Em linha de colisão com as consagradas regras internacionais, os cartolas decidiram inventar o futebol-não-me-toque durante o Torneio Rio-São Paulo. A bobagem, aplaudida por atacantes beneficiários e por críticos modistas, consistiu na limitação do número de faltas por equipe e por jogador. O time que fizesse mais de 15 infrações durante os 90 minutos passaria a ser punido com cobranças da entrada da área. Para quem não é versado em futebol, isso significa espécie de pênalti reduzido à metade ou menos da probabilística de gol, o que é um perigo. Também, o jogador que fizesse cinco faltas teria de cumprir cinco minutos de banimento do espetáculo.
O conceito da invenção, que consiste na valorização do espetáculo, é irrebatível, porque todos querem ver o futebol fluído com arte e engenho. O problema é que se esgota nisso e tem o mesmo sentido de pretender salvar a Amazônia, um gesto nobre, mas utilizar-se para isso de missões estrangeiras ávidas por suas riquezas vegetais e minerais.
Além de desvirtuamento, porque cada lance passou a ter provocação induzida de infração de quem detinha a posse de bola, em contraponto com o opositor preocupado em evitar a anotação, esse jogo de não-me-toque-que-eu-caio dá ainda mais poderes aos árbitros, o que, convenhamos, é alto risco.
Imaginem as barbaridades que a maioria deles, reconhecidamente de baixo nível e facilmente manipuláveis, aprontaria pelos campos não observados pela televisão se lhe conferissem de vez o poder de minar determinada equipe com o acúmulo punitivo de faltas.
Se diante das câmeras os árbitros relacionados como melhores do ranking já fazem bobagens, imagine-se então o esquartejamento sob encomenda nas divisões menos importantes, cujos apitadores em busca do estrelato em grande parcela se sustentam nos bastidores.
O que os arrivistas ainda não entenderam é que o futebol só se tornou paixão universal porque guarda estreita relação entre simplicidade e pragmatismo. Algumas intervenções que não afetem ou mesmo favorecem o equilíbrio de sua engenharia tática e estratégica devem ser estimuladas. Caso da proibição de os goleiros recorrerem às mãos em bolas recuadas pelo próprio companheiro, a qual deu mais dinamicidade à partida.
Agora, mexer com a própria essência da modalidade, feita de entrechoques, de vigor físico, de criatividade, de matreirice, de ímpeto, de craques e de pernas de pau, porque a vida é feita de contrastes, de paradoxos, de antagonismos, transformando-a numa brincadeirinha de pacifistas, pode até agradar aos leigos, aqueles que assistem futebol por assistir, mas não quem sabe distinguir um pontapé desleal de uma falta providencial, isto é, a imensa maioria dos torcedores.
A idéia de que essa invencionice favorece a elevação da média de gols é tão correta quanto equivocada se atrelada à qualificação do espetáculo. Raros jogos ficaram na história porque tiveram enxurrada de gols, mesmo com as regras convencionais da International Board, as quais implicam em estabelecer dificuldades para o talento ofensivo superar a disposição destrutiva, decorrendo daí a mágica de o futebol guardar sempre a possibilidade de surpresas.
Imaginar, portanto, que goleadas desse futebol-não-me-toque seriam inseridas como antalogias do esporte é raciocínio ingênuo e simplista demais. Goleadas jamais foram sinônimo de grandes espetáculos. Pelo contrário. Só os cartolas ávidos por manchetes não sabem disso.
Não sabem disso na exata e danosa proporção da falta de senso crítico do jornalismo esportivo, cuja escala de incapacidade técnica, interesses financeiros e deslumbramento profissional, entre outros pecados, provavelmente não encontre paralelo desde que Charles Muller desembarcou no Brasil com uma bola debaixo do braço. Infelizmente, a crônica esportiva reproduz com clareza a sofrível precariedade de grande parte do jornalismo brasileiro. Como a maioria dos políticos, os cartolas do futebol deitam e rolam com seus casuísmos regulatórios.
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