Só mesmo um mercador poderia idealizar a camisa dividida, exportando-a para diversos cantos do País, entre os quais Santo André. A reportagem do companheiro Luiz Carlos Sperândio, publicada nesta edição, transforma o assunto em saborosa polêmica porque, assim como existe quem defenda a grotesca mistura de cores, há outros que não aceitam. Nós estamos neste bloco, porque, longe de sermos rotulados de reacionários comportamentais, também não pendemos muito para certas revoluções.
Entendemos perfeitamente a análise dos conceituados psiquiatras ouvidos pelo repórter, bem como o apoio de alguns torcedores à camisa dividida, mas não abrimos mão da defesa do bairrismo no Grande ABC, o que, decididamente, a camisa dividida pretende pulverizar, voluntariamente ou não.
Felizmente, a maioria pensa assim, porque, de mais de 12 mil torcedores que estiveram no Bruno Daniel no último domingo, apenas 12 vestiram camisa dividida. E se é verdade que o vendedor reclama da falta de material, que vem diretamente de Londrina, confeccionado e expedido à revelia das ambições e necessidades de libertação cultural do Grande ABC, agrada saber que a maioria que se interessa pela aberração visual e filosófica é um novo estrato da torcida do Santo André. Tratam-se de torcedores ainda renitentes ao seu primeiro amor — o clube grande — mas já envolvido pelas cores azul e branco. Tanto que já dividem a camisa com as cores locais.
Muitos poderiam entender que esse gesto deve ser saudado, não execrado, porque se trata de uma conquista, mas, se na essência o é, realmente, a impressão que destila, e que supera a essência só revelada com o diálogo, é de que prega o divisionismo. E quem divide objetos ou amores sempre vive o momento de definição. E nos parece que, dada à preocupante estrutura do Santo André, clube sujeito a chuvas e tempestades, lhe convém muito mais ter um público só seu, custe o tempo que custar mas viável, ao invés de, de repente, ver-se esquecido em momentos de participação popular indescartável.
Por falar em torcida do Santo André, não nos parece que seja tão fria como falam. Ocorre que se trata de um fenômeno de alguns poucos anos e não se tem a escola das mais tradicionais, que, a bem da verdade, principalmente em São Paulo, não são assim tão festivas. Lemos atentamente esta coluna da última quinta-feira, escrita pelo companheiro Edélcio Cândido, onde se abordou a colocação de um torcedor desconsolado com o silente acompanhamento da massa que esteve domingo no Bruno Daniel, no jogo diante do Operário.
Gostaríamos de saber que jogo, em circunstâncias normais, no qual a própria rivalidade inexiste e os dois pontos não têm importância vital de um aproximar de final de etapa, eletriza tanto o torcedor como sugere o leitor?
Queiram ou não, Santo André versus Operário era um jogo que se encaixava perfeitamente nestas condições e contribuiu ainda mais para o silêncio criticado à performance comprometedora da equipe de Jair Picerni. Talvez o próprio rendimento do Santo André tenha sido consequência do ambiente de distanciamento entre o jogador e sua massa. Talvez, não; é praticamente certo que isso aconteceu. Entretanto, exigir-se do público frenético incentivo naquelas circunstâncias é exagerar.
Em resumo, ao mesmo tempo em que se deve reconhecer a híbrida atuação dessa nova massa popular em nosso futebol, não é justo que se lhe atribua responsabilidade que não lhe compete. Do jeito que jogou domingo o Santo André não sacudiria nem mesmo o entusiasmo tradicional da torcida do Corinthians se, num passe de mágica, aquela atuação fosse transportada para a Capital e, ao invés do azul e branco, os jogadores estivessem de preto e branco.
O que mantém basicamente a chama do entusiasmo popular nos estádios, em jogos comuns como o de domingo no Estádio Bruno Daniel, são as torcidas organizadas, representativas nos grandes clubes mas incipientes e reduzidas nos pequenos. Sem o comando forte e insinuantes das organizadas os torcedores comuns viram espectadores comodistas. Eles passam a torcer para dentro.
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14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS