Política

Aécio e Marina derrubam dados do
DataDiário e tornam pesquisa inútil

DANIEL LIMA - 07/10/2014

Acabo de formatar planilha dos resultados previstos pelo DataDiário (ou DGABC Pesquisas), instituto criado pelo Diário do Grande ABC (com toda a opacidade possível) para desvendar o mundo político-eleitoral da Província do Grande ABC. Se a disputa à Presidência da República fosse equivalente a consultar uma cartomante, provavelmente o leitor jamais repetiria o gesto. O DataDiário fracassou redondamente porque em 62% dos resultados possíveis das disputas presidenciais deu-se mal.


 


Entretanto, há atenuantes que, a bem da verdade e da coerência, precisam ser expostos. A cartomancia do DataDiário tem contrapontos, portanto. E esses contrapontos podem servir para blindar os resultados caso se despreze a crítica como ferramenta contributiva.


 


Aécio Neves e Marina Silva derrubaram nas urnas de verdade as premissas de projeção de resultados expostos pelo DataDiário. O instituto que ninguém sabe como funciona porque nem o responsável principal pela metodologia vem a público expor ideias, propostas e análises, caiu do cavalo no mínimo por conta de nuances da disputa presidencial mais acirrada da história. Mas também pode ter sido por erros estruturais e metodológicos.  Vai ser difícil conhecer a verdade. 


 


Publicados na edição de sexta-feira, 3 de outubro, antevéspera do pleito, os dados do DataDiário foram recolhidos em campo entre segunda e quarta-feira daquela semana. Ou seja: não captaram os efeitos pouco explorados na sequência pela mídia metida a imparcialidades burras sobre o desempenho flagrantemente superior de Aécio Neves frente a Dilma Rousseff e a Marina Silva no debate da Rede Globo.


 


Como não foi a campo após o debate, o DataDiário permaneceu congelado e quebrou a cara. Talvez seja o caso de acertar os ponteiros às próximas disputas. Ou o DataDiário encurta a distância temporal entre o trabalho de campo, a publicação do material nas páginas do jornal e o dia das urnas, ou correrá sempre o risco de perder credibilidade. Se mantiver o conceito do cronograma exposto no primeiro turno destas eleições, terá a vantagem de se autoproteger de desclassificação sumária, porque, paradoxalmente, continuará com a defasagem dos dados como aliada sem correr o risco de, compactando as três etapas, mostrar as possíveis deficiências, sacramentadas em temporadas passadas.


 


15 erros em 24 alternativas


 


Dos 24 resultados possíveis à corrida presidencial, desdobrados dos números apontados pelo DataDiário e os efetivamente consumados nas urnas, 15 bateram com a cara na porta da imprecisão. A maioria por conta do avanço final pós-debate de Aécio Neves e da queda de Marina Silva. Foram contrapontos não só da atuação dos candidatos no debate da TV Globo como também de outros desenlaces pré-eleitorais.


 


É fácil entender a existência de 24 resultados interiorizados na disputa pela presidência da República na Província do Grande ABC. Somos sete municípios. Cada Município contou com três possibilidades de placar, um para cada concorrente de peso ao Palácio do Planalto. Três vezes sete significam 21 micro-resultados municipais.  Os outros três resultados sintetizam o desempenho individual final dos candidatos no conjunto dos sete municípios da Província do Grande ABC. Assim, chegamos a 24 resultados. O DataDiário acertou nove e errou 15.


 


Em Santo André, o DataDiário errou feio, muito longe da margem de erro de dois pontos percentuais para cima ou para baixo, no resultado final de Dilma Rousseff. A petista contava com 35,06% dos votos válidos do DataDiário na pesquisa publicada em 3 de outubro. Nas urnas de verdade, de 5 de outubro, ficou com 27,64%. Os votos a Aécio Neves chegaram a 36,26% três dias antes, segundo os entrevistadores do DataDiário. E registraram 40,70% nas urnas eletrônicas.  Já Marina Silva manteve em Santo André trajetória coerente com o quadro nacional: no DataDiário contava com 32,66%, mas caiu para 25,86%. No placar de Santo André, portando, um acerto e dois erros do DataDiário.


 


Vitória prevista de Dilma


 


Em São Bernardo, o placar se repetiu com duas derrotas e uma vitória do DataDiário. O sucesso foi consumado na votação da petista Dilma Rousseff: foram 36,24% pelo DataDiário e 32,79% nas urnas. Aécio Neves e Marina Silva produziram estragos: Aécio contava com 23,96% no DataDiário e obteve 36,25% nas urnas. A ambientalista saiu de 33,65% nas páginas do Diário para 25,23% do eleitorado oficial.


 


Em São Caetano, o DataDiário contabilizou três erros e, com isso, aumentou a carga de passivo regional. O instituto previu 21,06% de votos válidos a Dilma Rousseff. As urnas deram apenas 14,90%. Um erro crasso, dada a estabilidade eleitoral da candidata petista. Já em relação a Aécio Neves o DataDiário previa 41,90% dos votos válidos. As urnas deram 60,05%. Também um excesso de diferença. Com Marina Silva os estragos foram semelhantes: dos 28,47% dos votos previstos pelo DataDiário, a candidata caiu para 18,93%.


 


Em Diadema, o DataDiário acertou nos números de Dilma Rousseff, mas se deu mal nos demais. A previsão de que a presidente teria 39,29% dos votos válidos foi praticamente avalizada pelos 41,18% das urnas. Com Aécio Neves a diferença foi abissal: o DataDiário projetou 16,94% dos votos válidos e o tucano alcançou 25,51%. Marina Silva também se deslocou demais da margem de erro ao passar dos 38,23% anunciados pelo DataDiário para os 27,52% das urnas.


 


Ponto positivo com Marina


 


Também em Mauá os erros do DataDiário prevaleceram. De novo, dois a um de passivo. O acerto, acreditem, foi configurado na votação de Marina Silva. Dos 40,56% projetados pelo DataDiário, consolidaram-se 36,54% nas urnas. Por incrível que pareça, a ambientalista não foi afetada, em Mauá, pelos estragos provocados pela desconstrução de imagem deflagrada pelos marqueteiros de Dilma Rousseff durante duas intensas semanas. Se acertou com Marina, o DataDiário errou nos outros dois candidatos em Mauá: Dilma Rousseff teria 38,06% dos votos pelo DataDiário, mas caiu nas urnas reais para 30,94%; Aécio Neves saiu de 18,53% e alcançou 27,19%.


 


De novo o placar negativo de dois a um se repetiu em Ribeirão Pires. O DataDiário previu acertadamente 27,82% dos votos válidos à petista, e as urnas lhe deram 27,19%. Já os 22,54% de Aécio Neves viraram 36,56% nas urnas. Marina Silva desabou muito além da conta média no País: caiu dos 44,96% projetados pelo DataDiário para 29,84% nas urnas.


 


Completando o quadro regional de resultados municipais, em Rio Grande da Serra o DataDiário acertou os três resultados possíveis: os 38,68% de Dilma Rousseff viraram 36,78% nas urnas. Os 21,18% projetados para Aécio Neves foram 26,65% nas urnas e os 36,80% a Marina Silva se consolidaram em 31,18% nas urnas.


 


Resultado final na região


 


Os três resultados que faltam, e que formam o macroresultado final do primeiro turno presidencial na Província do Grande ABC, contabilizam um acerto e dois erros do DataDiário: Dilma Rousseff saiu de um patamar virtual de 34,22% dos votos para 33,02% nas urnas. Aécio Neves saiu de 25,5%% e chegou a 37,82%. Marina, desidratada, caiu dos 34,5% projetados pelo DataDiário para os 29,00% das urnas.


 


A dificuldade em preparar uma análise mais consistente dos resultados do DataDiário, contextualizando-os ao momento de manifestação dos eleitores aos entrevistadores, se deve ao fato de que nenhum outro instituto cavoucou especificamente a geografia regional em busca de algo semelhante. Por isso, o que referencia complementarmente as abordagens que preparei são os resultados do Ibope e do Datafolha em nível Brasil. Utilizei os dados prospectados pelos dois institutos em período semelhante ao que levou os entrevistadores do DataDiário às ruas.


 


A dissonância do confronto do DataDiário com o Ibope e o Datafolha é que o instituto do Diário do Grande ABC não registrou o solavanco na votação de Dilma Rousseff. Já os resultados finais das urnas de verdade, quando contrapostos às projeções de antevéspera da disputa pelo Ibope e Datafolha, guardam relação com os resultados gerais apontados pelo DataDiário na região para o desempenho de Aécio Neves e de Marina Silva.


 


A previsão do Ibope na antevéspera das eleições era de que Dilma Rousseff obteria 47% dos votos. O resultado das urnas apontou 41,6%. Portanto, fora da margem de erro de dois pontos para mais ou para menos. Já o Datafolha acertou praticamente em cheio na votação da candidata à reeleição, porque projetara 45%.


 


PT mais consolidado


 


Convém uma explicação mais que sustentável ao desempenho estável de Dilma Rousseff na Província do Grande ABC em relação aos números apontados pelo Ibope e pelo Datafolha: a região é estruturalmente mais petista que a média nacional e, portanto, menos suscetível a solavancos. O DataDiário confirmou essa realidade.


 


Já nos votos contabilizados pelo tucano Aécio Neves, tanto o Ibope como o Datafolha seguiram a carruagem de surpresas. Pelo Ibope, Aécio passou dos 22% virtuais para 33,5% reais, enquanto o Datafolha saiu dos 21% virtuais aos 33,5% reais.


 


A queda acentuada de Marina Silva nas urnas em relação aos números projetados pelos institutos de pesquisa não foi corroborada pelo Datafolha daquela antevéspera das eleições: o instituto ligado ao jornal Folha de S. Paulo apontava 24% dos votos à candidata, já detectando paralisia por conta da pancadaria petista antes do debate da TV Globo, e as urnas apontaram 21,3% desclassificatórios ao turno final. O Ibope errou novamente, porque previra 28% dos votos a Marina Silva contra os 21,3% consumados.


 


Perguntaria o leitor a razão de os trabalhos do DataDiário terem se tornado inúteis para efeito de orientação aos eleitores que encontram nas pesquisas eleitorais espécie de bússola à definição ou avaliação do quadro eleitoral. A resposta é simples: tanto o Ibope quanto o Datafolha, em pesquisas renovadas que se seguiram à publicação, detectaram o movimento de crescimento de Aécio Neves e, como, no caso mais específico do Datafolha, de debilidade de Marina Silva, embora sem a convicção que já parecia consolidada entre boa parte do eleitorado.


 


O envelhecimento precoce dos dados do DataDiário é algo a ser repensado neste segundo turno. Isso, é claro, se o Diário preferir correr o risco de eventualmente enfrentar a verdade das urnas sem contar com o respaldo da defasagem do tempo protetora dos resultados do primeiro turno. 


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