Visto do alto de um carro do Corpo de Bombeiros, em meio a jogadores e dirigentes campeões da Copa do Brasil, a Santo André da tarde-noite de 1º de julho comemorava mais que um título de repercussão internacional de sua equipe de futebol. Por onde passava a algazarra humana e eletrônica, com bandeiras em azul e branco e aquele séquito incansável de jovens torcedores a acompanhar o ronco do motor do caminhão, se imantava uma relação diferente com a população.
Depois da traumática perda do prefeito Celso Daniel, Santo André estava mesmo precisando de algo alegre, festivo e eletrizante para multiplicar emoções. Por isso, aquela tarde-noite foi especial.
Foi mesmo extraordinária a repercussão de um espetáculo televisivo com 42 pontos de audiência na Grande São Paulo, índice médio das telenovelas da Globo.
Tudo favoreceu a que aquele resultado num Maracanã lotado de flamenguistas e de soberba se transformasse no resgate de uma auto-estima municipal, e por que não regional, de que o Grande ABC tanto precisava depois do abalo da morte de Celso Daniel e de uma série que parecia infindável de perdas industriais, só agora estancadas.
Por isso, quando as portas e janelas de casas e apartamentos se abriam em abraços, em beijos, em cumprimentos, em alegria estampada no rosto de jovens, crianças, adultos e idosos, um Grande ABC reconfortado se materializava encantado.
Junte-se o amadorismo, no bom sentido do termo, dos jogadores do Ramalhão a essa catarse popular que parecia anestesiada numa região duramente atingida por todas as globalizações, da econômica à financeira, mas principalmente a cultural. Os mesmos protagonistas que surpreenderam o País ao cantar o hino do clube em pleno Estádio do Maracanã entoavam cânticos com os quais torcedores locais inundaram o Parque Antártica uma semana antes, quando o Santo André empatou o primeiro jogo das finais com o Flamengo.
Como encontrar nestes tempos em que futebol e negócios são face e contraface da mesma moeda de um profissionalismo exacerbado um grupo de jogadores capazes de não só conhecer a letra e a música, mas cantarem o hino do clube? Esse é um dos segredos dos campeões. É uma abençoada rotina que a cada jogo, dos vestiários de preparação ao primeiro apito do árbitro, o elenco e a comissão técnica, quando não dirigentes e conselheiros, se dão as mãos e cantam a todo pulmão as estrofes e os estribilhos criados pouco antes da conquista do Acesso à Primeira Divisão de São Paulo, em 1981, pelo maestro Conceição. Depois, com a mesma emoção e determinação, rezam a Ave Maria.
Foi emocionante ver do alto do carro do Corpo de Bombeiros aquele povo em regozijo. Houve momentos inesquecíveis como o que documentou na memória um homem já de idade avançada que saiu à porta com uma corneta de gás comprimido, acionada persistentemente como se quisesse fazer abafar a sirene, o hino do alto-falante, a cantoria da torcida. Parecia voltar aos tempos de infância, tão feliz estava. O expediente de escritórios e clínicas médicas estava se encerrando, mas como resistir à curiosidade, à solidariedade e à alegria? Profissionais de branco da cabeça aos pés gesticulavam emocionados. Nas calçadas, poucos se mantinham indiferentes.
Para quem acompanhou sobre-rodas a comemoração do Santo André nada se compara, entretanto, a um jovem alto, magro, espécie de homem-aranha, que durante todo o trajeto, até a fita de chegada ao Estádio Bruno Daniel, proporcionou grande show acrobático. Ele se pendurou com habilidade e arte em tudo o que lhe aparecia suspenso. Placas de sinalização, tetos de pontos de ônibus e bancas de jornais, parapeitos de prédios, nada ficou a salvo do malabarismo debochado e atrevido. Nem o carro de bombeiros escapou-lhe da bendita fanfarronice.
Entretanto, por mais que aquelas duas horas tenham sido um festival inesquecível de cidadania esportiva que se confunde com cidadania comunitária, nada se compara à chegada do carro de bombeiros ao Estádio Bruno Daniel, ponto final da esticada dos campeões. Havia uma multidão à espera da equipe. O hino do clube era entoado com alma. As bandeiras tremulavam. Todos queriam ver os heróis do Maracanã.
Espero que as lideranças municipais, que não conseguem ser lideranças regionais porque a fragmentação territorial fala mais alto, não se esqueçam de compreender, pelo exemplo que o futebol apresentou, o quanto têm de responsabilidade na condução destas terras.
Há um sentimento arredio, é verdade, mas facilmente resgatável de amor por nossas cidades entre todos aqueles que nos últimos 15 anos foram submetidos a grandes mudanças em um mundo sem fronteiras. Quem está no Grande ABC vive a expectativa de dias melhores. O futebol ajuda a amalgamar esse povo, joga na cara o quanto desperdiçamos de paixão. Não podemos perder a oportunidade que se nos apresenta. É pegar ou largar.
*Coluna Contexto, do Diário do Grande ABC
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