Política

Eleições sem
efeitos especiais

DANIEL LIMA - 05/04/1998

Já começou a temporada de promessas. Em ano eleitoral, político ou candidato a tal que não carregue na algibeira fórmulas miraculosas para males os mais distintos é como soldado fora do compasso. Num País de iletrados convencionais e culturais, o simples desfiar de propostas que, como num passe de mágica, minimizem todas as nossas dores virou poção indispensável. A operação lambe-lambe que marcou a reforma constitucional em 1988 é a situação mais emblemática e devastadora de permissividade institucional. A monolítica unanimidade nacional em defesa de pressupostas conquistas sociais bloqueava qualquer objeção aos desvarios dos constituintes. Era o período mais fértil da imbecilidade do politicamente correto.


Consolidou-se com isso, como se observa, um País exemplar apenas no papel. Se a história mais recente do Brasil for contada com a devida seriedade, muitos dos supostos estadistas não passarão de reles vilões. Vários deles, conchaveiros de mão cheia, simplesmente ignoravam as tendências macroeconômicas e políticas que cintilavam no mundo mais civilizado. Insistiram em aperfeiçoar a burrice do estatismo inoperante, enquanto lá fora já se formatava o novo perfil dos governos, que começavam a se retirar da operação empresarial e se concentravam na gestão da infra-estrutura social. Vários desses líderes políticos ainda reverenciados pela ignorância nacional lutavam sim, para perpetuar o desequilíbrio de forças, consolidando as vigas de sustentação de um modelo de Estado que se esboroava. 


A Imprensa tem muita responsabilidade em evitar que candidatos vendam ilusões e retroalimentem de esperança fraudulenta o cidadão comum. Igualmente, deve opor-se a protagonizar espetáculos de marionetes manipulados por grupos políticos ávidos por fatos sensacionalistas, desses que só aparecem em vésperas de eleições. A debandada dos eleitores nas eleições proporcionais tem sido a resposta mais à mão para quem não aceita esse duplo e pernicioso desempenho. Menos da metade dos eleitores do País votou para deputado estadual e deputado federal no último pleito. Um rombo cujo recado muitos ainda não entenderam, ou fingiram não entender.  


Dar um basta nessa situação em termos regionais não é nada fácil, porque o maquiavelismo, a astúcia e a dissimulação de determinados concorrentes eleitorais são muito mais escorregadios que eventual dose suplementar de cautela. E também porque é complicado demais encontrar a medida certa de desconfiança. Generalizar ceticismo é eticamente perigoso, tecnicamente cômodo e moralmente nocivo, porque nem todos os gatos são pardos. 


Informar os leitores sobre as atividades básicas dos candidatos ao voto da população é tarefa à qual a mídia impressa e eletrônica não tem correspondido. A cada caso como de Sérgio Naya, o imperador da Tijuca, descobre-se o quão distante está o jornalismo dos protagonistas do dia-a-dia do Legislativo Federal, quanto mais dos estaduais e municipais. E o caso Collor, então, que só foi divulgado porque o ressentido irmão resolveu jogar água no chope? 


Por isso, os debates que o Fórum da Cidadania deverá promover nesta temporada para sensibilizar o eleitorado sobre a importância do processo democrático precisam se pautar não só pela simples exposição dos concorrentes e pelo questionamento dos parceiros de mesa e da platéia, como nos eventos anteriores. A programação deverá ir mais fundo. Precisa necessariamente fazer fluir mais luz que calor. Isto significa dizer que um conjunto de temas prioritários para a região não pode ser esquecido em cada encontro programado, como forma de se aferir até que ponto o concorrente está habilitado intelectualmente para dar respostas que não cheirem a demagogia. 


Deixar para os próprios concorrentes ou para a platéia manifestações muitas vezes tópicas, outras vezes oportunistas, de vez em quando radicais e frequentemente políticas, com questionamentos que priorizam o desgaste emocional e sacrificam o raciocínio lúcido, já se comprovou como diretriz quase inútil. O clima de palanque deve ceder vaga a debates produtivos. Os participantes da platéia devem ser previamente selecionados, com cota de convidados específica para cada debatedor e outro tanto para quem tem a responsabilidade de sediar o encontro. Escolas de Segundo e Terceiro Graus deveriam ganhar prioridade como palco desses encontros. Simplesmente porque alunos e professores convidados seriam multiplicadores dos pontos-chaves da bateria de questões abordadas. 


Enfim, para que o calendário de debates seja elemento de transformações mais profundas da comunidade, para que se retire a conotação de luta-livre dos convidados à mesa, para que não se vejam candidatos absolutamente perplexos diante de manifestações muitas vezes grosseiras, para que a racionalidade prevaleça, é decisivo que o Fórum da Cidadania organize um grupo de trabalho sob ótica completamente diferente da que prevaleceu em situações anteriores, as quais seguiram rigorosamente o modelo convencional do mercado de espetáculos políticos do País.  


O clima de arquibancada de campo de futebol transforma a política num espetáculo depreciativo, semelhante aos programas de televisão que fazem tudo por dinheiro e por Ibope. Incentivar a perpetuação de ambientes circenses será a repetição de um desvio que a crescente maturidade institucional do Grande ABC já não pode conceber. Quem mais vai ganhar com tudo isso serão os próprios convidados qualificados e os eleitores. E é isso que interessa. 


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