O investimento de R$ 2 milhões na construção do recém-inaugurado Palácio dos Esportes, revolucionário conceito de atividades esportivas e recreativas, consolida o Santo André como clube associativo em apenas cinco anos de atividades e robustece as perspectivas do futebol profissional, razão de sua existência e que vai completar 30 anos em setembro próximo. Comandado pelo presidente Jairo Livolis, ex-executivo do Grupo Santista que virou empresário do setor de confecções esportivas, o Santo André não é apenas o mais estruturado time de futebol profissional da região. É também um clube social de respeito, que congrega perto de 40 mil associados, entre titulares e dependentes.
A face dupla de time de futebol e clube associativo, que o diferencia dos demais da região, fundamentalmente de futebol profissional ou exclusivamente sociais, instala o Santo André num referencial único e muito mais complexo, admite o próprio presidente.
A paixão que se vive no Estádio Bruno Daniel, onde a equipe que tenta voltar à Primeira Divisão de São Paulo manda jogos, e a razão do Poliesportivo, localizado no Parque Jaçatuba, são condimentos indispensáveis à vitalidade do Santo André, mas não podem ser misturados. A única ligação entre os gritos de gol e o burburinho dos associados é a profissionalização da estrutura. E disso Jairo Livolis tem cuidado de forma até obsessiva.
Jairo tem 26 anos de Santo André, cinco dos quais como presidente. “O Poliesportivo do Jaçatuba é resultado histórico de todos os presidentes que passaram pelo clube” — faz questão de realçar, mas não se pode tirar a ousadia que marca sua administração. Ele recebeu o Poliesportivo com obras inacabadas, abandonadas e em estado de deterioração. Parecia que o Santo André estava condenado a ser apenas um time de futebol que recorria a dirigentes, conselheiros e torcedores messiânicos a lhe garantir o dia de amanhã. Jairo teve apoio, reformulou o projeto e conseguiu erguer o Poliesportivo.
O Palácio dos Esportes, ideia clonada de um clube privê de Nova Iorque, sacramenta o que Jairo Livolis chama de perenidade do Santo André. A multifuncionalidade do espaço, verdadeiro shopping de esporte e recreação, representa mais que uma atratividade aos associados que agora têm infra-estrutura para jogar xadrez, voleibol, futebol de salão, tênis de mesa, snooker, carteado, além de sala de televisão, academia de ginástica, recanto infantil, judô, musculação, dança, patinação, entre outras atividades. Num prazo de 12 horas tudo isso pode ser substituído e transformar-se em um grande salão de eventos, shows musicais, formaturas de estudantes, exposições. “Será como um circo, porque a desmontagem permitirá a mudança de perfil de utilização” — explica.
A inovação do Santo André com o Palácio dos Esportes não está apenas na multiplicidade de uso. A interação entre os associados foge completamente do convencional dos demais clubes brasileiros. Não há divisórias entre as respectivas quadras ou espaços de atividades. Os limites são apenas virtuais, pautados pela tonalidade da pintura das áreas físicas contíguas. “Até agora tínhamos um clube moldado pelo convencionalismo, com campos de futebol, quadras poliesportivas, piscinas, academia de ginástica, ocupando espaços específicos e distantes entre si. O Palácio dos Esportes aproxima a todos, unifica o quadro associativo em muitas modalidades” — lembra Jairo Livolis.
A concepção organizacional que o presidente tem de clube sócio-esportivo não cabe no figurino atual. Livolis sabe que vai demorar para mudar, mas já iniciou há alguns anos processo de lipoaspiração cultural que pode ser resumido na analogia não-rígida do modelo de Sam’s Clube, cujos consumidores só gozam dessa condição porque são associados e pagam taxa. Isso quer dizer que o presidente do Santo André concentra-se na perspectiva de que o associado deverá entender que é um usuário das dependências do clube, não exatamente dono de cada metro quadrado.
O patrimonialismo clubístico é velha herança cultural que Jairo Livolis sutilmente vem destruindo. “Trata-se de um conceito enraizado, mas que lá na frente, nos anos que virão, será alterado em benefício não apenas do clube, mas dos próprios associados, cujo poder de cobrança será em bases mais adequadas” — afirma.
O Santo André há de ser, pelos planos de seu presidente, um Sam’s Clube esportivo com mais que os 10 mil associados titulares de hoje. Ele diz que outros clubes, além do Santo André, já têm essa inclinação sem que se dêem conta. Cita principalmente o Juventus, o maior clube associativo do País, onde os frequentadores mal se importam com os resultados geralmente inexpressivos do time de futebol, e até o Palmeiras, frequentado por todas as torcidas.
A proposta de juntar os usuários do Poliesportivo aos apaixonados pelo futebol do Santo André foi aplicada durante os dois primeiros anos de construção do clube social e acabou desativada. Jairo Livolis lamenta ter se equivocado. Ele sonhava, com a paixão de presidente-torcedor, que levaria famílias inteiras do Poliespotivo ao Bruno Daniel. Distribuiu milhares de carteirinhas como ingresso gratuito, providenciou ônibus especiais ligando a sede social à futebolística, entre outras ações, e os resultados foram pífios. Desistiu da proposta e ganhou uma convicção: “São produtos diferentes e como tal devem ser tratados. Os efeitos residuais da iniciativa não justificaram a manutenção”.
O Jairo Livolis que não resiste às emoções e grita nas arquibancadas nos dias de jogos é o mesmo Jairo Livolis meticuloso que analisa cada planilha de custos de novas obras e decide o momento e o cronograma dos investimentos. O Palácio dos Esportes foi construído sem financiamento bancário ou taxa extra dos associados. Tudo saiu das receitas de mensalidades dos associados, de promoções diversas como bingos e da venda de 500 títulos de sócios remidos. Ele divide seu tempo entre a subjetividade do futebol, onde dois-mais-dois nem sempre são quatro, e a concretude do clube.
O orçamento do Santo André ainda depende 60% do quadro associativo, ou dos usuários dos serviços esportivos e recreativos que o clube coloca à disposição, como conceitua Jairo Livolis, mas a expectativa é de rebaixamento para 50%. A compensação viria da locação do Palácio dos Esportes, divisor na história do clube, segundo o presidente. Um empreendimento capaz de ao mesmo tempo fortalecer o social e alavancar o futebolístico.
Jairo Livolis não quer dizer taxativamente, mas o resultado disso será um time mais forte nas próximas temporadas. Quem sabe um time de volta à Primeira Divisão no ano que vem. Afinal, se o futebol é a costela de Adão do Santo André, não haveria sentido em tornar-se um clube de expressão, como agora, sem que haja a contrapartida das emoções.
Foi exatamente por causa das tradições do futebol que recentemente o estatuto do clube foi alterado, com a constituição de novo quadro de conselheiros deliberativos que privilegia dois terços de membros históricos inseridos na condição de vitalícios. O outro terço foi reservado a aficcionados mais jovens. O Santo André quer aproximar-se cada vez mais do Juventus no social e do Guarani, da Portuguesa, no esportivo. Uma composição complexa de emoção e razão cujo equilíbrio não pode ser rompido.
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14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS