A mais recente façanha do futebol brasileiro -- a derrota para a desconhecida Honduras pela Copa América -- não é obra do acaso. Faz parte de um enredo complicadíssimo, em que não faltam ingredientes alucinógenos. Quando até o narrador/animador global Galvão Bueno entrega os pontos do triunfalismo barato e admite, como o fez constrangido durante o vexame contra Honduras, que a Seleção Brasileira não merecia outra sorte, é sinal de que já chegamos ao fundo do poço. Aliás, Galvão Bueno disse mais: a Seleção poderia ter perdido por diferença maior do que dois gols. Capitulou de vez.
O que existe em comum entre a fragorosa derrota da Seleção Brasileira na Colômbia, o surgimento e a consolidação do São Caetano, o momento de expectativa do Santo André sobre o que reserva o calendário no segundo semestre e o São Bernardo do ex-deputado Felipe Cheidde que coleciona derrota atrás de derrota e já virou motivo de zombaria, comparado ao Tabajara Futebol Clube do impagável Casseta & Planeta? Simples: o futebol brasileiro entrou na roda-viva dos negócios e da elitização do calendário para atender aos anseios da televisão, que tem nos espetáculos dentro de campo um produto barato de audiência garantida. As consequências desse processo são múltiplas e desiguais.
No futebol brasileiro midiático, pequenos e médios clubes não têm vez. O São Caetano que deslumbrou o País entre o final do ano passado e o início deste ano é um acidente de percurso porque trabalhou em silêncio com estrutura empresarial que poucos clubes de seu porte podem sustentar. Com isso, rompeu todos os bloqueios políticos e técnicos até chegar ao topo de audiência absolutamente precária, porque circunstancial. Imaginar que o São Caetano seja uma regra e não exceção é artificializar demais a realidade.
Ao contrário de outros tempos, quando éramos um País economicamente emergente mas tínhamos futebol de Primeiro Mundo, agora estamos socializados em limitações econômicas e em qualificação técnico-esportiva. Da mesma forma que os antigos colonizadores aproveitaram-se de nossas fraquezas e nos levaram riquezas naturais, a indústria do entretenimento mundial, baseada na Europa Ocidental, leva nossos craques aos borbotões. Não só craques, mas também promessas de craques, muitos dos quais convertidos em retumbantes fracassos.
Com isso, também perdemos referenciais internos que ajudam a rolar a bola do desenvolvimento. A qualidade dos espetáculos desabou. Novos ídolos são febrilmente fabricados por interesses meramente negociais, mas está cada vez mais difícil vender gato por lebre no mercado internacional do futebol, porque os europeus estão mais cautelosos. Não querem jogar mais dinheiro pela janela e a desconfiança aumenta à medida que os resultados da Seleção Brasileira trafegam entre o vexatório e o catastrófico.
Estamos na curva do rio da fragilidade técnica e não nos damos conta disso. Precisou Honduras dar baile de habilidade individual e conjunto disciplinado para cair a máscara. Há na hierarquia entre a Seleção Brasileira, o valorizado São Caetano, o vitorioso-derrotado Santo André e o incrivelmente perdedor São Bernardo espécie de síntese do futebol nacional.
A Seleção recebe todas as honras e atenções, concentra o poder da mídia como reflexo dos interesses dos clubes que a abastecem em ardilosas artimanhas, mas não passa de um engodo que esgotou o repertório de mandraquismos diante dos hondurenhos. Como se pode admitir, em sã consciência, que jogadores limitados como Beletti, Roque Júnior e tantos outros enverguem a camisa da Seleção? Simples: porque não há disponibilidade de exemplares mais apetrechados, já que o ciclo de renovação do futebol brasileiro é mais lento e menos pródigo a partir do aniquilamento dos médios e pequenos clubes, tradicionais incubadores de craques excluídos do mercado televisivo.
O São Caetano é uma das raríssimas exceções de clube pequeno que se tornou médio por conta de engenharia estrutural sustentada por planejamento empresarial. Mas nada assegura, ou tudo está irremediavelmente colocado como obstáculo, que venha a sair do estágio ao qual chegou. Sem massa popular para atrair os olhares mecânicos da televisão, principal vitrine da indústria do entretenimento, ao São Caetano provavelmente não restará alternativa senão ficar à sombra dos grandes clubes, vendendo-lhes seus principais destaques. Não foi exatamente isso que se deu depois do boom do Campeonato Brasileiro, quando Claudecir, Magrão, Ademar, César e Fabinho trocaram de camisa? Se grandes clubes não resistem às propostas por seus craques, por que teria de ser diferente com o São Caetano?
O Santo André que ganhou o Acesso à Primeira Divisão de São Paulo com elenco de jogadores que não lhe pertence correu o risco programado de privilegiar o curto prazo do qual saiu vencedor, mas não sabe o que está no horizonte dos próximos seis meses. O calendário nacional do segundo semestre é um enigma. Mesmo que dispute a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro, há de se entender que ficará na obscuridade da Imprensa. Como atrair investidores para o negócio chamado futebol se a peça-chave que move a engrenagem estará inteiramente concentrada nos papa-audiência?
Alma penada -- Já o São Bernardo estratifica a maioria dos clubes profissionais do País que desapareceram nas brumas da insolvência. A diferença é que ainda sobrevive como alma penada. Surrado desavergonhadamente a cada final de semana, a desativação formal da equipe custaria indesejada devolução da área física que detém como único patrimônio, doado por uma família tradicional do Município. Não fosse a cláusula restritiva de doação, o ex-deputado Felipe Cheidde já teria cerrado as portas e evitado a exposição depreciativa de um clube que construiu prestígio nos tempos em que o futebol era essencialmente atividade de lazer e os grandes craques nacionais não trocavam de camisa como quem escova os dentes.
A Seleção Brasileira é resultado direto da realidade dos clubes nacionais que ainda estão tentando transpor a ponte empresarial. A maioria vive na pindaíba como reflexo de administrações amadorísticas que não acompanharam a evolução do esporte como produto disputadíssimo e valorizadíssimo. Exploraram tanto a galinha dos ovos de ouro do futebol brasileiro que um dia haveria de ter um acerto de contas. Tomara que Honduras represente um divisor de águas. Basta de exploração utilitarista de um bem cultural que ajudou a construir a identidade do País a partir de suas próprias bases, os pequenos e médios clubes irresponsavelmente subjugados em nome da audiência a qualquer custo. Ou melhor: ao menor custo possível.
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