A propósito da reportagem do Diário do Grande ABC publicada na edição de ontem e sobre a qual fiz série de considerações, tenho outras a fazer. E tudo em torno do valor do negócio. Há muita gente que não entende do riscado de valoração de um produto. Futebol é um produto.
No caso do Grande ABC, como explico abaixo, trata-se de commodity. Ou seja, não temos valor agregado que torne a mercadoria, por assim dizer, mais nobre, mais disputada. Por isso que, ao se verificar nesse momento o interesse do Santo André em contar com investimentos do empresário Saul Klein, comedimento e pés no chão parecem as melhores terapias.
Os ilusionistas podem contaminar o ambiente e entornar o caldo. No caso, entornar o caldo significa o Santo André seguir a trilha de primo pobre sujeito a chuvas de rebaixamentos e trovoadas de dívida acumulada. Tem sido assim neste século. Para não falar do século anterior.
Passivos a superar
Essa abordagem vale às demais equipes da região que disputam os dois campeonatos mais importantes do Estado, mas não constam do circuito nacional.
Não constar do circuito nacional é algo como participar de um cruzeiro de turismo e ter direito limitado a velhas canções transmitidas por equipamentos eletrônicos, enquanto o show ao vivo de Roberto Carlos rola no piso superior.
Vou elaborar em seguida uma lista de passivos potenciais e práticos que devem colocar os pés dos pretendentes a sonhos de verão nos respectivos quadradinhos de lucidez. Vamos lá, então:
Baixa densidade do mercado consumidor.
Baixa representatividade nacional.
Elevada fugacidade no principal campeonato estadual do País.
Baixa capacidade de interações com a sociedade.
Baixa capilaridade da mídia.
Estão aí o que chamaria de os cinco gargalos mais comprometedores a eventuais tentativas de transformar em ouro o que não passa de bronze de sobrevivência.
Poderia fazer uma lista maior, mas a objetividade me obriga à síntese. O que quero dizer em suma é que o futebol profissional do Grande ABC tem limitações fundas para atrair investidores que o entendam como ferramenta de afirmação de identidade regional. Como especuladores espertalhões que deixam o barco à deriva não faltarão candidatos. A aventura chamada Saged que o diga. Saged foi a empresa que se criou para administrar o Santo André em 2008. Os resultados foram catastróficos. Não houve um mínimo de planejamento voltado para o futuro estruturado. Escrevi dezenas de análises sobre o assunto.
Compromisso com resultados
O futebol do Grande ABC não chegará ao destino desejada se a configuração prevalecer tendo um polo de exportação de jogadores para o território nacional e internacional. E mesmo assim necessitaria de investimentos para chegar a alguma vitrine de competição.
Nesse ponto, caímos num círculo imperioso de compromissos com resultados em campo. É exceção à regra transformar jogadores potencialmente vendáveis em efetivamente vendáveis sem que o conjunto de um time colabore. Jogador regular num time qualificado vira jogador negociável. Jogador de qualidade em time medíocre é a porta do inferno de prejuízos.
Vamos dar asas à imaginação e à experiência para alinhavar alguns parágrafos explicativos a cada um dos pontos listados acima.
Baixa capacidade do mercado consumidor.
À sombra da Capital que reúne os quatro clubes mais importantes do Estado, o futebol profissional da região sempre viveu de espasmos populares que se refletiram nos estádios. O torcedor genuinamente andreense, bernardense e caetanense é minoria manifestada como maioria somente quanto situações especiais assim o determinam.
Exemplos: numa disputa de final de Libertadores com o São Caetano, numa final de Copa do Brasil com o Santo André e alguns outros jogos que, por serem sazonais, confirmam a regra do ponto fora da curva.
Pesquisas indicam que a grande maioria dos torcedores das equipes da região pertence a uma minoria herdada como suplente dos clubes grandes. No passado, por volta dos anos 1970, já se vivia esse corte sentimental, mas não era tão acentuado. Após a descoberta do marketing esportivo pelas emissoras de televisão, sobretudo a TV Globo, no começo dos anos 1990, o aprofundamento da segunda camisa destinada aos clubes locais tornou-se opressivo.
Camisa dividida com os dísticos do Santo André e de times grandes da Capital foram contestadas naquele tempo. Hoje soariam como dádivas. É melhor ser metade ou menos que isso de um time grande do que não ocupar um tiquinho qualquer do coração de um time grande.
Não há como distinguir torcedor de consumidor no mercado da bola e nesse ponto o Grande ABC do Santo André, do São Bernardo, do São Caetano e do Água Santa é apenas penduricalho.
Portanto, são mais commodities do que produtos bem-acabados, embalados e prontos para grandes negócios.
Baixa representatividade nacional.
Longe de se constituírem em forças médias do futebol brasileiro, exceto, repetimos, em situações muito especiais que o passado registra, as equipes da região não são atrativas a quem comanda o futebol brasileiro. Os níveis de audiência televisiva são semelhantes aos de emissoras estatais que se metem a competir com redes nacionais movidas a publicidade controlada pelos grandes gerenciadores de retorno de investimentos.
Dessa forma, como ferramenta de investimentos em forma também de nacos de audiência, o futebol da região não entusiasma a ninguém do mundo da bola.
Elevada fugacidade no principal campeonato estadual do País.
É muito pouco, muito pouco mesmo, ter no currículo atual uma vaga garantida na Série A1 do Campeonato Paulista, caso do Santo André por merecimento e do Água Santa por baixo dos panos.
A fugacidade de estar entre os principais times do Estado é intrínseca às equipes que não contam com calendário nacional. A competição é desigual. Entre os 16 participantes, seis saem em desvantagem, já que não estão no circuito da Série A ou da Série B do Campeonato Brasileiro. Caso do São Caetano nesta temporada, como único representante da região.
O São Bento caiu junto com o São Caetano, embora disputasse a Série B do Brasileiro, porque viveu uma crise diretiva. Normalmente, não cairia. Se times grandes não resistem a fuzarcas diretivas, como os médios e os pequenos resistiriam?
O rebaixamento na Série A1 é disputado na prática por cinco ou seis equipes. São duas vagas ao desfiladeiro. Uma proporção terrível.
Ou seja: sem calendário nacional permanente, de disputa durante a temporada inteira, a tendência de queda é de probabilística quase certeira. Contamos com times temporãos que só se seguram na competição estadual do primeiro semestre. No segundo, fingem que jogam para valer na Copa Paulista, competição sem suporte financeiro da Federação Paulista de Futebol.
Os patrocinadores só querem saber de jogos em que potencialmente os grandes times de grande audiência estejam presentes. O futebol brasileiro é um convite à elevada mortandade dos pequenos. Não existe barreiras de proteção. Não se reconhece o quanto são importantes à renovação de valores técnicos dentro e fora de campo. O elitismo é sacralizado inclusive por jornalistas que se dizem socialistas no campo ideológico. Eles são contraditórios porque pensam no próprio umbigo. Defendem os pobres, cobram das autoridades políticas que amenizem as desigualdades sociais, mas, no futebol, são seletivistas.
Estabelecer referencial de valor do ativo com base na relação de integrantes da Série A1 do Campeonato Paulista pode ser até argumento de valorização, mas não se sustenta se do outro lado da linha de negociação estiver alguém que sabe o quanto é delicada a situação dos insistentes penetras da Série A2 que não constam das duas principais divisões do futebol brasileiro.
Até uma Série C do Brasileiro serve de incentivo ao fechamento do negócio, porque sempre haverá a perspectiva de chegar à antessala da elite nacional, mas a Série D, pela precariedade da vaga, sempre em renovação a quem não chega entre os quatro primeiros, é exagero de argumento que só convence incautos. Numa competição com dezenas de equipes e disputas decisivas em muitas vezes lotéricos mata-matas, tudo pode acontecer. Investimentos podem virar sucata em 90 minutos mal jogados. O Red Bull cansou dessa toada e decidiu comprar o já garantido Bragantino na Série B do Brasileiro.
Baixa capacidade de interações com a sociedade.
Esse vetor está diretamente relacionado à baixa representatividade social que se manifesta nos estádios e no ambiente social do cotidiano. Sem entranhamento com a sociedade é praticamente impossível, exceto em condições muito especiais, mobilizar torcedores em geral pelas cores locais.
Há possibilidade de se alterar gradualmente essa situação, atuando em nichos específicos, mas as medidas requerem investimento financeiro e engajamento sobretudo de jovens torcedores. Nesse ponto, o Santo André leva uma grande vantagem sobre os rivais da região. Afinal, detém agrupamentos de torcidas organizadas que podem juntar o útil ao agradável, ou seja, transformar a paixão clubista em catequese de crianças e jovens.
Baixa capilaridade da mídia.
Também nesse quesito os grandes clubes do Estado monopolizam as atenções porque a roda do mercado exige que se busque audiência e a audiência é concentrada em quem tem mais história e conquistas para mostrar.
O ponto amenizador da situação e que já começou a ser explorado são as plataformas digitais que podem potencializar a cobertura dos jogos, como o que se observa entre tantas competições na Copa Paulista. Cada jogo está na palma da mão de um aparelho celular.
É claro que a realidade mesmo mais flexível às equipes de menor porte está distante do ideal, de ocupar a tela grande e as principais emissoras de canais abertos e fechados. Mas o quadro já foi pior.
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14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS