Esportes

Lei do Passe num futebol de
voluntários e mercantilistas

DANIEL LIMA - 05/12/1996

Até por força de origem profissional, não resisto ao assunto. A questão do fim da Lei do Passe no futebol brasileiro é permeada por ações e ilações intempestivas, imaturas, tendenciosas, corporativistas e insensíveis por muitos dos personagens direta e indiretamente envolvidos. Vamos procurar ser sucintos.

 

1) Pelé e seu staff ministerial só tinham mesmo que voltar atrás e esticar o prazo de carência. O fim abrupto da alíquota protecionista, em forma de passe, defendida por jogadores em estágio privilegiado e por parte da Imprensa não necessariamente só esportiva, abalaria as finanças dos clubes, os quais teriam perdas consideráveis já no próximo ano. Os clubes ficariam em situação parecida com as autopeças, completamente desprotegidas pelo Regime Automotivo elaborado sob medida para as montadoras multinacionais.

 

2) Os clubes, na quase totalidade, são pessimamente administrados. Ou são predominantemente voluntaristas ou mercantilistas demais. Entre os voluntaristas estão Corinthians, Portuguesa, Vasco, Flamengo e tantos outros. Entre os mercantilistas, casos raros, está o consórcio Palmeiras-Parmalat, verdadeira joint-venture, termo apropriado para as editorias de negócios. O modelo ideal que deveria prevalecer, considerando-se as particularidades do torcedor-consumidor brasileiro, de cultura patrimonialista, passional, contemplaria a profissionalização diretiva sem, entretanto, a contrapartida do entreguismo financeiro, estratégico e histórico. Não há registro de exemplar desse padrão no País, se cotejado com o mercado internacional francamente importador de valores técnicos do Terceiro Mundo. Por isso até que o consórcio Palmeiras-Parmalat virou referencial de organização ideal, quando em realidade supera largamente uma matriz consagrada e eivada de vícios, mas perpetra a agressão com uma espécie de privatização esportiva.

 

3) Os jogadores profissionais, na quase totalidade, são irresponsáveis para os níveis de liberdade que se defende. Eles não lembram em nada a carga de responsabilidade, disciplina e empenho permanente da média dos executivos de empresas com os quais costumam ser comparados por quem coloca a questão meramente como relação trabalhista. Casos como o de Romário, que abandona seu time na Espanha e força a contratação por outro, o Flamengo, são mais rotineiros do que se pensa. Apenas não aparecem na mídia. É comum os jogadores suarem a camisa nas vésperas da renovação de contrato e encostarem o corpo depois, de modo a forçar transferências e ganhos extras. Quem viveu por alguns pares de anos os bastidores do futebol sabe disso. Quanto mais se desce nas divisões hierárquicas do futebol, mais infrações e insubordinações acontecem. O passe livre sem contrapartidas rígidas nas relações contratuais provocará mais problemas que soluções.

 

4) Contratos de longa duração provavelmente deverão substituir o passe. Com isso, o passe vai mudar apenas de nome. O problema é que os clubes correrão mais riscos, porque jogadores com contrato de quatro, cinco anos, certamente vão se tornar mais indolentes. Até porque se trata de uma função carregada de passionalismo dos espectadores e dos próprios dirigentes. Para não falar da Imprensa. Sugerir frieza extrema tem o sentido de transformar o futebol em ciência exata, em peça de laboratório. Pode até dar certo na Europa, mas não bate com a cultura do esporte no Brasil. Uma cultura que não perdoa casos como o de Edmundo vestindo a camisa do Corinthians depois de consagrar-se ídolo no Palmeiras e de Viola vestindo a camisa do Palmeiras, depois de imitar o porco com a camisa do Corinthians. Esses negócios abalam a fidelidade clubística. O torcedor-consumidor sente-se traído.

 

5) O fim do passe, que deve ser mesmo perseguido, não pode ter exclusividade estratégica para a reengenharia do futebol brasileiro, mas infelizmente é visto como a salvação da lavoura. Isoladamente não alterará em nada o quadro atual de debandada dos melhores talentos rumo ao exterior, prova evidente da fragilidade estrutural dos clubes. Nesse processo todo nem a Imprensa esportiva escapa, porque lhe faltam talentos e lhe sobra partidarismo. Partidarismo ainda se perdoa, porque ninguém é de ferro. Mas sem talento a defesa enrustida ou não de cores específicas torna-se exercício devastador de credibilidade. O partidarismo, por isso, é menos nocivo que a incompetência e, principalmente, que a subserviência. Especialmente a subserviência relacionada aos interesses comerciais. Caso específico do esvaziamento dos estádios por causa das transmissões de jogos pela TV, que alguns insistem em refutar com comparações descabidas com a média de público nos estádios do Primeiro Mundo de padrão socioeconômico imensamente mais avançado e de organização esportiva completamente diferente. Inclusive no relacionamento, na carga semanal de jogos e nos valores auferidos com as emissoras de televisão.



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