de revigoramento localizado. O Grande ABC vive em larga escala sob efeitos do primeiro caso, mas há gente com vontade e interesse de reagir e colocar o trem nos trilhos.

 

Tive o cuidado de escrever "colocar o trem nos trilhos" em vez de "recolocar o trem nos trilhos" porque o que vivemos nos anos 1990 de profusão de novas instituições foi apenas um coito interrompido que não se opôs ao múltiplo orgasmo macroeconômico. Fórum da Cidadania, Consórcio de Prefeitos, Agência de Desenvolvimento Econômico e Câmara do Grande ABC, luzes daquele período de feérico regionalismo, não conseguiram superar a fase de intermitência, de acende e apaga de propostas e, principalmente, de ações.

 

O que sugeria grande espetáculo não sucumbiu às trevas completas, mas vivemos ambiente semelhante ao de casas de espetáculos que tratam a plástica feminina como primeiro, segundo e terceiro pontos mais importantes no mercado de opções de entretenimento.

 

Sempre que escrevo sobre o quarteto institucional que poderia amalgamar o verdadeiro capital social do Grande ABC tenho o cuidado de não generalizar fracasso. Nenhuma das instituições citadas ao menos chegou próxima do que a emergência socioeconômica da região exigia e exige, mas não podem ser colocadas igualmente no mesmo saco sem fundos de decepções.

 

Quarteto sem força

 

O Fórum da Cidadania há muito morreu, é verdade. A Câmara Regional viveu apenas alguns espasmos ainda quando Mário Covas era o governador e Celso Daniel não se dava conta de que estava jogando praticamente sozinho o clássico da regionalidade. O Consórcio de Prefeitos vai levando a vida não diria num chove nem molha porque seria muito cruel, mas ainda fora do encaixe de resultados de prioridades inadiáveis. A Agência de Desenvolvimento Econômico deu redirecionada de objetivos e carrega nos ombros responsabilidade dá qual parece se dar finalmente conta ao fazer com que os APLs (Arranjos Produtivos Locais) sejam a grande fonte inspiradora para salvar o que restou das pequenas indústrias da região.

 

Chegamos com mais de uma década de atraso na operação tapa-buraco da globalização, é verdade, mas nada pior do que a inação insensível e irrecuperadora.

 

Aos poucos sinto que aumenta o grau de decepções, principalmente de gente que pretende ver o Grande ABC diferente porque já não está mais preocupada com a própria individualidade, mas, mais complexo, com o que vai ser dos filhos que chegaram, dos netos que um dia virão, dos assaltos que não param, dos sequestros dissimulados, do morro que um dia pode invadir as áreas nobres porque hoje, muitos, já se isolaram da civilização, enfim de tudo que possa colocar ainda mais em risco a integridade e o futuro de quem aqui habita.

 

Entre esses loucos por um Grande ABC diferente e acalentador de transformações está o empreendedor Gilberto Wachtler, dono de um supermercado de médio porte na periferia de Santo André, atuante membro de entidades de classe da qual faz parte e um dos representantes da comunidade que levei para o Conselho Editorial do Diário do Grande ABC, além de ter presença de destaque no Conselho Deliberativo do Prêmio Desempenho, da Editora Livre Mercado.

 

Cadáver insepulto

 

Não é que Gilberto Wachtler numa noite dessas me liga para ressuscitar um cadáver que teve vida temporalmente curta, já que se tratava de uma bola que levantei para a comunidade marcar um gol de placa. Trata-se do Partido dos Empreendedores (PE) que um dia, lá atrás, em dezembro de 2000, sugeri na revista LivreMercado como fórmula de valorização de um ramal absolutamente esquecido pelos poderes constituídos.

 

Sim, o PE reuniria pequenos proprietários de negócios formais e informais que, de fato, jamais foram representados no organograma da política partidária nacional. O PL, como se sabe, é feito de figurões e os demais partidos viam e ainda vêem os pequenos empresários como massa de manobra, jamais como objetivo de preocupações que ultrapassem limites eleitorais.

 

Todos sabem ou deveriam saber que a política partidária jamais fez parte dos meus planos, mas nem por isso deixei de sugerir e defender aquela causa. Retomo o assunto por duas razões que se cruzam: além do telefonema do proprietário do Supermercado Primavera na noite de sexta-feira, o pré-candidato presidencial do PDT, professor Roberto Mangabeira Unger, enfatizou a questão na entrevista que reproduziremos na edição de agosto de LivreMercado. Interessante que o imbricamento de Gilberto e Mangabeira foi pura coincidência, já que não pretendia nem mencionar o assunto com Mangabeira. Foi o filósofo que discorreu sobre o tema.

 

Paralelamente à digitação destes parágrafos solicitei a companheiras de trabalho o resgate das matérias publicadas na revista LivreMercado sobre o Partido dos Empreendedores. A primeira na edição de dezembro de 2000 sob o título "Quem produz PT pode produzir PE". E a segunda, já com a repercussão da proposta, na edição de fevereiro de 2001, sob o título "É fazer PE ou seguir rumo ao matadouro".

 

Premonições? Qual nada! Pragmatismo, isso sim. Por isso, costumo desafiar supostos jornalistas que, pendurados em galhos frouxos de temáticas pontuais, são incapazes de ir além da obviedade e do descompromisso com mudanças.

 

Ao recolher dos arquivos digitais os dois textos, volto ao tempo também como teste pessoal de saber até que ponto os enunciados teriam sido resistentes aos fatos. Infelizmente, percebo que salvo a derrocada do PT nestes tempos de denúncias, tanto um trabalho como outro está perfeitamente atual. E providencial para quem pretender reiniciar a escalada do PE. Contem comigo. Menos, evidentemente, para qualquer coisa que signifique engajamento pessoal. Funções políticas e jornalísticas são inconciliáveis. Para o bem dos leitores. 



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