Esportes

Ilusão de ótica

DANIEL LIMA - 04/09/2007

Os incorrigivelmente otimistas e matematicamente descuidados olham para a tabela da Série B do Campeonato Brasileiro e dizem com a convicção dos incautos:

“Estamos a apenas sete pontos da linha de classificação”.

A frase tanto serve para dirigentes e torcedores do Santo André como para dirigentes e torcedores do São Caetano, equipes que somaram 27 pontos até agora na competição (40% de Índice de Aproveitamento), ao olharem que o quarto colocado, o Marília (só sobem os quatro primeiros para a Série A), somou 34 pontos dos 66 disputados (ou 51% de Índice de Aproveitamento).

Trata-se de ilusão de ótica, não mais que isso. Há de reagir o leitor andreense ou caetanense que esfrega os olhos para conferir a classificação e abomina esse tipo de conclusão deste jornalista.

Como ilusão de ótica?

Sim, pura ilusão de ótica.

O que separa o Santo André e o São Caetano da zona de classificação não são apenas sete pontos (27 para 34), mas algo muito maior, bem maior: são 11 pontos percentuais ou 21,5% de diferença do Índice de Produtividade entre o atual quarto colocado e a dupla de concorrentes do Grande ABC.

Ainda outro dia escrevi sobre Índice de Produtividade. Basta procurar nestes arquivos para reavivar a memória, mas vou repetir o básico: quem olha a classificação meramente por conta da ordem de pontos vai cair do cavalo. A questão é matemática.

O índice de corte para chegar à Série A ao faltarem 16 rodadas para o encerramento da competição é de 51%, conquistado pelo Marília. A prevalecer essa marca, tanto o Santo André quanto o São Caetano vão precisar somar 31 pontos dos 48 que cada um ainda vai disputar. Ou seja, 64,6% de Índice de Aproveitamento suplementar. Uma parada indigesta.

Há quem faça conta simples de que bastam sete pontos nas próximas rodadas para livrar a diferença que separa tanto o Santo André quanto o São Caetano do quarto colocado. São torcedores e dirigentes adeptos do congelamento de pontos dos adversários, como se a tabela fosse estática, como se adversários fossem candidatos à perda de todos os pontos que vão disputar, inclusive quando se enfrentarem. Uma tremenda bobagem.

Diferentemente de comboio ferroviário, no qual os vagões permanecem respectivamente um atrás do outro até a chegada ao destino, a classificação da Série B e de qualquer outro campeonato é móvel, embaralhada, ao sabor dos resultados. Quem vacila em qualquer etapa da competição sofre para se recuperar. Não é à toa que o São Paulo faz de cada jogo batalha campal.

Há um segundo bloco de candidatos a uma das quatro vagas à Série A do Campeonato Brasileiro que está acossando os titulares. É uma pressão constante. Da mesma forma que se corre feito diabo da cruz para fugir da zona de rebaixamento.

Por isso, a simplicidade de sete pontos de diferença é pura ilusão de ótica mesmo. O que vale é o Índice de Aproveitamento. Para provar essa teoria, basta dizer que se tanto Santo André quanto São Caetano ganharem cada um os próximos três jogos, somando outros nove pontos e, teoricamente, segundo os simplistas, em condições de ultrapassar o atual quarto colocado, o Índice de Aproveitamento que hoje é de 40% chegará a 48%. Portanto, três pontos abaixo da marca de corte de 51%. Serão necessárias quatro vitórias seguidas para que se chegue, de fato e provisoriamente, entre os quatro primeiros. Uma façanha e tanto quando se sabe que se trata de campeonato muito equilibrado. Basta um único empate (e três vitórias) nessa hipotética disputa para que o índice caia bem abaixo da marca de corte, atingindo 46%. Vejam, portanto, como faz diferença qualquer resultado que não seja a vitória — que, em última análise, significa 100% de aproveitamento.

Observando-se a classificação da Série B do Brasileiro e verificando que a diferença entre as duas equipes da região é de apenas um ponto percentual em relação ao quarto time mais mal colocado na competição e que, portanto, está na zona do rebaixamento (no caso, o Avaí de Santa Catarina, com 39% de Índice de Aproveitamento), a lógica indica que o melhor mesmo é pensar em escapar do rebaixamento.

Até prova em contrário.


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