Esportes

Uma data histórica para
o futebol do Grande ABC

DANIEL LIMA - 30/06/2004

Vai lá, Santo André. Dê mesmo uma de Davi contra Golias. Que importa que são mais de 70 mil rubro-negros  fanáticos contra menos de um milhar de andreenses corajosos? Hoje, paradoxalmente, somos a maior torcida do Brasil. Afinal, só mesmo os flamenguistas e eventuais caetanenses fanáticos não vão estar no bico de cada chuteira quando o gaúcho Carlos Eugênio Simon der o primeiro apito. Quando a bola rolar no Maracanã lotado, o coração vai dar sobressaltos. Estamos preparados para o vice-campeonato. Será uma honra para quem sabe o quanto o Santo André sofre nesse modelo em que futebol virou grande negócio, quando não grandes negociatas. Mas estamos muito mais preparados mesmo para o título. Ou será pura ficção que sempre que a equipe foi chamada a enfrentar contratempos saiu-se muito bem? Palmeiras e XV de Novembro que o digam. E o Campinense no ano passado?

 

A grande vantagem que temos nesse confronto tão desigual é que todos atribuem favoritismo ao adversário. Nada mais interessante. Afinal, o Flamengo joga em casa, tem tradição, tem camisa, tem torcida, tem a Globo a nos tratar como argentinos em confrontos com nosso escrete canarinho, tem um calendário da Libertadores a inflar as receitas das transmissões televisivas. É o Flamengo que tem a obrigação de vencer, embora o empate, conforme o empate, lhe baste.

 

Quem, por isso mesmo, será capaz de acreditar que o Flamengo não sentirá a responsabilidade de buscar a vitória embora vários tipos de empate lhe sirvam ao título? Com aquela massa fanática a empurrá-lo ao ataque, não estão fora do razoável uns contragolpes fatais. Se o Santo André acertar o passe, o lançamento, o ritmo, as triangulações, não haverá Flamengo nem torcedores que resistirão. A engenhosidade sempre supera o voluntarismo. E o Flamengo é um time de massa que se move pelo coração e pela transpiração. Haveremos de superá-lo com paixão e racionalidade.

 

Se o Santo André que entrar em campo no Maracanã for o mesmo time obediente, disciplinado, criativo e recheado de guerreiros da semana passada no Parque Antártica, não haverá força da natureza que impedirá o grito de campeão daquelas algumas centenas de torcedores que estarão comprimidos nas arquibancadas. Os primeiros minutos são decisivos para colocar o equilíbrio emocional no devido lugar e impedir ataque de nervos que embaralhe a coordenação motora, que dilacere o senso coletivo.

 

Aqueles 12 pontos que nos roubaram na Série B do Campeonato Brasileiro são a prova provada de que não nos respeitam na hierarquia do futebol, mas que, queiram ou não, no velho estilo zagaleano, vão ter que nos engolir. Alguém é capaz de imaginar que se fosse qualquer um dos grandes clubes aquele tribunal dispensaria tamanho desdém e autoritarismo? Pois que os jogadores do Santo André, sem perder a serenidade, pensem nisso a cada lance que disputarem esta noite.

 

Ainda há uma conta a ser acertada com a CBF. Com juros e correção monetária. Nada melhor que perto de 80 mil testemunhas no local e dezenas de milhões na televisão para reverenciar esse time de anônimos que resgataram o prazer do futebol ofensivo, que surpreenderam todos que o imaginaram apenas bom de cabeça, em jogadas aparentemente previstas, em gols programados. Enchamos o Flamengo de gols inesperados outra vez.

 

Que o time não se descuide jamais. Que não subestime nenhuma jogada, por mais aparentemente favorável que pareça se apresentar. Que não deixe livre um Felipe malabarista e cavador de faltas sempre perigosas. Que olhe para a camisa rubro-negra com respeito mas sem temor. Que não perca de vista a certeza de que para a mídia mais comprometida com audiência e negócios aqueles 11 atletas de azul e branco são apenas figurantes de uma festa preparada para o badalado Flamengo. A condição de coadjuvantes é ideal nessas ocasiões, porque eles costumam roubar a cena e terminar como heróis.

 

Em condições normais, em que, como se encontra o Santo André, a corrida contra o relógio seria uma tormenta, porque quem precisa pelo menos empatar por dois gols é o visitante, tudo estaria favorável ao time da casa, da torcida. Mas nesta noite não. O Santo André joga sem o peso da obrigatoriedade de sair campeão. Os ponteiros do relógio vão levar cada jogador adversário à tensão absoluta. Por mais que um eventual empate sem gols ou mesmo de um gol para cada lado se afigurar favorável ao Flamengo, será ao Santo André que beneficiará, porque o tempo vai se incumbir de demarcar claramente o território emocional dos competidores. Quem tem a perder num Flamengo e Santo André será sempre o Flamengo. Essa é a grande equação tática e estratégica desta noite.

 

Que o Santo André tenha a humildade de reconhecer sua modéstia. E que faça da condição de figurante a armadura da inviolabilidade rumo à consagração nacional. Que 30 de junho entre para a história do Grande ABC. Aliás, já entrou. Não faltarão comemorações. 



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