Administração Pública

Marinho terceiriza comando do
Paço. Como a CUT vai reagir?

DANIEL LIMA - 28/04/2015

Se a CUT levar a ferro e fogo a disposição de bloquear a terceirização no mercado de trabalho, certamente terá de atacar o prefeito Luiz Marinho. O petista, que já presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, sob forte influência cutista, há muito terceirizou a chefia de governo de São Bernardo. A titular, ou primeira ministra, é sua mulher, Nilza de Oliveira, discípula da até outro dia ministra Miriam Belchior, hoje presidente da Caixa Econômica Federal. 


 


Que Nilza de Oliveira exerce forte influência na gestão de Luiz Marinho todo mundo sabe, inclusive ou principalmente os secretários municipais, que comem o pão que o diabo amassou. Mas que comandasse para valer São Bernardo é outra coisa. E comanda porque Luiz Marinho está preocupado em fortalecer alianças para concorrer ao governo do Estado.


 


Há inclusive entre os opositores partidários de Luiz Marinho a definição de um conceito sobre o petista que o retira da marginalidade administrativa com que sempre foi observado e o coloca num patamar diferenciado quando se leva em conta outras platitudes. Marinho seria tão medíocre como gestor público como respeitável como articulador político. Ou seja: é uma espécie de caricatura do ex-presidente Lula da Silva, que o protege em todas as instâncias de poder.


 


Sobretudo porque conta com as costas largas do ex-presidente, Luiz Marinho é o principal interlocutor do governo federal petista no Estado de São Paulo. Os próprios adversários políticos reconhecem a influência do ex-metalúrgico.


 


Talvez o exemplo mais bem acabado do quanto Luiz Marinho frequenta o Palácio do Governo, mesmo não estando pessoalmente lá com muita constância, é o projeto Gripen, de RS$ 5,4 bilhões, do qual participou ativamente sempre tendo a tiracolo o estranhíssimo advogado Edson Asarias, representante oficial de uma empresa, a Inbra, que virou sócia de empreendimento com a multinacional Saab.


 


O Luiz Marinho bom de articulação e ruim de administração não é uma dualidade vista apenas pelos opositores locais. Os próprios petistas reconhecem que Luiz Marinho é um prefeito trabalhador sem grande inspiração. Não à toa deu com os burros nágua em vários empreendimentos. O anedótico Aeroportozão é um dos projetos falidos entre outros motivos porque Luiz Marinho não tem a dimensão exata entre realidade e idealização. No campo político ele se dá bem porque a força do dinheiro e do prestígio costuma aproximar realidade de idealização. Ou seja: o grau de subjetividade é o combustível que move a candidatura de Luiz Marinho a outros cargos. A materialidade de obras físicas depende demais de planejamento. E se complica ainda mais quando uma Operação Lava Jato surge no horizonte.


 


Aliás, a Operação Lava Jato já chegou tangencialmente à Província do Grande ABC. Várias ramificações já foram detectadas e outras certamente emergirão. O Polo Petroquímico de Capuava é um dos centros de investigações da força-tarefa federal. A gráfica dos metalúrgicos e dos bancários é outra. A Tomé, empresa prestadora de serviços à Petrobras com sede em São Bernardo e proximidade com o Paço Municipal, integra a lista negra da estatal.


 


Outras falcatruas já teriam sido localizadas. Inclusive o projeto do caça sueco Gripen, sob investigação do Ministério Púbico Federal. Isso sem contar as facilidades que a gestão Marinho dedica ao mercado imobiliário, sobretudo ao megaempresário Milton Bigucci, ex-inimigo dos petistas e hoje o maior parceiro regional da Caixa Econômica Federal. Onde Milton Bigucci coloca os pés tudo pode acontecer.


 


A Central Única dos Trabalhadores deveria investigar a terceirização do mandato de Luiz Marinho à frente da Prefeitura de São Bernardo. Não se sabe se a agenda oficial do prefeito espelha a realidade dos fatos nem há notícia de que os adversários do prefeito tenham instalado sorrateiramente uma tornozeleira eletrônica para seguir seus passos e comprovar que o gabinete ao qual foi eleito para um segundo mandato é apenas um simbolismo da titularidade da qual abriu mão.


 


Mandachuva mesmo


 


Certo mesmo é que Nilza de Oliveira virou mandachuva sem limites porque também são ilimitadas as andanças do prefeito que quer virar governador a qualquer preço. Nem a desratização da Petrobras teria força suficiente para conter os passos de quem não ocupa o Paço para valer. A engrenagem petista, a mando de Lula da Silva, já apontou a direção que o partido tomará.


 


Se realmente concorrer ao governo do Estado, Luiz Marinho terá série de contrariedades e adversidades a enfrentar. A maior certamente é a facilidade que ostenta em produzir rotina de declarações que contrariam o bom senso, quando não estapafúrdias.


 


Se entre os metalúrgicos e mesmo na Província sem mídia de massa e com poucos profissionais de imprensa dispostos a lhe oferecer resistência em nome da democracia Luiz Marinho sofre poucos percalços, quando o buraco for mais embaixo e contemplar mídia mais intolerante a bobagens, tudo pode ser alterado.


 


Muitos acabarão por descobrir que a presidente Dilma Rousseff tem um sério competidor como gestora, embora a mandatária (mandatária?) não faça a Luiz Marinho sequer cócega em matéria de destruição e de conquista de opositores na selva dos bastidores da política. Seus antagonistas reconhecem as facilidades que o guarda-chuva lulista proporciona, mas advertem que o ex-sindicalista excede-se nas iniciativas a ponto de fechar portas que agentes públicos mais habilidosos costumam deixar entreabertas. Nada, entretanto, que a força econômica não trate de minimizar. Ou seja: tem-se eficácia, não eficiência.


 


Os oposicionistas políticos não caíram na gandaia triunfalista de acreditar que o novo escândalo envolvendo o PT, com tentáculos regionais visíveis e a aparecerem, liquidou com as pretensões de manutenção da Prefeitura de São Bernardo pelo grupo de Luiz Marinho. Há confluência de avaliações que podem ser resumidas sem sofisticações de eventuais especialistas: a Operação Lava Jato não chegará com a intensidade desejada e potencial principalmente a São Bernardo a tempo e a ponto de afetar os mecanismos de financiamento eleitoral do candidato que o Paço Municipal escolher.


 


Restaria saber se o fluxo de investimentos de terceiros, provavelmente bem mais discreto, seria suficiente para conter essa nova maré antipetista, sempre muito mais forte nas regiões metropolitanas.


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