A pequena Paulínia, na Região Metropolitana de Campinas, é superlativa em gastos públicos. Espécie de principado petroquímico, a gestão dos recursos que Paulínia amealha ofende a sensibilidade e o bom-senso de quem vive nos principais municípios das regiões metropolitanas. Há muito destacamos os privilégios arrecadatórios de Paulínia, bafejada pela sorte de contar com uma indústria petroquímica de alta geração de tributos que, na malfadada distribuição do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), lhe confere a liderança absoluta no repasse por habitante.
Por isso mesmo, com as facilidades que a legislação lhe permite, Paulínia se dá ao desfrute de um gerenciamento minimamente rigoroso de recursos dos contribuintes. É uma terra encantada na profusão de dinheiro público acessível ao perdularismo. Mais que isso: é um reduto de desbunde total.
A Folha de S. Paulo de domingo publicou matéria que exibe obras faraônicas em Paulínia. A reportagem só não conseguiu explicar como aquele endereço pode se dar a tamanho luxo em meio à crise que atinge a quase totalidade das cidades brasileiras. Uma consulta aos dados do IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos), aos acervos de artigos do portal que disponibilizamos aos internautas e aos artigos desta newsletter teria matado a curiosidade do público. Paulínia é um caso típico de que quem arrecada mais gasta muito mais no universo das administrações públicas. Só nega esse enunciado quem prima pela teimosia combinada com ignorância.
Alguns trechos da matéria da Folha de S. Paulo de domingo e que merecem destaque para o entendimento integral deste artigo, que completamos na sequência:
A Prefeitura de Paulínia (126 km de SP) vai gastar com obras de revitalização do centro e as construções de uma rodoviária-shopping e de um novo portal temático na entrada da cidade R$ 153 milhões, quase o total gasto em um ano com as secretarias de saúde e educação ou cerca da metade do Orçamento previsto para 2004. Só com a obra do manto de cristal -- espécie de pirâmide de vidro que encobrirá a Igreja São Bento --, serão gastos R$ 98 milhões. A saúde, considerada área essencial do governo, tem disponível para 2004 R$ 50 milhões. (...) A obra da rodoviária-shopping já está em fase de conclusão e custou R$ 55 milhões aos cofres públicos -- R$ 10 milhões a mais que o Orçamento anual da Prefeitura de Nova Odessa, cidade do mesmo tamanho de Paulínia. Além da rodoviária, o local abriga um complexo de 60 lojas, hipermercado, salas de cinema e café-bar. Outra obra que começa ainda neste semestre será a construção de um novo portal para a entrada da cidade, que custará R$ 1,4 milhão. Paulínia já tem quatro portais temáticos nas principais vias de acesso: medieval, futurista, colonial e harmonia. O novo portal será o egípcio, com custo de R$ 1,4 milhão. Ele terá duas colunas laterais e uma central, com imagem egípcia. O valor investido na construção do novo portal é bem superior ao que deverá ser investido neste ano no departamento de gestão ambiental da cidade: R$ 890 mil. A inspiração para realizar e desenvolver tais obras é fruto da imaginação do próprio prefeito, Edson Moura (PMDB), segundo sua assessoria de imprensa: "Ele imagina e cria todas as suas obras. É um inventor. Ele passa tudo rascunhado detalhadamente para o arquiteto, que só coloca a idéia do prefeito no papel", conta o presidente da Câmara, Jaime Donizete Pereira (PMDB), afilhado político do prefeito.
(...) Com 51 mil habitantes, o município tem um déficit de 3.500 moradias. Pelo menos quatro bairros não têm asfalto. Há um déficit de 500 vagas nas creches. Todo esgoto do Município é despejado sem tratamento no Rio Atibaia" -- escreveu a Folha de S. Paulo.
Posição justificada
Não é à toa que Paulínia ocupa o último lugar entre os municípios paulistas economicamente mais importantes pesquisados pelo Instituto de Estudos Metropolitanos quando o assunto é qualificação administrativa. O IEM (Índice de Eficiência Municipal) criado pelo IEME coloca Paulínia em 55º lugar entre os 55 municípios inicialmente pesquisados, já que a partir deste ano serão os 75 principais. Não é para menos a rabeirinha de Paulínia. Os gastos são um deboche ao estado de penúria em que se encontra a maioria dos municípios metropolitanos.
No Legislativo, segundo dados de 2002 (os números de 2003 ainda não estão disponíveis no Tribunal de Contas do Estado), Paulínia superou todas as expectativas ao atingir um custo por habitante de R$ 251,69. Esse é o resultado da divisão das despesas dos vereadores locais (R$ 13.927.289) pela população supostamente atendida. Não há indicador mais ajuizado do que o proposto e aplicado pelo IEME. A divisão do custo do Legislativo pela população mostra até que ponto há parcimônia ou dissidia no uso do dinheiro público. Franca, a primeira do ranking em 2002, gastou apenas R$ 8,73 por habitante para sustentar a máquina legislativa. Cubatão, na Baixada Santista, um outro primor em matéria de exageros, ficou na penúltima colocação e bem distante da insuperável Paulínia, com gasto por habitante de R$ 107,14. No Grande ABC quem mais lubrifica a gastança da Câmara de Vereadores é São Caetano, antepenúltima no ranking do IEME: são R$ 68,93 por habitante.
Para se ter idéia do quanto Paulínia desperdiça com o Legislativo, nada mais provocativo -- mas também elucidativo -- do que projetar o quanto significa a despesa da Câmara Municipal se aquele Município da Grande Campinas tivesse a amplitude demográfica da Capital. Multiplicando o custo per capita pelos 10,4 milhões de paulistanos, Paulínia teria consumido R$ 2,4 bilhões em 2002.
Quem gasta além da conta com a manutenção dos legislativos não perde a oportunidade histórica (sim, se trata de vícios antigos que se renovam e se retroalimentam conforme o perfil dos novos eleitos) de levantar a bola do desperdício também nos gastos com o funcionalismo público do Poder Executivo. Não é coincidência que Paulínia também é lanterninha nos dispêndios com o funcionalismo da Prefeitura. Em 2002 foram gastos R$ 133,9 milhões. O valor médio por habitante atendido ultrapassa a R$ 2 mil na temporada. Um acinte. Dez vezes maior em população, Santo André gastou com o funcionalismo do Executivo R$ 191,5 milhões, ou seja, 30% mais que Paulínia. Três vezes maior, São Caetano gastou um pouco menos em valores absolutos que Paulínia: R$ 115 milhões. Qualquer confronto que se estabeleça com aquele principado petroquímico, mais resplandecerá a insânia administrativa aquecida por uma legislação disforme de repartição de ICMS sobre a qual ninguém na esfera legislativa e executiva ousa reformular.
Com tantos repasses automáticos, Paulínia só poderia mesmo tratar os contribuintes locais com facilidades imensas. O valor médio do IPTU a coloca entre as últimas colocadas no ranking do IEME. Não é por outra razão que, no conjunto de resultados do Índice de Eficiência Municipal, o principado de Paulínia está pendurado na última colocação. Fácil de entender porque o prefeito não foi encontrado pela repórter da Folha de S. Paulo. Mesmo que nenhuma dessas informações sobre a gênese das aberrações gerenciais de Paulínia tenha sido publicada.
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26/01/2026 VEJA A SELEÇÃO DO PREFEITO PERFEITO