Depois de disputarem o mais importante e também o mais sofrível clássico da história, o que será de Santo André e São Caetano em tempos diferentes? O Santo André empatou de zero a zero o jogo disputado no Estádio Anacleto Campanella sábado à tarde e agora vai enfrentar o Barretos na semifinal do Campeonato Paulista da Série B, quando, se superar o adversário, garantirá espaço na elite do futebol paulista. O São Caetano perdeu pela terceira vez seguida a possibilidade de acesso e agora pode ter o futuro comprometido com provável desmanche da equipe montada no ano passado, porque não terá calendário de jogos do circuito brasileiro no restante da temporada. Disputar a Copa Paulista, que dará vaga à Série D do ano que vem, não parece seduzir o São Caetano. E mesmo que seduza, provavelmente a equipe será reestruturada para encaixar receitas e despesas.
O futuro imediato do Santo André, em forma de dois jogos com o Barretos, é enorme interrogação. Até que ponto o técnico Toninho Cecílio vai manter o milagre de alcançar resultados extraordinários com uma equipe tão frágil? O empate com o São Caetano repetiu os confrontos anteriores que levaram o Santo André à semifinal do campeonato: muita transpiração, dedicação total à marcação e uma objetividade desafiadora de sempre contar com uma bola parada ou um chute lotérico para superar o adversário.
Treinador é diferença
O treinador é a grande força de curto prazo do Santo André, clube em crise financeira que mal consegue pagar salários dos jogadores. Não fosse a liderança do técnico, com o custo natural de centralizar todas as expectativas da equipe, mesmo que para isso crie embaraços fora do gramado, o Santo André não teria resistido às intempéries.
O aspecto motivacional, que tira leite de pedra de jogadores muito abaixo do que se poderia esperar de um aspirante ao acesso, pode render mais frutos porque não existe na Série B uma equipe irremediavelmente muito superior a outra. O Batatais, um dos semifinalistas, também vive às voltas com salários atrasados. Torcedores têm de recorrer à vaquinha nas arquibancadas, durante os jogos, para arrecadar dinheiro.
O São Caetano é prova latente de que não há diferença abissal entre os classificados inicialmente ao mata-mata. Melhor campanha da fase inicial, perdeu a disputa para o Santo André entre outras razões porque não tem no banco de reservas um treinador capaz de surpreender, como Toninho Cecílio surpreende no Santo André. A previsibilidade de atuação do São Caetano contribuiu para que Toninho Cecílio amordaçasse o adversário nos dois jogos.
Mesmo que para isso tenha abdicado quase que completamente do ataque no clássico de sábado. O Santo André se comportou como time pequeno. E o São Caetano esteve longe de parecer grande. O rótulo de pior jogo da história entre as duas equipes não é exagero. O glamour da disputa de uma vaga à semifinal da competição talvez tenha elevado o potencial crítico de análises, mas o jogo pendeu o tempo todo à fragilidade.
Baixa produtividade
Os seis quesitos listados como preponderantes em qualquer jogo de futebol foram quase que completamente desprezados no clássico de sábado. São Caetano e Santo André fizeram muito pouco para justificar a condição de classificados à fase de mata-mata da Série B. Muito abaixo mesmo dos demais jogos, que encaminharam classificações de Barretos, Mirassol e Batatais.
Um clássico mequetrefe, na verdade. O São Caetano foi incompetente para transformar posse de bola em gols e o Santo André igualmente incompetente para transformar defensivismo em estratégia contragolpista.
Vejam como foi o comportamento das duas equipes levando-se em conta os vetores principais de um jogo de futebol:
Arranjo tático – O técnico Luiz Carlos Martins preferiu não correr nenhum risco quando escalou a mesma base tática do São Caetano dos fracassos anteriores, na reta de chegada da Série B do Campeonato Paulista no ano passado e na disputa do mata-mata da Série D do Campeonato Brasileiro que veio a seguir, sendo eliminado pelo Botafogo de Ribeirão Preto: optou por dois volantes de contenção que raramente se lançam ao ataque. Sobram equipes no futebol mundial que já abandonaram pelo menos um volante de contenção, enquanto outros já o fizeram com ambos. Volantes demais significam criação de menos. E criação de menos se submete mais docilmente a adversários que marcam forte no campo de defesa. Como fez o Santo André que, mesmo sem três titulares de marcação, casos do zagueiro Diogo Borges e dos volantes Dudu e Thiago Ulisses, não abriu mão do defensivismo, na esperança de ganhar o jogo no contragolpe. Sorte do São Caetano que o adversário não contava com uma opção sequer de velocista para puxar contra-ataques. Garré, que poderia ser uma boa alternativa, ficou todo o tempo correndo atrás do lateral Bruno Recife. O erro estrutural do São Caetano, um time sem apetite declarado para fazer gol, tornou a tarefa do Santo André menos complicada.
Posse de bola produtiva – Nem São Caetano nem Santo André fizeram um jogo em que a posse de bola fosse instrumento inicial ao dinamismo coletivo. O São Caetano teve praticamente quase todo o jogo sob controle, mas sem usufruir condição para aniquilar o adversário. Trocar passes lateralmente e também de forma previsível, geralmente com viradas de jogo para as tentativas de penetrações dos laterais Grafite e Bruno Recife, se tornou uma ação manjada. Afinal, mesmo com o Santo André deficiente na interrupção, não causou estragos porque os zagueiros de área, sempre auxiliados pelos meio-campistas, tratavam de aliviar porque estavam sempre em maioria na grande área. O Santo André só teve algum poder de organização tática ofensiva a partir dos 20 minutos do segundo tempo, quando começaram a fazer efeito o desespero do São Caetano e a paciência de troca de passes do adversário com a entrada no intervalo de Luciano Sorriso no lugar do inútil centroavante Trípodi. Mas o Santo André não soube aproveitar duas avançadas com rapidez porque faltou qualidade técnica a Garré.
Alta intensidade – Nem Santo André nem São Caetano atuaram com velocidade de transposição dos setores do campo. Principalmente o São Caetano, dono da posse de bola na maior parte do jogo, a morosidade facilitou sobremaneira a arrumação defensiva de um adversário que poucas vezes se organizou para engatar contragolpes. Para um time que jogava em casa e precisava da vitória, o São Caetano foi uma decepção também nesse quesito. Raramente houve avanço para pressionar para valer a saída de bola do Santo André. No segundo tempo, quando o relógio indicava que o empate se cristalizava, o São Caetano passou a deixar espaços na linha intermediária para os contra-ataques do Santo André que, reticente, pouco aproveitou. Não se pode confundir intensidade verticalizada com suposta intensidade na troca de passes. O São Caetano trocou muitos passes, mas, com os dois meias-atacantes bloqueados pelos volantes do Santo André e com o centroavante Jô visivelmente fora de ritmo, além de submetido a dupla marcação e com baixa mobilidade, as infiltrações se tornaram raras.
Compactação espacial – O Santo André foi mais efetivo na compactação espacial, embora só tenha se dedicado a isso no setor defensivo. Um bloco envolvendo quase sempre todos os jogadores, a partir da linha intermediária defensiva, fez do Santo André uma montanha de pernas que avançavam sobre os laterais, meias atacantes e o centroavante do São Caetano, principalmente. Sem o incômodo de tentativas sistemáticas de pelo menos um dos volantes do São Caetano, o Santo André fez da trincheira defensiva um monobloco intenso. O São Caetano contava com distribuição tática mais completa, tanto para marcar quanto para defender, mas o desenho lógico observado dentro de campo seguia receituário previsível, sem grandes ambições práticas no campo ofensivo.
Alta mobilidade – As duas equipes fracassaram no quesito mobilidade porque escolheram ferramentas antiquadas demais: o Santo André se preocupou o tempo todo em se proteger, enquanto o São Caetano se movia em campo com a lentidão característica de quem sugere ao torcedor que se prepare porque as oportunidades de gols que poderiam ser construídas seriam escassas. A mobilidade defensiva do Santo André e a mobilidade ofensiva morosa do São Caetano deram o tom a um jogo em que a jogada seguinte estava mais que desenhada aos olhos do torcedor mais desatento, numa repetição constante e enfadonha.
Equilíbrio emocional – Surpreendentemente o jogo não teve conotação dramática nas disputas individuais e tampouco no coletivo. A temperatura não ultrapassou os limites de uma decisão civilizada. A autoridade do árbitro pesou no comportamento dos jogadores. O Santo André não se perdeu na ânsia de segurar o zero a zero a qualquer custo e o São Caetano pareceu menos elétrico do que se recomendaria a quem contava com o apoio da torcida. Houve poucas jogadas ríspidas, catalogadas como excesso na determinação de alcançar o resultado pretendido. Em Santo André o ambiente foi mais abrasivo.
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