Esportes

Bicho-papão doméstico

DANIEL LIMA - 25/09/2007

Por mais que queira, não consigo minimizar a paixão por futebol. Além da paixão específica por uma, duas ou três cores e gradações diferentes, futebol é uma das poucas atrações que me retiram da escrita, da leitura, da corrida em busca de mais saúde. Futebol é minha terapia, meu antiestresse, minha fuga da racionalidade cotidiana embora, paradoxalmente, faça uso de seus ensinamentos na pedagogia prática do empreendedorismo.

Por isso, assisto ao máximo de jogos que posso do Campeonato Brasileiro. Reorganizo minha agenda para dar espaço ao futebol. Minhas obrigações profissionais são múltiplas, mas tenho a vantagem de não frequentar botecos, não apreciar eventos sociais e tantos outros compromissos que nos sugam tempo e paciência.

O que lastimo de verdade é que muitos profissionais da mídia que vivem de futebol são amadores. Não se dedicam à atividade com um mínimo de atenção e interesse. Outros, é verdade, são especialistas. Honram a profissão.

Assisti a São Paulo e Boca na última semana. Um jogo que se reproduzirá nesta semana pela Taça Sul-Americana. Para variar, a TV Globo segue como monumento à audiência. O comentarista Paulo Roberto Falcão, o analista de arbitragem e o narrador passaram o jogo todo na quarta-feira passada a tentar dourar a pílula do domínio completo que o time argentino exerceu sobre um São Paulo capenga. Foi o São Paulo para o Boca Juniors o que os adversários têm sido para o Tricolor no Campeonato Brasileiro.

Pena que nem na TV Globo nem em outros programas e veículos tenha aparecido um único cronista a tentar explicar as razões que levaram o São Paulo a virar um time comum naquele encontro, o que não significa dizer que vai repetir o fracasso nesta quarta-feira, no jogo de revanche. Como se sabe, o São Paulo tem por costume se transformar no Morumbi em competições internacionais. Há forte imantação entre jogadores e torcedores.

Para encurtar a história e para que os leitores não pensem que estou a encher linguiça, cito rapidamente alguns pontos que determinaram o controle total do jogo pelo Boca naquela quarta-feira, de modo que o resultado de 2 a 1 foi um presente imerecido para um São Paulo aniquilado:

a) O Boca marcou com aplicação a saída de bola do São Paulo pelos alas Souza e Richarlyson. Os são-paulinos não conseguiram se movimentar. Richarlyson fez uma das piores exibições com a camisa do Tricolor. Ao opor-se à saída de bola sempre farta e veloz do São Paulo pelas laterais, o Boca estrangulou a mobilidade dos demais jogadores. De fato, os alas são os armadores do São Paulo. Por aqueles espaços se revezam vários jogadores num mesmo jogo. Na quarta-feira, os caminhos foram interditados.

b) O meio-de-campo do São Paulo sofreu forte marcação do meio-de-campo do Boca Juniors. Não houve espaço para troca de passes em movimento, para triangulações, inclusive porque sempre se dava a ausência dos alas, amarrados taticamente.

c) O Boca Juniors marcou o São Paulo o tempo todo no campo de defesa do adversário. As tentativas de lançamentos dos brasileiros foram infrutíferas porque o Boca encurtou o campo de jogo com avanço sincronizado dos zagueiros e compactou o espaço no meio de campo.

d) Diferentemente do São Paulo, o Boca soube utilizar as extremidades do campo. Seus atacantes e meias deslocaram-se preferencialmente nas costas dos zagueiros, altos e lentos. Os dois gols foram consequência dessa articulação. Inventaram até que o zagueiro Miranda escorregou no primeiro gol, quando, de fato, estava atordoado com um dos efeitos evidentes da maior movimentação dos adversários: o cruzamento em diagonal, algo pouco comum nos jogos do Brasileiro, quando o São Paulo arma verdadeiras blitze para impedir esse tipo de jogada.

e) Mesmo nas cobranças de faltas, que o São Paulo geralmente transforma em impedimentos no Campeonato Brasileiro, o Boca Juniors soube neutralizar o treinamento do técnico Muricy Ramalho. A tática foi simples porque a cobrança jamais foi direta, em movimento previsível que os tricolores destroem com passos à frente na hora da cobrança. O Boca preferiu rápida troca de passes em vez do cruzamento direto, que só veio na sequência, quando a defesa do São Paulo se sentia aparvalhada com a movimentação imprevista.

f) A qualidade individual do Boca também ajudou a dar o tom naquela partida, é claro. Sem individualidades competentes, o coletivo sofre avarias e raramente deixa a zona da mecanização. O Boca soube temperar o jogo. Foi brando quando necessário e apertou o ritmo quando sentia o adversário vulnerável. Enfim, soube modular o ritmo de acordo com as circunstâncias.

Pode ser que a história do jogo de amanhã à noite no Morumbi seja completamente diferente, porque o São Paulo tem estrutura tática que enseja reação. Mas, convenhamos, não é nenhum bicho-papão internacional. Talvez seja apenas um bicho-papão doméstico, por conta de o técnico Muricy Ramalho e a diretoria estarem anos-luz à frente da concorrência.


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