Como era esperado, o Santo André decidiu parar de brincar com a sorte. Um dos clubes profissionais mais importantes do País, abaixo dos 20 integrantes da Série A do Campeonato Brasileiro e sétimo colocado na Série B desta temporada, o Santo André finalmente virou clube-empresa, decisão confirmada na noite de 22 de novembro no Espaço Jardim. Praticamente todas as 80 cotas disponibilizadas a acionistas foram confirmadas. Cada cota no valor de R$ 120 mil será resgatada em 60 meses. Dessa maneira, o Santo André sai do modelo tradicional para uma pretendida estrutura empresarial.
Esse é um modelo que de forma direta ou dissimulada predomina entre os grandes clubes nacionais e internacionais. O valor dos ativos repassados aos investidores alcança R$ 9,6 milhões. O contrato de 10 anos tem cláusula de esticamento para os 10 anos seguintes. O Esporte Clube Santo André deterá 20% das ações.
O próprio presidente Jairo Livolis, no comando do clube há 14 anos, fez o anúncio do Santo André Futebol Limitada, nome jurídico da instituição que não perderá a identidade com que se tornou conhecida e respeitada há quase 40 anos. Jairo Livolis foi sincero quando relacionou o sucesso do futebol do Santo André nos últimos anos à combinação da racionalidade do trabalho com o imponderável da sorte.
Quem conhece os detalhes da formação da equipe que conquistou o principal título do futebol da região em todos os tempos, a Copa do Brasil de 2004 na final contra o Flamengo, no Maracanã, não descartaria jamais o peso dos deuses no resultado. O Santo André de salários baixíssimos e jogadores à margem do mercado saiu valorizadíssimo daquela competição. Depois de disputar, no ano seguinte, a Taça Libertadores da América, tornou-se impossível segurar os jogadores porque os custos explodiam e as receitas permaneceram esquálidas e estáveis.
O Santo André clube-empresa também não terá preocupação em segurar jogadores que saltem para o estrelato. A diferença é que, sob os auspícios de um planejamento que leve em conta investimento, despesa e venda, o que se pretende é tornar a roda das negociações uma fábrica de dividendos, no mais puro e legítimo interesse capitalista. Até porque a contrapartida são prejuízo e novos desembolsos.
Já não se sustenta mais a idéia antiga e surrada de que é melhor arriscar com as vestes surradas de um regime profissional cada vez mais em desuso do que brilhar sob o explícito interesse econômico. De maneira geral, aos torcedores não interessa a cor do gato do regime administrativo, desde que o gato cace o rato dos resultados.
O sétimo lugar do Santo André na Série B do Campeonato Brasileiro desta temporada é mais que indício de que o regime empresarial que marcará a próxima temporada recolhe legado administrativo importante. Por isso, dificilmente tanto o presidente Jairo Livolis quanto o vice-presidente de futebol Celso Luiz de Almeida deixarão de participar do Conselho Consultivo, órgão que definirá as bases do clube-empresa. É possível também que pelo menos um deles, mais provavelmente Jairo Livolis, atue diretamente como executivo da equipe.
Jairo Livolis lembrou durante o rápido discurso em que apresentou o organograma do clube-empresa que o Santo André do Campeonato Brasileiro desta temporada ostenta a última colocação no ranking de investimentos. A tradução é a seguinte: os demais 19 participantes do campeonato custearam o futebol à base de valores monetários muito acima dos do Santo André.
Se houvesse um prêmio para a equipe de melhor produtividade, dividindo-se os valores aplicados pelos pontos conquistados, o Santo André certamente seria campeão. É claro que essa equação é importante, que até serve de consolo para quem não subiu para a Série A, mas é insuficiente. Para o torcedor, nada substitui uma conquista. Mesmo o quarto lugar, que daria direito ao acesso.
O modelo aprovado pelo Santo André provavelmente é o primeiro estágio de uma empreitada que poderá incluir novos investidores.
Os acionistas que resolveram acreditar são em larga escala torcedores do clube. Entretanto, nada impede que, mais à frente, nacos de ações sejam negociados com investidores nacionais e internacionais. Antes que o modelo doméstico se confirmasse houve tratativas com um grupo internacional. O presidente Jairo Livolis preferiu o descarte. Assombrou-o a insegurança de fechar o último mandato com o repasse do futebol a investidores exclusivamente financistas.
Os próximos tempos vão ser decisivos. Vai-se conhecer o arcabouço que fará a roda do futebol do Santo André girar para valer. A expectativa é sobre a atuação do Conselho Consultivo, formado por sete representantes dos acionistas. Um clube-empresa obrigatoriamente tem compromisso com resultados esportivos e financeiros mais candentes do que um clube convencional. A sorte é sempre bem-vinda, mas será menos preponderante na medida em que se torna quesito natural, e não peça fundamental na execução dos projetos.
Tivesse um pouco mais de recursos financeiros neste ano o Santo André possivelmente teria chegado à Série A do Campeonato Brasileiro. A impossibilidade de contar com elenco de pelo menos 18 jogadores do mesmo nível pesou em jogos nos quais alguns titulares tiveram de cumprir suspensão automática ou se contundiram.
Quem conhece futebol sabe que num campeonato de pontos corridos a uniformidade técnica geralmente é traduzida em regularidade que, por sua vez, desemboca em bons resultados. Com um time na conta do chá, o Santo André até que fez demais. Com muita sorte. Com menos, poderia ter permanecido na zona de rebaixamento das primeiras rodadas.
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14/10/2025 SANTO ANDRÉ ANTECIPOU SAFIEL DO CORINTHIANS