Administração Pública

Até quando, até quando?

DANIEL LIMA - 01/12/2009

Quem mora no Grande ABC e especialmente em Santo André não pode dar um passo adiante para compor uma frente ampla ou estreita em defesa da ética e da moralidade na vida pública por conta do que está acontecendo no Distrito Federal, um dos novos escândalos da República. Quem resolver bater no peito ou aplaudir para valer a eventual derrubada do governador do DF está exagerando na dose. Diante do nariz de todos, mais precisamente no Paço Municipal, está o titular do Executivo que, acusado de cometer ilicitudes durante a campanha que o consagrou nas urnas, não faz nada para chamar à responsabilidade o empresário Hélio Tanaka, seu denunciante, ex-aliado, ex-financiador da campanha.


Ora bolas, se Aidan Ravin não faz nada, se parte da mídia lhe confere inequívoco apoio com o silêncio de quem finge que nada lê nem ouve, onde estarão os cidadãos de Santo André que também não reagem para punir um prefeito eventualmente prevaricador ou para botar atrás das grades um empresário tresloucado, vingativo e destruidor de reputações?


Que será que a Ordem dos Advogados do Brasil em Santo André vai fazer para botar ordem no galinheiro de informações compulsoriamente unilaterais do acusador? Com quem estará de fato a verdade?


Sairá o presidente Sinésio Correia em busca de canais de informações para dizer que reunirá extraordinariamente a diretoria em fim de mandato para convocar o empresário Hélio Tanaka ou terminará em silêncio o restante da jornada?


E o presidente recém-eleito, Fábio Picarelli, antecipará tecnicamente o mandato para defender a transparência de dados e informações do empresário que será ouvido pela Polícia Federal em 15 de dezembro?


Será que o escândalo no Distrito Federal não deveria servir de incentivo ao esclarecimento do caso em Santo André?


Será que a OAB de lá é melhor que a OAB de cá?


E as entidades de classe econômica, social, cultural e assistencial, que nada fazem? Vão continuar assistindo passivamente a intermitente série de acusações e denúncias contra Aidan Ravin?


O fato é que a permissividade com instâncias públicas no Brasil alcançou altitudes inimagináveis. Nas periferias das capitais, então, é um salve-se-quem-puder. É um vale-tudo despudorado. A ausência de mídia de massa é incentivo incontrolável à vadiagem de quem denuncia ou de quem é atingido.


Fosse o prefeito Aidan Ravin mais respeitoso com a população que o elegeu, o mínimo que empreenderia para colocar a eleição que o consagrou fora do eixo de irregularidades seria o chamamento da Imprensa para esclarecimentos.


Diriam os simplistas que seria demais tamanha ingenuidade do prefeito, porque Aidan Ravin como qualquer mandatário público navega ao sabor das pressões. E, como se sabe, não há nada que mereça essa contextualização em se tratando do declarado escândalo de financiamento da campanha eleitoral que o consagrou.


Lamentavelmente, o Grande ABC como um todo e Santo André nesse particular, não têm a menor vocação a esclarecimentos públicos. Vivemos nas trevas da cidadania, estilhaçados que fomos ao longo dos anos por uma associação sinistra de naufrágio social e esfacelamento da base industrial, temperados por um renitente, porque histórico, Complexo de Gata Borralheira.


A idéia do empresário Hélio Tanaka de fazer greve de silêncio no depoimento à Policia Federal, caso nada de novidade ocorra até lá, principalmente por parte da OAB de Santo André, deveria ser levada adiante mesmo, deixando eventual terreno da ameaça. A passividade com que Santo André acompanha o noticiário alimentado pelo empresário é o atestado da falência de responsabilidade social das organizações que se apresentam como ramificações da chamada sociedade civil.


Quem simplifica a possível veracidade de dados e provas contra o prefeito Aidan Ravin, atribuindo à série de inconformidades desvios corriqueiros na legislação eleitoral, desqualifica as normas legais e, mais que isso, subestima a capacidade de vampirismo de fontes de pressões articuladas fora do alcance da sociedade.


O prefeito Aidan Ravin deveria ser o primeiro a recorrer a instâncias legais para retirar da zona de desconfiança a engrenagem que o consagrou vencedor nas últimas eleições. Provavelmente só não o faz porque sabe que sociedade organizada é uma falácia, uma evasiva retórica esgrimida frequentemente para dar roupagem de politização a uma região que sempre confundiu corporativismo com cidadania.


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