Administração Pública

Cultura é a
nova indústria

MALU MARCOCCIA - 05/06/2000

Poucas vezes o Grande ABC viu coisa igual. Depois de se renderem à realidade de que a indústria não é mais a principal autoridade econômica da região, São Caetano e Santo André decidiram tirar definitivamente a cultura do limbo e tornar a presença de artistas e a intensa programação de espetáculos tão marcantes quanto foi a trajetória das fábricas. A robusta agenda de maio último nos dois Municípios é uma pista de que a cultura será transformada em novo imã de investimentos. 


Mais sintomático é que partiu do diretor de Desenvolvimento Econômico, Jerson Ourives, o anúncio de tornar São Caetano um pólo cultural como Curitiba, Capital do Paraná e campeã do bem-viver no ranking nacional da Simonsen Associados/Revista Exame. Depois do 1º Festival de Danças, no mês passado, com nomes inclusive internacionais, São Caetano tem programados um festival a cada 30 dias até o final do ano, ao mesmo tempo em que acelera a construção da Pinacoteca Municipal. Em Santo André, a promessa do secretário de Cultura, Esportes e Lazer, Altair José Moreira, é de que vão se repetir permanentemente as mega-atrações que inauguraram o Corredor Cultural, circuito que destaca 19 pontos históricos no Centro.


"Não é um evento. O Corredor Cultural é um trabalho que terá sequência o ano todo" -- assegura Altair, ao justificar o empenho pela revisão e aprofundamento dos projetos culturais do Município com o propósito de inscrever o nome de Santo André no mapa de atrações do País. Diferentemente de Diadema, que anima seu pólo cultural com oficinas onde a própria população exercita a arte, São Caetano e Santo André querem ir além de prestigiar a produção local e também investir em celebridades de fora.   "Cultura faz parte da qualidade de vida e do desenvolvimento sustentado. Com programação atraente, o público ficará mais tempo no Centro e ajudará a alavancar o comércio" -- acredita a arquiteta Margarete Uemura, que coordenou o Corredor Cultural. 


Em São Caetano, Jerson Ourives tem igual linha de interpretação: "Vamos oferecer incentivos a empresas de exposições, de vídeos e de entretenimento. Queremos promover grandes eventos como faz Curitiba" -- diz Ourives, pai da tese de que é melhor apoiar milhares de micro e pequenas empresas de comércio e serviços a depender de apenas uma dezena de indústrias, já que o setor terciário passou a dar o tom dos negócios em todas as metrópoles pós-industriais. Nesse cenário, a indústria do lazer e entretenimento desponta como âncora de peso entre fontes alternativas de arrecadação. Segundo dados da Embratur mencionados no ranking da Simonsen Associados sobre as 100 melhores cidades para negócios no País, 1,1 milhão de brasileiros visitaram no ano passado Curitiba com seus afamados Jardim Botânico, Rua 24 Horas, Ópera do Arame e Pedreira Paulo Leminski, um imenso palco ao ar livre. 


"Se perdermos 10 pequenas empresas, não vamos sentir tanto quanto ver ir embora 10 grandes fábricas. Vamos nos empenhar agora para ser um pólo de cultura e de artes" -- sintetiza Jerson Ourives, que transformou na tese de mestrado Política de Resultados a metamorfose de São Caetano.  Seu conceito é de que, ao reduzir impostos, a cidade arrecada mais por dinamizar as atividades. Na última década São Caetano viu ir embora uma dúzia de pesos-pesadíssimos fabris e hoje tem mais da metade do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) dependente de apenas dois grandes tótens: General Motors e Petrobras. 


Ao passar a guilhotina no ISS (Imposto Sobre Serviços) em nove atividades, dentre as quais consórcios, planos de saúde, empresas de limpeza e seguradoras, que tiveram alíquotas rebaixadas de 5% para até 0,25%, São Caetano atraiu 6.239 negócios entre 1997 e 1999. Mais de dois terços, ou 4.599 empresas, foram de serviços, que definitivamente passaram a compor o mapa econômico do Município: das 23.547 empresas ativas até 28 de fevereiro último, 17.075 eram de serviços e 4.460 do comércio, superando largamente a ex-locomotiva industrial, representada hoje por 744 organizações. Enquanto o ICMS baixou de R$ 79,7 milhões em 1996 para R$ 72 milhões no ano passado (descendo a um vale de R$ 58,1 milhões em 1998), o ISS empinou de R$ 16 milhões para R$ 24 milhões no período. A arrecadação de impostos estabilizou-se na casa dos R$ 102 milhões ao ano. 


Se num primeiro momento a aposta no setor terciário teve o efeito de metralhadora giratória, com a Prefeitura atirando para todos os lados na tentativa de equilibrar o orçamento com redução de ISS, como mostrou com exclusividade LivreMercado na edição de julho de 1999, o eixo das prioridades começa a mudar. A especialização do tecido econômico demonstra ter sido inserida na cartilha oficial: os recursos da Diretoria de Cultura passaram de R$ 1,4 milhão em 1998 para R$ 3,9 milhões em 1999 e somam cerca de R$ 2,7 milhões neste ano, incluídas as subvenções de R$ 581 mil e de R$ 388 mil repassadas, respectivamente, à Fundação das Artes e à Fundação Pró-Memória, dois clássicos equipamentos públicos voltados à cultura. Há dois meses, a Fundação das Artes lançou o projeto Patronos da Cidade das Artes para captar recursos junto à iniciativa privada com vistas à produção e realização de eventos.


São Caetano planeja ganhar prestígio também como pólo de tecnologia. Escalou o Imes (Instituto Municipal de Ensino Superior) como fomentador da primeira incubadora de empresas de alta tecnologia. A idéia é começar a desenvolver empresas nesse nicho a partir de 2001 em espaço reformado no Mercado Municipal de Vila Barcelona. O investimento somaria R$ 3 milhões, segundo Marco Antonio Santos Silva, diretor-geral do Imes, uma autarquia municipal. 


Na área de turismo Jerson Ourives segredou, sem detalhes, o interesse em atrair hotel cinco estrelas nos moldes do sofisticado projeto de duas torres com 400 apartamentos que a Brazyl Realty pretende erguer em Santo André ao lado do ABC Plaza Shopping, da qual é proprietária. Em São Caetano, um grupo espanhol já está na agenda das negociações do hotel. No campo da cultura, a Fundação das Artes passou a coordenar a programação do Teatro Municipal Paulo Machado de Carvalho, com 1122 lugares. Isso permitirá à Fundarte ampliar o espectro de atrações que já promove em seu espaço, com 200 lugares, onde mantém a Orquestra Filarmônica, uma Camerata, uma Companhia de Dança e uma Companhia de Teatro. Foi no Paulo Machado de Carvalho que se desenvolveu o 1º Festival de Dança com atrações semanais, entre outros, da Cia. de Danças de Diadema, Balé Teatro Guaíra, Companhia de Dança Folclórica da Bielo-Rússia e Balé da Cidade de São Paulo. Para julho está agendado o 2º Festival Internacional de Música, para setembro o Festival de Teatro, em outubro o programa prevê a mostra de artes visuais Cidade em Imagem e em dezembro será a vez do 2º Concurso Nacional de Piano. 


Outros equipamentos públicos com agenda cheia são o Museu Municipal e a Fundação Pró-Memória, que vai administrar a Pinacoteca em construção e cuja entrega é prevista para setembro. São dois pavimentos. O térreo abrigará espaço aberto para exposições e eventos, áreas de café e lazer e um acervo técnico. No andar superior três espaços de quatro metros quadrados permitirão exposições simultâneas e será montada estrutura para Internet conectada a telão e a vários museus. Neste mês a Prefeitura programa reinaugurar o Teatro Santos Dumont, com palco e 370 lugares totalmente reformados. São espaços que farão contraponto à programação mais popular de sertanejos e de MPB promovidos no Parque Chico Mendes, que já sediou shows com duplas globais como Chitãozinho e Xororó, Zezé de Camargo & Luciano.


A céu aberto -- Depois de ver o ICMS reduzido a um terço nos últimos 25 anos, também Santo André busca no lazer e na cultura novos tijolos que possam reconstruir o muro econômico. Do popular ABC Folia, em abril, a cidade saltou para uma agenda permanente de projetos culturais no Centro, batizada de Corredor Cultural. O objetivo é duplo: trabalhar a memória da cidade a partir da recuperação de 19 pontos históricos, que passam a ter atrações regulares, e incentivar a frequência de público ao perímetro comercial mais tradicional do Grande ABC, que perdeu charme com a chegada dos shoppings. 


Após intervenções na área física com obras de drenagem, asfaltamento e reforma paisagística com cobertura do Calçadão, o Centro com Vida, como se denomina o projeto, vai pôr as fichas na cultura. "Requalificamos a área para ser um pólo cultural a céu aberto, com todas as atividades gratuitas" -- diz a coordenadora do Corredor Cultural, Margarete Uemura. Pesquisa do Sincomércio (Sindicato do Comércio Varejista do Grande ABC) divulgada em primeira mão por LM em abril aponta que nos últimos dois anos caiu em 40% o público da região central de Santo André, que chegava a receber 80,8 mil pessoas por dia. Estão vagos 25% dos quase 1,4 mil estabelecimentos de comércio e de prestadores de serviços. "Vamos estabelecer parcerias com empresários para que haja programação constante também nas ruas, a fim de entreter estudantes e o público trabalhador de passagem" -- comenta o secretário de Cultura, Altair Moreira, cujo orçamento retrata como a atividade passou para a ordem do dia: de R$ 6,7 milhões em 1998 empinou para R$ 9,5 milhões em 1999 e tem previstos R$ 9,3 milhões nesta temporada.


Outro desafio da nova agenda de cultura e artes é voltar a atrair ao Centro sobretudo consumidores de poder aquisitivo, que por enquanto frequentam equipamentos públicos mais eruditos, como Museu Municipal e Casa da Palavra. A pesquisa do Sincomércio revela que as classes C, D e E compõem o esmagador índice de 84% de quem frequenta o perímetro da Oliveira Lima, General Glicério, Luiz Pinto Fláquer, Bernardino de Campos e Justino Paixão. 


O Corredor Cultural no qual a Prefeitura se empenha para mudar o eixo dessa narrativa começa pelo Centro Cívico, onde estão o Teatro Municipal de 420 lugares reformado e sede da Orquestra Sinfônica, o Salão de Exposições que recepciona o Salão de Arte Contemporânea, este ano na 18ª edição, e o marco zero representado pela Agência Central dos Correios. Outros pontos de visitação são a Estação Ferroviária e sobrados do início do século 20, a Praça do Carmo e a Concha Acústica, o tradicional Largo da Quitandinha, além do Cine-Teatro Carlos Gomes e do Museu de Santo André, montados em prédios que datam de 1912. Tótens e placas direcionais sinalizam o percurso, placas fixas expõem curto histórico dos locais e banners nos principais pontos da cidade serão trocados mensalmente trazendo a programação. 


Em abril, a fita de largada envolveu mais de 200 artistas, que expuseram telas, arte circense, peças teatrais, capoeira e dança, coral e música popular. Entre os destaques constaram a Mostra de Dança com 20 grupos da cidade no Teatro Municipal, onde também esteve Paulo Autram com a peça Visitando O Sr. Green, além de shows com Lobão e Arnaldo Antunes no Centro. Para este mês estão programadas a Mostra do Cinema Italiano, com um clássico por semana no Cine Carlos Gomes, a exposição Fotógrafos do ABC na Casa do Olhar, enquanto o Teatro Municipal recebe as aclamadas peças Caixa 2 e Qualquer Gato Vira Lata... 


É prematuro medir o resultado econômico do Corredor Cultural. A Prefeitura estima que duas mil pessoas acompanharam o lançamento, dia 18, e o Sincomércio relata que, por enquanto, não houve incremento de vendas e atração extra de público. Mas os polêmicos decibéis superlativos do ABC Folia já haviam dado uma mostra dos números sedutores da indústria do entretenimento: os três dias de Carnaval temporão aumentaram em 10% o movimento de restaurantes e motéis, mobilizaram 800 empregos diretos e somaram US$ 500 mil em investimentos da livre iniciativa, segundo balanço do Sehal (Sindicato das Empresas de Hotéis e Alimentação).


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