A Federação Paulista de Futebol cometeu uma irregularidade explícita que pode ter consequências jurídico-esportivas: rebaixou o São Caetano à Série A2 do Campeonato Paulista da próxima temporada logo após ratificar que a equipe seguiria na disputa da Série A1 também da próxima temporada.
Vou explicar a trapalhada. Isso mesmo, uma trapalhada. A FPF não pode atropelar o tempo e decidir atabalhoadamente sobre o que chamo de vaga da discórdia. O regulamento de cada competição é espécie de Constituição recheadíssima de cláusulas pétreas e, por isso mesmo, requer cuidados extremos. A FPF tem se esquecido disso na ânsia de eliminar o São Caetano da Série A1.
Tudo está relacionado à vaga que se abriria com a impossibilidade de o Red Bull disputar a principal competição estadual do País. A direção da Federação Paulista de Futebol sofre de ejaculação regulamentar precoce. Quer que quer estuprar um regulamento de Acesso que seus dirigentes conceberam durante o Conselho Técnico do ano passado. Conselho Técnico é um Conselho Supremo. O que decide, está decidido. A FPF sempre controlou os Conselhos Técnicos. Faz parte da cultura do esporte brasileiro.
Alfabetização esportiva
Esse é mais um capítulo que envolve a vaga da discórdia na Série A1 do Campeonato Paulista. O regulamento tem sido interpretado de forma a beneficiar o terceiro colocado da Série A2, no caso o Água Santa de Diadema. Sobre isso supõe-se que todos já sabem os detalhes. Tudo, aliás, gerado por informações disseminadas por dirigentes da própria Federação Paulista de Futebol. Eles não sabem o que leem. Ou se supostamente sabem, precisam tirar os argumentos da cartola da subjetividade. Se o fizerem, serão impiedosamente desmascarados. Provavelmente deverão ser encaminhados a algum curso de alfabetização esportiva. Dirigentes da Federação querem provar que matilha é formada por urubus. Exceto em caso metafórico.
A vaga da discórdia é expressão que caracteriza um atentado da Federação Paulista de Futebol primeiramente contra a ética e a moralidade que deveriam pautar no caso a atuação da própria Federação Paulista de Futebol, e, em seguida, abalroando os interesses legítimos do São Caetano.
Manutenção e queda
A nova situação deixa marcas insofismáveis e é disso que tratamos a seguir: a FPF confirmou o São Caetano na Série A1, mas algumas horas depois a equipe foi rebaixada à Série A2. Tudo envolve dois comunicados eletrônicos recebidos pelo clube em 29 de julho último. O primeiro foi enviado ao São Caetano integrante da Série A1. O segundo, retificando o primeiro, foi enviado ao São Caetano integrante da Série A2.
Tanto num caso quanto no outro a presidência da Federação Paulista de Futebol convidava o clube de São Caetano a propor sugestões e mudanças no campeonato das respectivas séries do ano que vem. Não se tem notícia se a presidência do São Caetano, a cargo de Nairo Ferreira, respondeu à FPF. Se respondeu, cometeu um delito contra o próprio clube, ao aceitar o rebaixamento.
O que não seria novidade porque, no mesmo dia de abril em que apresentou um manifesto à FPF de apoio ao regulamento, que contempla os direitos do São Caetano, o dirigente anunciou à imprensa, contraditoriamente, que aceitava a interpretação equivocada do regulamento, massificada pela mídia que cobre o futebol do Interior.
Corda no pescoço
O mais provável é que Nairo Ferreira, que está com a corda no pescoço no São Caetano, não tenha respondido à FPF. Explica-se a corda no pescoço de Nairo Ferreira: ele perdeu o maior financiador do clube-empresa, o empresário Saul Klein, e já existe movimento entre torcedores e conselheiros que poderiam tirá-lo do clube.
Seguindo a carruagem de complicações para a FPF, o que pareceria um erro comum de correspondência eletrônica é muito mais que isso. É o vazamento oficial das pretensões da Federação Paulista de Futebol. O presidente Reinaldo Bastos tem evitado falar oficialmente sobre o clube que ocupará a vaga do Red Bull, mas tanto ele quanto outros dirigentes propagam desde antes de a Série A2 terminar que o terceiro colocado da competição teria acesso à Série A1.
Integrantes dos quadros de assessoramento jurídico da FPF também fazem cordão em defesa do terceiro colocado da Série A2. Situação bem diferente da observada por especialistas em direitos esportivos que a consideram fraude interpretativa. Ouvidos, eles preferem não se manifestar oficialmente, mas recomendam ao São Caetano reação enérgica nos tribunais esportivos. Resta saber se, ainda presidente, Nairo Ferreira tomará alguma iniciativa. Ou estaria demais comprometido com terceiros a ponto de deixar o São Caetano em segundo plano.
O alinhamento da FPF ao terceiro colocado da Série A2 como herdeiro da vaga que será aberta pelo Red Bull é uma iniciativa preliminar, ou seja, ainda não oficial. A resolução que ainda não foi comunicada em nota específica contrastaria não só com o Artigo Nono e parágrafo primeiro do regulamento da Série A2 como também com todos os artigos, parágrafos e incisos que fazem referência exclusiva ao acesso de duas únicas equipes à divisão maior do futebol paulista.
Ao desconvidar o São Caetano a sugerir mudanças no regulamento da próxima temporada como um dos representantes da Série A1 do Campeonato Paulista e reformular o convite agora como integrante da Série A2, a direção da Federação Paulista de Futebol atropela o próprio regulamento.
Afinal, até que se inicie o Conselho Técnico da Série A1, previsto para o final de setembro, início de outubro, o São Caetano segue como integrante da principal competição estadual do País. O descenso só se aplicará se os 14 clubes remanescentes da competição desta temporada e os dois primeiros colocados da Série A2 (Santo André e Internacional de Limeira) confirmarem inscrição na competição.
Dois sobem, dois descem
É aí que entra o Red Bull na parada regulatória. Por conta de legislação esportiva que proíbe que duas equipes de uma mesma origem controladora disputem a mesma competição, o Red Bull terá de solicitar afastamento. Tudo porque quem o controla é uma empresa de identidade não revelada que também tem o Bragantino, outro integrante da Série A1, como controlado.
Não há escapatória senão o Red Bull abrir mão da vaga. Com a desistência do Red Bull, estaria caracterizado o segundo rebaixamento na Série A1. O primeiro, inapelavelmente, seria do São Bento de Sorocaba, que ficou na última posição. Com isso, o São Caetano, penúltimo colocado, se salvaria.
O regulamento da Série A1 e o regulamento da Série A
2 (e também das demais divisões da chamada Primeira Divisão) não oferecem a possibilidade de acesso ou rebaixamento de três ou mais equipes. E tampouco de apenas uma. Ou seja: sobem sempre dois e descem dois.
O absurdo da situação da correspondência eletrônica é que a Federação Paulista de futebol joga no lixo da insensatez os regulamentos aprovados nos respectivos Conselhos Técnicos da Série A1 e da Série A2.
Reiterando: qualquer anúncio que a Federação Paulista de Futebol faça antes que se realize o Conselho Técnico sobre acesso e descenso das equipes envolvidas numa discórdia fabricada para confundir será rigorosamente um equívoco que podem ter consequências nas jurisdições esportivas.
Justiça Esportiva?
Ou seja: tanto a Série A1 quanto a Série A2 poderão ser atropeladas pelo calendário. Traduzindo: há risco de que as duas competições sofram atraso em relação ao programado para a próxima temporada se a Justiça Esportiva não for célere em resolver a questão.
Uma fonte com acesso ao Departamento Técnico da Federação Paulista de Futebol confidenciou que o comunicado eletrônico dirigido ao São Caetano, substituindo a Série A1 inicialmente respeitada pela Série A2 regulamente equivocada acabou se repetindo com outras equipes igualmente envolvidas com o acesso e o rebaixamento nos dois campeonatos. O Água Santa de Diadema teria sido identificado como integrante da Série A2 e posteriormente elevado à Série A1, como o Santo André e o Internacional de Limeira.
No fundo, o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Bastos, acabou sendo levado a se comunicar eletronicamente com os clubes de forma comprometedora. Para obter dos dirigentes dos clubes propostas e sugestões a respeito dos campeonatos da próxima temporada, não seria preciso especificar a competição. Eles se manifestariam de acordo com o compartimento hierárquico ao qual pertencem. Nesse caso, o risco seria um equívoco monumental do contraditório Nairo Ferreira.
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